Manaus, 6 de julho de 2026
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Manaus, 6 de julho de 2026

Cenário

Rede Sustentabilidade enfrenta crise interna e tenta conter esvaziamento no AM

Especialista aponta que, sem federação e sem quociente, a sigla tende a perder competitividade, enquanto a crise interna aprofunda a desarticulação.

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Lideranças Vanda Witoto, Marcos Aripuanã e Jecinaldo Sateré (Fotos: Divulgação)

Manaus (AM) – A Rede Sustentabilidade no Amazonas vive um dos momentos mais delicados de sua história recente. O partido, que havia sido escolhido por diversas lideranças indígenas para unificar forças e buscar uma representação inédita nas eleições de 2026, enfrenta um forte conflito interno que ameaça dispersar o grupo e comprometer um projeto eleitoral construído ao longo de anos.

A ruptura começou após o racha nacional entre duas correntes da legenda: a Rede Vive, ligada à ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e a Rede pela Base, liderada por Heloísa Helena.

O embate resultou em disputas judiciais e em uma intervenção nacional, que afastou o grupo ligado à liderança indígena Vanda Witoto, até então porta-voz no estado, e colocou Marcos Apurinã como porta-voz interino.

Intervenção provoca insatisfação e ameaça dispersar lideranças

Com a intervenção, o bloco indígena formado para fortalecer o projeto eleitoral entrou em crise. Figuras como Vanda Witoto e Jecinaldo Sateré passaram a dialogar com outras siglas, entre elas a Federação Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV), o MDB e o PSD.

A expectativa inicial era que a Rede fosse a legenda capaz de concentrar votos indígenas, ribeirinhos e de movimentos sociais, garantindo pela primeira vez a eleição de um representante indígena no Amazonas, estado que, apesar de ter a maior população indígena do país, jamais elegeu um deputado federal ou estadual indígena.

A intervenção nacional, porém, abalou a confiança de parte das lideranças e fragmentou o projeto coletivo.

Porta-voz detalha disputa no partido

Em exclusividade ao Portal AM1, o recém-empossado porta-voz da Rede Sustentabilidade no Amazonas, Marcos Apurinã, afirmou que o partido viveu, nos últimos meses, um processo de tensão interna marcado por divergências entre grupos locais e reflexos de um conflito nacional envolvendo a ministra Marina Silva e a senadora Heloísa Helena.

Segundo ele, essas disputas impactaram diretamente a dinâmica da sigla no estado e resultaram na judicialização do processo de escolha da nova direção.

Marcos Apurinã explica que seu grupo, chamado Rede pela Base, assumiu interinamente o comando após não ter sido aceito pela corrente Rede Vive, que liderava a sigla no estado até então.

“Nós não fomos aceitos pelo grupo que estava na frente da Rede. Houve uma resistência, e acabamos indo para as vias legais. A justiça tomou a decisão, e hoje estou há cerca de 30 dias como porta-voz”, afirmou.

O dirigente diz não ter conhecimento detalhado da divergência entre Marina e Heloísa Helena, mas admite que o conflito nacional repercutiu em alguns estados, inclusive no Amazonas. Apesar disso, ele rejeita a ideia de que o partido esteja fragmentado.

“Eu não vejo estremecimento que leve à falência do partido. O Brasil é democrático, e os partidos também. O que houve foram divergências, mas nada que justifique a divisão que tentaram impor aqui”, disse.

Sobre o processo de transição, Marcos Apurinã afirmou ter buscado diálogo com o grupo anterior, mas não obteve sucesso.

“Eles disseram que não aceitariam o nominato. Eu apenas cumpro o trabalho que me foi confiado”, declarou a reportagem.

O desafio do quociente eleitoral

Para além da crise interna, especialistas apontam que a Rede Sustentabilidade enfrenta um obstáculo estrutural: a dificuldade de alcançar o quociente eleitoral, necessário para eleger vereadores e deputados.

O cientista político Helso Ribeiro explicou ao Portal AM1 que essa é a principal fragilidade do partido nas eleições recentes.

“Na verdade, a eleição proporcional se dá pelo quociente eleitoral. A Wanda Witoto é um exemplo interessante: ela teve muitos votos, mais do que alguns candidatos eleitos, mas ficou de fora porque o partido não atingiu o quociente”, explica Helso.

Segundo o analista, esse cenário leva candidatos com forte votação ou identidade política bem definida a migrarem para siglas mais competitivas.

“Às vezes, de forma estratégica, candidatos que têm uma ideologia clara abandonam o partido que representa essa ideologia para ir para outro onde sabem que podem contar com o quociente eleitoral. Eu diria que é o caso da Wanda”, disse.

Helso ressalta que, desde o fim das coligações proporcionais, partidos pequenos como a Rede enfrentam mais dificuldades.

“Hoje, ou se faz uma federação forte ou o partido precisa garantir sozinho o desempenho. E a Rede não conseguiu se garantir na última eleição. O exemplo é claro: eles não fizeram o quociente eleitoral”, destacou.

Reconstrução e futuro

Agora, o foco do porta-voz é reconstruir a unidade interna, retomar o crescimento do partido e fortalecer suas bases no estado. Entre as prioridades, estão a retomada de filiações e a reorganização territorial da Rede no interior do Amazonas, onde Apurinã diz já ter histórico consolidado de atuação.

“Nosso trabalho é de base. Já vínhamos fazendo isso antes, e agora vamos intensificar para garantir governança e estabilidade”, afirmou.

Apesar das dificuldades, Marcos Apurinã afirma estar comprometido em recuperar a força política da sigla no Amazonas. Ele diz acreditar que o trabalho de base, aliado a novas filiações e ao apoio de lideranças do interior, pode recolocar o partido nos trilhos.

“Jamais deixaremos a Rede à falência. Com trabalho e diálogo, vamos estabilizar o partido e seguir fortalecendo o projeto”, conclui.

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