(Foto: Euzivaldo Queiroz/Divulgação)
Manaus (AM) – Uma pesquisa do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior (Semesp) realizada no ano de 2022 alertou que o Brasil pode enfrentar, até 2040, uma escassez de 235 mil professores da educação básica. Como resultado, o funcionamento da educação pública pode ser comprometido. O estudo aponta que o país precisará de 1,97 milhão de professores em 2040, mas deve contar com apenas 1,74 milhão, o que representa uma defasagem preocupante para o sistema educacional.
Em entrevistas ao Portal AM1, o presidente do Sindicato dos Professores e Pedagogos de Manaus (Asprom), professor Lambert Melo, e a professora Helma Sampaio, coordenadora administrativa do sindicato, relataram a grave situação enfrentada pelos profissionais da educação no Amazonas. De acordo com eles, a perda de atratividade da carreira docente decorre da desvalorização salarial, da falta de estrutura nas escolas e do abandono por parte do poder público.
Desinteresse crescente e condições precárias
Ao Portal AM1, a socióloga Bianca Rocha pontuou que a carreira docente, tanto no Amazonas quanto no restante do Brasil, enfrenta crescente desvalorização, consequência de crises econômicas, cortes nos investimentos em educação e condições de trabalho precárias. A especialista aponta que baixos salários, desgaste emocional, aumento da violência nas escolas e falta de reconhecimento social tornam a profissão menos atrativa, afastando especialmente os jovens.
“A desvalorização salarial e a precarização das condições de trabalho são fatores centrais que afastam os jovens da carreira, o aumento da violência nas escolas e o desgaste emocional também contribuem para a percepção negativa da profissão”, explicou a psicológa.
Bianca observa ainda que a busca por carreiras mais bem remuneradas, estimulada pela mídia e pela cultura de consumo, contribui para que áreas como tecnologia, negócios e saúde se tornem prioridade entre os jovens, enquanto a docência passa a ser percebida como uma opção de menor prestígio. A socióloga destaca também a ausência de políticas públicas eficazes e a escassa divulgação de experiências positivas na área, fatores que reforçam a percepção negativa sobre a profissão.
No Amazonas, segundo Bianca, é perceptível o envelhecimento do corpo docente e a escassez de novos profissionais qualificados. Muitos educadores enfrentam baixos salários, acumulam aulas fora de sua formação ou precisam complementar renda com outros empregos.
“Nós podemos ver que no Amazonas há um envelhecimento do corpo docente e a escassez de novos profissionais qualificados. Os baixos salários impossibilitam uma vida digna e levam professores a assumirem diversas aulas de disciplinas que não fazem parte de sua formação ou até outros empregos”, comentou.
A especialista ressalta que o afastamento dos jovens da carreira de professor é resultado de um conjunto complexo de fatores e afirma que a reversão dessa tendência depende de políticas públicas que valorizem a docência, melhorem as condições de trabalho e recuperem o prestígio social da profissão, garantindo uma educação de qualidade para as futuras gerações.
Falta de Apoio Governamental no Amazonas
A carreira docente, tradicionalmente reconhecida por sua importância social e educativa, enfrenta hoje sérios desafios no estado do Amazonas, particularmente em relação à valorização salarial e ao reconhecimento profissional. Segundo o Professor Lambert Melo, Presidente do Sindicato dos Professores (Asprom Sindical), essa situação tem gerado uma percepção crescente entre os jovens de que a profissão de professor deixou de ser atraente, sobretudo do ponto de vista financeiro.
“Os jovens percebem que a carreira do magistério não é mais atraente do ponto de vista financeiro. Os salários vêm sendo achatados há anos, e dificilmente há aumento real, apenas reposições inflacionárias, quando acontecem”, afirmou o presidente da ASPROM.
O professor Lambert destaca que o governo do Amazonas não tem honrado compromissos básicos com os educadores. Em 2025, por exemplo, a data-base do ano corrente permanece atrasada, assim como a data-base de 2023, além de resquícios de inflação de anos anteriores. No total, os professores da rede estadual aguardam a reposição de 13,22% de inflação acumulada. Além disso, progressões por tempo de serviço e por titularidade, direitos que deveriam ser assegurados periodicamente, também não estão sendo concedidas.
“O governo do estado do Amazonas não fez a reposição da inflação para os professores da rede estadual de ensino, em dois momentos: na data base desse ano de 2025, que está atrasada, que não foi paga, e na data base de 2023, que também o governo ainda não pagou, está totalmente atrasada, e além disso nós temos resquícios de inflação de datas base anteriores”, declarou Lambert Melo.
O professor Lambert critica a falta de apoio governamental à carreira docente, destacando que isso impacta diretamente sua atratividade. Segundo ele, muitos jovens acabam optando por outras profissões, nas quais enxergam maior retorno financeiro e estabilidade futura.
Dessa forma, a desvalorização promovida pelo descaso governamental não compromete apenas a carreira do magistério, mas também afeta a qualidade da educação oferecida à população, gerando um ciclo de precarização que se perpetua ao longo dos anos.
“Isso tudo significa desvalorização da carreira do magistério, sem dizer que essa carreira também está sendo agredida violentamente, quando o governador do estado não paga as progressões por tempo de serviço, que devem acontecer a cada três anos, e não paga também as progressões por titularidade, quando o professor consegue atingir um determinado título, seja de especialista, seja de mestre, seja de doutor”.
O professor defende que o pagamento dos salários deve ser mantido em dia. No entanto, a reposição da inflação ainda não ocorre de forma constante. E acrescenta que considera indispensável a concessão de aumentos reais, ou seja, reajustes que ultrapassem a simples recomposição inflacionária.
“Carreira em degradação”, avalia presidente do sindicato
Em comparação com outros profissionais, Lambert Melo afirma que existe uma defasagem de cerca de 30% a 35% entre os salários dos professores com nível superior, diferença que só poderá ser eliminada com políticas de valorização efetiva. Para o professor, também é fundamental que os docentes tenham asseguradas suas progressões na carreira, tanto por tempo de serviço quanto por titulação.
Lambert Melo apontou a falta de segurança nas escolas como um fator que agrava o adoecimento docente. Ele alertou para a situação dos professores que trabalham sob constante ameaça de agressões por parte de alunos ou familiares, destacando que essas circunstâncias comprometem tanto a saúde mental dos docentes quanto a qualidade do ensino.
“O professor vive com medo de ser agredido por alunos ou pais. Falta apoio da gestão escolar e políticas públicas que garantam um ambiente de trabalho seguro. Sem isso, os jovens não vão querer seguir esse caminho”, reforçou.
Na visão do professor, a precariedade das atuais condições de trabalho tem impacto direto na percepção dos próprios alunos, que convivem com essa realidade e passam a enxergar a docência como uma carreira marcada por dificuldades e sofrimento, o que contribui para o desinteresse dos jovens em seguir o magistério.
No entanto, no interior do estado, a situação dos professores é ainda mais crítica quanto às condições de trabalho. Nesse contexto, o professor Lambert Melo relatou, em entrevista, que a precariedade é significativamente maior do que na capital.
Segundo ele, problemas como o assédio moral são mais intensos, já que gestores e coordenadores costumam agir de forma mais autoritária, o que resulta em maior opressão e adoecimento entre os docentes.
Além disso, segundo ele, há uma forte interferência política nas escolas, que classificou tais atitudes como “currais eleitorais”. Uma prática que gera perseguições e pressões sobre os professores. O sindicato defende que apenas a eleição direta para diretores poderia reduzir essas condutas e melhorar a realidade dos educadores do interior.
“Os professores enfrentam condições mais precárias e sofrem perseguições políticas intensas. A única saída seria a eleição direta para diretores de escola, o que diminuiria o assédio e o uso político das unidades escolares”, afirmou o presidente da ASPROM.
Professores adoecem e recorrem a bicos para complementar renda
De forma semelhante, a professora Helma Sampaio, coordenadora administrativa do Asprom Sindical, relatou que a falta de condições adequadas de trabalho é uma das principais dificuldades enfrentadas pelos professores da rede municipal de ensino. Segundo ela, a maioria dos alunos vem de famílias carentes, especialmente nas escolas da periferia, e não recebe o apoio necessário do poder público para permanecer frequentando as aulas.
Conforme a docente, as salas de aula estão superlotadas e grande parte das escolas funciona em prédios alugados, que não possuem estrutura física apropriada para o processo de ensino-aprendizagem. Ela destacou que muitas dessas unidades contam com salas pequenas e mal ventiladas, sem quadras para atividades esportivas e sem laboratórios de informática em funcionamento.
“A maioria das escolas funciona em prédios alugados, sem estrutura física adequada, sem ventilação, sem quadras e sem laboratórios. É impossível oferecer uma educação de qualidade nessas condições”, lamenta.
Outro problema recorrente para a professora é o salário-base de professor iniciante que, em média, é de R$ 2.677 por 20 horas semanais, valor que, segundo Helma, “é irrisório para uma profissão que exige formação superior e constante capacitação”. Ela ressalta ainda que, além das más condições estruturais, há pressão por resultados e o assédio moral como problemas recorrentes.
“Há uma cobrança excessiva por aprovação e notas altas. Isso sufoca os professores e gera adoecimento físico e emocional. Muitos acabam recorrendo a bicos para complementar a renda, vendendo produtos, dando aulas particulares ou até churrasquinho em frente de casa.”
O desinteresse pela profissão é observado por Helma por meio de relatos de experiências vividas como professora em sala de aula juntamente com seus alunos.
“Quando perguntam, por exemplo, numa sala de aula, praticamente nenhum deles opta por ser professor, porque eles sabem da nossa saúde, das nossas condições, e eles não querem isso para a vida deles”, relatou a professora.
Para Helma Sampaio, a soma de todos esses fatores, baixos salários, falta de estrutura, sobrecarga e desrespeito, tem provocado o adoecimento físico e mental de muitos professores da rede municipal. Segundo ela, a realidade atual demonstra a urgência de políticas públicas voltadas à valorização e melhores condições de trabalho no magistério.
“Ser professor ainda vale a pena”
Apesar de todas as dificuldades, ambos são esperançosos no quesito de atratividade da profissão. O professor Lambert destacou a importância do magistério como base das demais profissões. Segundo ele, nenhuma carreira existe sem a presença prévia de um educador que tenha preparado o caminho do estudante. Por isso, ressaltou, o trabalho docente não deve ser subestimado nem desvalorizado.
“Esse trabalho não pode ser menosprezado, não pode ser diminuído e precisa ser valorizado. E é importante que essa força jovem esteja ingressando no magistério para se juntar a nós, que já somos aqui da velha guarda, para continuar defendendo a carreira do magistério, para que a gente continue buscando por essa valorização que é extremamente necessária”, defendeu o professor.
Para ele, apesar das dificuldades enfrentadas pela categoria, ser professor é uma atividade nobre e essencial para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Enfatizou também que a liberdade e a autonomia do trabalho docente são pilares da democracia, que a juventude tem papel indispensável nesse processo.
“Não desistam, não se desiludam e continuem acreditando que vale a pena ser professor, porque, apesar de todos os problemas que a gente enfrenta, o trabalho que desenvolvemos é um trabalho extremamente nobre e necessário para que a gente possa construir uma sociedade cada vez mais democrática”, concluiu Lambert Melo.
Já a professora Helma destacou que o magistério é, ao mesmo tempo, uma tarefa árdua e uma missão indispensável à sociedade. Ela ressaltou a importância de que os estudantes de licenciatura compreendam, desde a formação, a necessidade de lutar por seus direitos e de se engajarem nas causas da categoria.
“Ser professor é árduo, mas é também uma missão nobre. Mesmo com tantas dificuldades, vale a pena seguir, lutar e acreditar que a educação pode transformar vidas.”
Para a docente, ser professor é também uma questão de vocação. Muitos profissionais, segundo ela, escolhem o magistério não por falta de alternativas, mas por um desejo genuíno de ensinar e contribuir com a formação de outras pessoas.
“Muitos professores seguem o magistério por opção, por desejo de quererem ser professor, com o propósito de ser professor. E que eles continuem mesmo com tantas adversidades, que eles possam seguir em frente, mas sempre nesta busca de que eles precisam se envolver com as lutas para obter as conquistas”, concluiu a professora Helma Sampaio.
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