Dia em que Sadraque Santos sai do presídio com sua família (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)
Manaus (AM) – O empresário amazonense Sadraque Santos afirmou que vai processar o Estado do Amazonas após passar 150 dias preso por engano em São Paulo, em cumprimento a uma determinação do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) por tráfico de drogas. Em entrevista ao Portal AM1, ele relatou os traumas e as dificuldades vividas durante o período em que esteve detido injustamente.
“Foram 150 dias preso. Passei 40 dias sem contato com minha família e quase 40 dias sem saber o motivo da prisão. Só fui descobrir o motivo depois que minha advogada me visitou. Vou ingressar com uma ação contra o Estado do Amazonas. Minha advogada está reunindo os documentos e acredito que também fará uma denúncia à Corregedoria”, afirmou o empresário.
Sadraque relatou que conviveu com detentos de diferentes perfis criminais, incluindo homicidas, traficantes e assaltantes.
“Fiquei junto com todo tipo de criminoso, mas fui respeitado e bem tratado. Eles mesmos reconheciam que eu não fazia parte do crime e que era uma vítima do sistema”, contou.
Ele relembrou ainda o momento da prisão e como chegou à unidade prisional.
“Cheguei na cadeia apenas com a roupa do corpo, uma escova e creme dental, um copo e uma colher. Os outros itens de higiene, como sabonete, shampoo, sabão em pó e uma muda de roupa, foram doados por outros presos”, relatou.
Conforme relatou Sadraque Santos, o motivo de sua prisão teria sido o envolvimento indireto com uma cliente de sua agência de viagens, presa em 2018 por tráfico de drogas. Durante a investigação, essa mulher teria mencionado o nome da empresa de Sadraque, o que acabou levando à sua inclusão no processo.
“Essa cliente, eu não faço ideia do paradeiro dela. O que soube é que ficou apenas dois meses detida e foi colocada em liberdade. Espero que Deus abençoe a vida dela e que tenha abandonado o crime. Não guardo mágoa de ninguém. Eu não tinha ideia do que ela fazia, e isso foi comprovado no processo”, afirmou o empresário.
Sadraque destacou ainda que o erro partiu das autoridades responsáveis pela acusação.
“O erro todo foi da promotoria, que não verificou os fatos. As próprias testemunhas de acusação deixaram claro desconhecer qualquer envolvimento meu em ilícitos. No processo, que tramita em sigilo e que acompanhei com minha advogada, a acusação contra mim é muito frágil e isso ficou evidente na audiência. É absurdo ver que quem cometeu o crime ficou apenas dois meses presa, enquanto eu, inocente, passei cinco meses detido”, desabafou.
Condições precárias no sistema penitenciário
O empresário fez duras críticas às condições do sistema prisional.
“O sistema penitenciário é cruel e desumano, como a imprensa bem sabe. É a decadência do ser humano. Entrei no presídio com 79 kg e saí com 68 kg. A água de consumo é a mesma usada para o banho, de péssima qualidade. A comida é horrível. Eu só comia direito quando minha mãe me visitava e trazia algo para comer”, desabafou.
Traumas e busca por justiça
Sadraque destacou que, apesar de buscar reparação judicial, o trauma deixado pelos meses de prisão não será apagado.
“Foram dias difíceis e terríveis, traumas que levarei para o resto da vida. Dinheiro nenhum vai trazer de volta a vida normal que eu levava”, lamentou.
Segundo ele, ao descobrirem sua inocência, os agentes responsáveis pela prisão ficaram “sem reação”.
“Ficaram sem reação. Na cabeça deles, todo mundo ali é criminoso e merece o pior. A esposa de um deles, que é da mesma religião que eu, apenas me desejou sorte e bênçãos de Deus”, contou.
O empresário também afirmou que, desde sua libertação, nenhum representante do Tribunal de Justiça do Amazonas entrou em contato com ele.
“Não tive contato de ninguém do TJAM, e nem espero. Em outros casos de injustiça, nunca vi reconhecerem o erro. Para eles, é só mais um caso. Deixo isso nas mãos de Deus. Agora, o que posso fazer é buscar reparação”, afirmou.
Fé e superação
Sadraque encerrou o relato com uma mensagem de fé e esperança, citando exemplos bíblicos de superação.
“Sempre li na Bíblia sobre servos de Jeová que passaram por prisões e provações, como Paulo, Pedro e José. Entendi que Deus não pega leve com quem Ele investe pesado. Muitas vezes me perguntei por que estava passando por aquilo, mas orei pedindo sabedoria e paciência, e Ele me fortaleceu. Quero usar esse momento para alertar outras pessoas: qualquer um pode ser vítima disso. Sempre vi essas histórias em filmes e séries, até que vivi na pele. Foi difícil, mas vou seguir em frente, trabalhando e realizando sonhos”, concluiu.
Pronunciamento do TJAM
O Portal AM1 entrou em contato com a Diretoria de Comunicação do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), que informou que deverá se manifestar sobre o caso até esta quarta-feira (29/10).
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