O episódio ocorreu em meio à troca de comando da Amazonprev. Embora a assinatura da Autorização de Aplicação e Resgate (APR) esteja datada de 31 de julho e registrada em nome de Ary Souza, o documento informa que a aplicação teria ocorrido em 6 de junho, ainda durante a gestão da então presidente Maria Neblina Maraes.
Na base pública do Ministério da Previdência, porém, não há registro da autorização referente ao Master.
Relatórios internos, divulgados meses depois, apontam que não foram encontradas atas, votos ou deliberações da diretoria que respaldassem a compra do título financeiro.
Em reunião de novembro de 2024, um conselheiro classificou o episódio como “uma surpresa desagradável”, destacando que transações dessa natureza “deveriam constar em atas diligenciadas e ser decisões colegiadas”.
O assunto tornou-se alvo de apuração interna, mas o Conselho de Administração ainda não obteve acesso ao fluxo completo de documentos que antecederam a aquisição.
Relação com Wilson Lima
A trajetória de Ary Renato Vasconcelos de Souza dentro do governo do Amazonas está diretamente ligada ao governador Wilson Lima:
-
foi secretário extraordinário de Projetos Especiais entre 2019 e 2022, na primeira gestão de Wilson Lima;
-
atuou como contador da campanha que reelegeu o governador em 2022, recebendo R$ 15 mil por serviços de assessoria financeira;
-
teve sua empresa de contabilidade contratada por outros candidatos do União Brasil e pelo diretório estadual do partido;
-
filiou-se ao União Brasil em dezembro de 2022, um mês após o segundo turno;
-
foi nomeado gerente da Amazonprev em janeiro de 2023 e, posteriormente, presidente da instituição em julho de 2024.
A indicação para a chefia do fundo ocorreu um mês após o aporte no Master, operação da qual Ary Souza participou como gerente.
Investimento sob risco após liquidação do Master
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master em 18 de novembro de 2025, colocando a Amazonprev na fila de credores. Como letras financeiras não têm garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), há risco concreto de perda patrimonial.
A aplicação representa menos de 0,5% do capital investido do fundo, que administra cerca de R$ 10 bilhões destinados à previdência de quase 100 mil servidores.
Ainda assim, o episódio é considerado sensível em razão do tamanho da operação nacional envolvendo o banco: fundos de pensão estaduais e municipais aplicaram quase R$ 2 bilhões no Master.
PF investiga operações do banco
A Polícia Federal apura indícios de fraude em transações realizadas pelo Master na tentativa de manter sua liquidez até o fim de 2025.
Entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, pelo menos R$ 1,867 bilhão foi movimentado entre entidades previdenciárias e o banco.
A Amazonprev está entre as instituições que adquiriram letras financeiras nesse período.
Respostas do governo e da Amazonprev
A Amazonprev afirmou que Ary Souza possuía capacidade técnica e habilitação para exercer a presidência e que, entre junho de 2024 e maio de 2025, sua gestão gerou R$ 864 milhões em retorno, seguindo as normas do Regime Próprio de Previdência Social (RPPS).
O governo replicou a mesma nota, alterando apenas o período para julho de 2024 a abril de 2025.
A entidade declarou ainda que acompanha o caso junto ao Banco Central e que o aporte no Master “não oferece risco ao pagamento de aposentados e pensionistas”.
Por meio de seu advogado, Maria Neblina Maraes ressaltou que é servidora de carreira há três décadas e que todo o processo decisório da Amazonprev é “público e transparente”.
Ela também destacou que o Master estava, desde maio de 2024, listado pelo Ministério da Previdência entre as instituições habilitadas a negociar letras financeiras com RPPS.
Saída de Ary Souza e continuidade da apuração
A gestão de Ary Souza na presidência durou dez meses. Ele deixou o cargo em maio de 2025, sendo substituído por Francisco Evilazio Pereira, então secretário de Justiça do governo Wilson Lima.
Apesar das explicações oficiais, o Conselho de Administração segue sem acesso aos documentos completos da operação, e o processo interno permanece em aberto, enquanto a Polícia Federal (PF) continua investigando o fluxo de recursos envolvendo o Banco Master e fundos de previdência pública.
LEIA MAIS: