Especialista em educação analisa regime de tele aulas contra o coronavírus no Amazonas

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6 de julho de 2020
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Especialista em educação analisa regime de teleaulas contra o coronavírus

Prof. Dr . José Augusto Neto analisa regime de teleaulas adotado pelo governo do Amazonas para combater o avanço do coronavírus

Especialista em educação analisa regime de teleaulas contra o coronavírus

Em tempos de pandemia do novo coronavírus, causador da Covid-19, doença que já matou aproximadamente 13 mil pessoas no mundo, sendo 1/3 dessas mortes na Itália, o Brasil – que registrou até sexta-feira, 20, 18 vítimas fatais da pandemia, adota medidas restritivas para conter o avanço da doença.

No Amazonas não é diferente, o governador Wilson Lima (PSC) determinou o fechamento do comércio, restringiu acessos aos órgãos públicos, cancelou viagens intermunicipais e estaduais e decretou a suspensão das aulas presenciais dos alunos da rede pública estadual de ensino.

No entanto, para não comprometer o Ano Letivo, o governador determinou que as aulas serão realizadas no modelo teleaula, em TV aberta.

Nesse sentido, o Amazonas1 buscou especialistas na área de educação para explicar como a decisão da teleaula, adotada em outros estados também, vai impactar na vida dos alunos.

 Um desses peritos procurados pelo portal é o professor doutor em Educação, José Augusto de Melo Neto.

O educador é servidor concursado da Secretaria de Educação e Desporto do Amazonas (Seduc) e também especialista em tecnologia, membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas e Educação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e ex-Secretário de Educação do Amazonas.

Além disso, foi um dos idealizadores do Centro de Mídias de Educação do Amazonas (Cemeam) e na avaliação dele,  a decisão do governador foi muito feliz pois a rede estadual dispõe das ferramentas e da expertise dos professores do Centro de Mídias.

 

Leia a entrevista:

 

O Centro de Mídias pode facilitar as aulas para os alunos da rede estadual nesse período de regime especial?

 

Certamente. Os estados que têm a infraestrutura de estúdios já conectados a algum tipo de transmissão com apoio das tecnologias digitais terão mais agilidade para enfrentar esse problema. É o caso do Amazonas, Pará, Bahia, Piauí e São Paulo.

Outros estão se adaptando. Mas o diferencial vai ser o papel dos professores.

Como eles vão interagir e acompanhar o aprendizado dos alunos.

Temos muitos professores e técnicos da área educacional qualificados e esta situação pode até representar uma mudança dos modelos metodológicos

Um outro aspecto que precisa ser evidenciado nas escolas públicas é que os alunos vão precisar de alguma forma continuar tendo acesso à alimentação fornecida pelas escolas.

Cada governo vai decidir a melhor forma, se um cartão tipo vale-alimentação ou um complemento de bolsa social. O que importa é dar opções e não parar de aprender. Quando essa crise passar, vamos nos tornar uma sociedade menos individualista e mais consciente.

 

Como a China e os outros países estão lidando com essa situação?

 

A China criou uma plataforma nacional com aulas online para os alunos acessarem, mas sem obrigatoriedade pois a desigualdade digital na China iria excluir os alunos das zonas rurais sem celulares ou tablets e principalmente sem cobertura de plano de dados.

Como alternativa, as videoaulas foram transmitidas pela tv aberta mas sem interatividade entre professores e alunos.

As primeiras escolas das regiões menos afetadas na China já estão reabrindo após 50 dias. Outros países na Europa e os Estados Unidos enfrentam os mesmos problemas. Os sistemas de ensino não estavam preparados para uma pandemia.

 

No Brasil não está sendo diferente, certo?

 

O Brasil tem uma legislação educacional de quase 25 anos que garante o uso da educação a distância em situações emergenciais (como agora com a pandemia), mas não é utilizada por desconhecimento e até por preconceito contra as tecnologias como apoio à educação.

Na semana passada, praticamente todos os estados brasileiros suspenderam as aulas e emitiram deliberações e resoluções para reorganizar o calendário escolar.

Todos temem perder o ano se a suspensão chegar a 100 dias, o equivalente a dois bimestres, mas não deveria ser assim.

O argumento dos tecnofóbicos é que os alunos não têm internet em casa como se esta fosse a única alternativa de manter o aprendizado fora da escola.

Há vários estados com propostas similares, utilizando videoaulas transmitidas pela TV Pública e aplicativos para comunicação entre professores e alunos.

O diferencial de alguns é oferecer o acesso móvel patrocinado pelo Estado ou pelas operadoras para que esse tráfego de dados não seja cobrado do aluno ou do professor.

 

Os alunos poderiam então acessar as aulas sem descontar dos seus planos de dados pré-pago, por exemplo?

 

Exatamente. Alunos e professores. Da mesma forma que algumas operadoras de tv paga e plataformas de streaming estão abrindo o seu sinal para todos, outras estão dando bônus para acessarem os serviços de forma gratuita.

A prioridade é social. Na educação, o acesso deve ser livre e multiplataforma.

Se seguirem a ideia de disponibilizar conteúdos educacionais em um ambiente virtual e o aluno ter que acessar por conta própria, vai fracassar.

Além de oferecer alternativas, o planejamento efetivo do conteúdo das aulas neste período de contenção, seja de 15 ou 100 dias, deveria ser flexível, utilizando todos os meios a favor da autonomia dos alunos, com o acompanhamento dos professores baseados nas metodologias ativas.

Não se deve virtualizar as aulas expositivas e deixar os alunos em uma posição passiva. Talvez utilizar o princípio de Pareto ou a técnica Pomodoro. Temos que pensar em rádios e podcasts também. Neste momento, menos é mais.

 

Professor, sua pesquisa trata das tecnologias aplicadas à educação?

 

Sim, mas do ponto de vista da construção das políticas públicas. A pesquisa investigou como são elaboradas as políticas nacionais para o uso das tecnologias digitais nas escolas públicas brasileiras e analisou este impacto no Amazonas, especialmente nas escolas rurais do interior do estado que são as que tem maior dificuldade no acesso aos serviços de infraestrutura técnica e equipamentos.

 

E qual foi o resultado, a conclusão da pesquisa?

 

As políticas públicas precisam enfrentar de frente as desigualdades entre os indivíduos na sociedade. Foi demonstrado nesta pesquisa realizada que o modelo adotado pela nova política do Ministério da Educação não atendeu este requisito ao padronizar a solução e desconsiderar os contextos regionais. Como resultado, houve uma adesão precária das escolas públicas amazonenses e as metas não foram alcançadas, mantendo o modelo de exclusão e desigualdade digital.

 

Esta desigualdade pode se tornar um problema maior neste momento de suspensão das aulas no Brasil e no Mundo por causa do Coronavírus?

 

Em primeiro lugar, o mais importante é preservar a saúde e a vida das pessoas. Em relação à questão educacional e suas desigualdades há vários desafios ampliados neste momento. Primeiro, é necessário dizer que a decisão das escolas pararem como medida restritiva é mais do que acertada. Alguns países relutaram, apesar disso mais de 100 nações afetadas pelo vírus já suspenderam as aulas até agora, ultrapassando 1 bilhão de alunos no mundo inteiro. O primeiro problema é que não sabemos o tempo desta paralisação. No exemplo da China, o 1º país afetado, eles suspenderam as aulas no final de janeiro e adotaram um mantra: “As aulas pararam, mas não pare de aprender”.

 

Amazonas1 TV

Publicado por Amazonas1

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