Manaus, 13 de junho de 2024
×
Manaus, 13 de junho de 2024

Entretenimento

Estúdio de veterano da animação brasileira terá filme lançado pela Fox

Estúdio de veterano da animação brasileira terá filme lançado pela Fox

Pode soar pouco diante dos grandes títulos americanos, que chegam a ocupar mais de mil cinemas no Brasil. Mas outra comparação se faz necessária: se as produções dos EUA têm orçamentos acima dos US$ 100 milhões, “Lino” custou 6,6 milhões de reais. (Ilustração: Reprodução/ Internet)

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Lino encontrou-se em sua cama metamorfoseado num gato de pelúcia monstruoso.

O rapaz, com voz do Selton Mello, é o protagonista do longa de animação brasileiro que terá o maior lançamento do segmento no país. Distribuído pela Fox, deve estrear em cerca de 400 salas, em 7 de setembro.

Pode soar pouco diante dos grandes títulos americanos, que chegam a ocupar mais de mil cinemas no Brasil. Mas outra comparação se faz necessária: se as produções dos EUA têm orçamentos acima dos US$ 100 milhões, “Lino” custou 6,6 milhões de reais.

A história do jovem que se transforma na fantasia de gato com que alegrava festas infantis começou há quase 60 anos. Foi quando Walbercy Ribas, 74, dono da Startanima, produtora de “Lino”, fez sua primeira animação.

Parecia mágica colocar um desenho animado no ar em 1959, tempos em que a televisão só funcionava ao vivo.

No comercial de estreia de Ribas, das então famosas lojas Pirani, um Papai Noel voava no luxuoso carro Gordini.

Para 30 segundos, eram necessários mais de 700 desenhos. Cada um era feito no papel, copiado a nanquim em acetato e fotografado. A película tinha de ser projetada em uma tela no estúdio da TV, que usava sua câmera para transmitir a sequência.

Do Papai Noel a Lino, Ribas acompanhou traço a traço as mudanças da animação.

No ano passado, sua produtora completou meio século, com mais de 2.000 comerciais de animação, alguns ganhadores de importantes prêmios, como o Leão de Cannes, dado ao Homenzinho Azul dos Cotonetes, e o de Veneza, para a Barata Rodox.

Cinema no Cafezal

Ribas tomou gosto pelo cinema nos anos 1940, na fazenda onde nasceu, na região de Ribeirão Preto (interior de São Paulo). Seu pai era escriturário do local e recebeu a incumbência de comprar filmes na cidade e projetar para os empregados. Naquele cinema no cafezal, o garoto se divertiu com Oscarito, Grande Otelo e “Os Três Patetas”.

Com o declínio da fazenda, a família mudou-se para São Paulo, e Ribas virou office-boy do empresário Ricardo Jafet. Nas horas vagas, desenhava, e acabou descoberto pelo departamento de arquitetura, onde passou dois anos.

Foi dali para as agências de publicidade. Limpava pincéis, organizava tintas e rascunhava ilustrações até ser convocado a fazer a animação do Papai Noel. “Era época de Natal, ninguém queria trabalhar, e a bomba sobrou para mim.” Tinha 16 anos.

Foram tempos de muita intuição. Para não manchar os acetatos com a gordura das mãos, o que depois aparecia na tela, usavam-se luvas.

Quando Walbercy estava criando a Barata Rodox, no início dos anos 1970, decidiu seguir pelo caminho contrário: “Tinha que ter uma cara suja, do ambiente da barata. Comprei sebo num açougue para sujar os acetatos”.

A tinta foi passada por cima da gordura, atribuindo movimento e textura às cores, algo revolucionário. “Rompemos com aquela linguagem do traço limpo da Disney.”

Nas gravações do som do comercial, o dublador tirava o dente pivô da frente, dando à voz da barata um leve sopro, em tom melancólico. O inseto virou até capa de “O Pasquim”.

A gordura no acetato começou a ficar para trás nos anos 1990. “Os computadores estavam chegando, e a animação tradicional já sofria.”

Walbercy resolveu dar uma guinada e investiu US$ 128 mil dólares em um computador para a produção de imagens 3D. Delegou a tarefa de decifrar esse novo universo para seu filho, Rafael, 38, na época um adolescente.

Se o pai estreara no acetato aos 16 anos, o herdeiro trabalhou, aos 15, na produção do primeiro filme de animação da produtora em computação gráfica, um comercial do tênis Bubble Gummers.

Juntos, pai e filho enfrentaram a transição para as novas tecnologias. Em 2001, lançaram o primeiro longa da produtora, “O Grilo Feliz”. Os desenhos foram feitos à moda antiga por Walbercy e coloridos por Rafael no computador. A direção era do pai.

No segundo, “O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes” (2009), desenhos criados no papel ganharam formas tridimensionais no computador. Pai e filho dividiram a direção.

“Lino” é um salto nessa evolução tecnológica. Foi feito para ser visto em 3D e teve imagens geradas por um software do gigante da animação Pixar. O diretor é o filho.

Walbercy Ribas segue criando os desenhos na prancheta, e Rafael se encarrega de levá-los às novas tecnologias, que agora fazem a mágica acontecer.

O Gato

É em um casarão na Vila Mariana, com um jardim povoado por 12 tartarugas, que “Lino” foi criado com a intenção de competir de igual para igual com as animações norte-americanas.

Na sede da Startanima, na zona sul de São Paulo, o filme brasileiro, além de ser elaborado com os mesmos programas de computador das grandes produtoras, adotou a cartilha de marketing das animações campeãs de bilheteria.

Se seus dois primeiros longas-metragens foram dirigidos a crianças menores, o novo, diz o diretor Rafael Ribas, 38, nem pode ser considerado infantil: “É para toda a família”.

Lino é um rapaz que trabalha insatisfeito, como animador de festas. Ao tentar fugir dessa vida, acaba se envolvendo em uma magia que tem o efeito contrário, transformando-o na própria fantasia de gato de que queria tanto se livrar.

Como o protagonista de “A Metamorfose” (1915), de Franz Kafka, que se transforma em uma barata gigante, Lino viverá a angústia de não ter mais o seu corpo humano. Mas, claro, bem longe do clássico romance, o filme trata seu desespero com leveza e humor. Como muitas histórias dos blockbusters americanos, fala sobre superação.

Além do tema universal, o roteiro preocupa-se em fazer piadas para crianças ao mesmo tempo em que traz referências para os mais velhos, He-Man, “De Volta para o Futuro” e Legião Urbana. “É um filme comercial, com uma linguagem para todas as idades”, afirma Rafael.

Dessa forma, ampliando o público-alvo, pretende superar as bilheterias alcançada pelos primeiros. “O Grilo Feliz” (2001), lançado com 28 cópias e orçamento de R$ 2,8 milhões, foi visto por 280 mil pessoas. “O Grilo Feliz e Os Insetos Gigantes” (2009), com verba de R$ 4,6 milhões e exibição em cem salas, chegou a 372 mil espectadores.

Já “Lino” conta não só com investimento e distribuição maiores (R$ 6,6 milhões; 400 salas), como tem vozes de atores famosos. Fora o protagonista dublado por Selton Mello, estão no filme Dira Paes e Paolla Oliveira.

Fonte: Folha de S. Paulo