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Jogados no Residencial Manauara: falta ônibus, UBS, escola e segurança

Por trás da ‘festa da moradia’ promovida pela Prefeitura de Manaus está a falta de acesso amplo aos transportes coletivos, unidades de saúde e escolas aos moradores do local
Beatriz Araújo – Portal Amazonas1
• Publicado em 29 de agosto de 2021 – 08:11
Foto: Ruan Souza / Semcom

MANAUS (AM) – Mesmo conquistando a tão sonhada casa própria, os moradores dos residenciais Cidadão Manauara 1 e Cidadão Manauara 2 estão longe de conquistar uma qualidade de vida acessível. Por trás da ‘festa da moradia’ promovida pela Prefeitura de Manaus nas entregas dos apartamentos, está a falta de acesso amplo aos transportes coletivos, unidades de saúde e escolas aos moradores do local. A partir desta reportagem, o Portal Amazonas 1 revela com exclusividade; as dificuldades diárias dos contemplados para conseguir serviços básicos.

Atualmente, o maior desejo dos trabalhadores brasileiros é conquistar uma moradia própria e sair de vez do aluguel. Com o plano habitacional de aquisição de imóveis, ‘Minha Casa, minha Vida’ criado em 2009 pelo Governo Federal, os subsídios para que as famílias de renda abaixo de R$ 1.800 conquistassem seus imóveis foi facilitado, porém, em alguns casos, os comtemplados com os imóveis ainda ficam expostos a falta de planejamento urbano adotado pelos governantes.

Leia mais: Lista preliminar revela mais nomes ligados à prefeitura ‘agraciados’ no Residencial Manauara

Este é o caso dos contemplados pelo residencial Cidadão Manauara 1, entregue em 2020 e o residencial Cidadão Manauara 2, entregue em agosto de 2021, pela Prefeitura de Manaus. Os imóveis ficam localizados no bairro Santa Etelvina, zona Norte de Manaus.

A principal reclamação dos moradores é a falta de transporte nas redondezas. O local possui apenas uma linha de ônibus, A037, que basicamente tem como itinerário retirar os moradores do complexo habitacional.

A linha A307 faz a rota Santa Etelvina até a estação Santos Dumont, seguindo até a rua Santa Etelvina, rua Samambaia, rua Mata Mata, rua Paxiúba, conjunto Manauara 2, rua Nossa Senhora de Fátima, e encerra o itinerário até a Amadeu Teixeira.

O morador e autônomo, Antônio Maia, explicou como é a rotina de quem precisa usar o transporte coletivo no local no período da madrugada e os problemas enfrentado com a falta de transporte.

“Aqui nós não temos ônibus direto para o centro, o 307 vai até um determinado ponto e retorna para o bairro. Muita gente pega ele somente para ter acesso as avenidas com mais opções de ônibus. Tem muitos moradores que trabalham de madrugada e precisam andar até lá fora para pegar outros ônibus ou ficar aqui e esperar os amarelinhos. Mas, não tem um ônibus aqui que faz um trajeto amplo na cidade. Precisamos de outras linhas e principalmente um que leve até o Centro da cidade”, explicou.

Além do ônibus tradicional, é possível usar os serviços dos alternativos “amarelinhos”, ou andar até a Avenida 7 de Maio, no Santa Etelvina, cerca de 2,5 km de distância dos residenciais, o trajeto a pé dura 25 minutos, mas se preferir o morador pode andar um pouco mais e chegar na Avenida Torquato Tapajós que varia entre 3,3km a 6,3 km, dependendo do caminho escolhido pelo pedestre. Já para o Centro da capital a distância é de 22 km. Saindo do bairro São Jorge até os residenciais, a equipe de reportagem percorreu um trajeto de carro, com duração de 40 minutos.

Foto: Marcio Silva

O vigilante Denison Thiago ainda está com dificuldade para se adaptar a nova rotina, após ser comtemplado com um apartamento no residencial Manauara 2. O vigilante trabalha na Avenida Torquato Tapajós.  

“As linhas de ônibus aqui estão devagar de mais. Para a quantidade de gente que já morava na primeira etapa, mais as pessoas que se mudaram recente ter apenas um ônibus que demora uma hora para passar é bem complicado. Esses dias eu estou saindo de casa 16h, mas o ônibus só passa 17h30 e eu entro no serviço 18h. Tô [sic] chegando atrasado e ainda estou levando advertência, recomendam que a gente saia mais cedo de casa, mais cedo que isso? Melhor o funcionário dormir no serviço. Hoje é mais um dia, vou chegar atrasado e eu já estou aqui a quase 40 minutos esperando. Eu espero que o prefeito coloque mais duas linhas para atender a gente, porque só o 307 não vai dar não”, ressaltou.

Além da longa espera, os moradores ainda precisam encarrar o sol escaldante da cidade até que a linha chegue na parada. Isso porque, a parada de ônibus no local não é adequada para a espera. Em um poste foi colocada apenas uma placa simples para sinalizar o local onde o coletivo deve parar. Assim, os moradores precisam usar a área de lazer do residencial Cidadão Manauara 2 para esperar o transporte.

Os demais moradores também relataram das humilhações sofridas por eles durante o uso dos ‘amarelinhos’ no local. Segundo eles, os motoristas dos transportes se negam a deixar ou pegar os passageiros que moram no residencial e são xingados pelos funcionários quando entram no coletivo.

O Instituto de Mobilidade Urbana (IMMU) não se pronunciou sobre a falta de linhas de transporte e nem apresentou um plano para expandir o acesso de coletivos no local.

Foto: Marcio Silva

Isolados de recursos

As dificuldades de acesso dos moradores se estendem aos mais básicos dos serviços, como: educação, saúde e até mesmo recursos alimentares. De acordo com o levantamento feito pela equipe de reportagem, as escolas municipais mais próximas do local são; a Presidente João Goulart, com 1,2 km de distância e a Sara Barroso Monteiro, distante a 1,5 km, andando o trajeto até as escolas variam entre 14 e 18 minutos e, de 3 a 5 minutos de carro.

A procura por escolas também entrou na rotina de Thiago que está com dificuldades de achar locais de ensino nas redondezas no residencial, para matricular a filha pequena.

“A minha filha não pode andar sozinha, eu vou precisar levar. Ou vou precisar esperar mais de uma hora o ônibus, ou vou precisar andar até o Santa Etelvina para deixá-la na escola. Ainda não achei uma escola que seja perto de fato, mas vou continuar procurando”, afirmou.

O problema com o acesso a educação é que fez o neto de 14 anos, da aposentada Zuleide Matos desistir de estudar com o retorno das aulas presenciais na capital. O adolescente é matriculado na escola Sofia Soeiro do Nascimento, no bairro Novo Israel, mas com a dificuldade financeira o adolescente não tem recursos para o transporte coletivo.

“A gente morava no Viver Melhor alugado, aí ganhamos a casa aqui no residencial. Porém, ele não pode usar o meu passe livre e nós não temos dinheiro para mandar ele de ônibus para a escola. O ideal é que tivesse uma escola próxima daqui para ele ir e vir andando, mas não tem. E a que tem mais ou menos próxima, não está recebendo a transferência dele agora, somente no ano que vem”, ressaltou.

Foto: Marcio Silva

A aposentada sofre com problemas no sistema nervoso que desencadearam para um quadro grave de epilepsia, o que a faz depender de um acompanhamento médico especializado. Porém, não existe oferta a acessível ao atendimento na área do residencial.

“Aqui dentro a Prefeitura colocou a carreta da saúde e da mulher, mas o atendimento é complicado. Eu fui no período da tarde para marcar uma consulta pois não estava me sentindo bem e a moça disse que se eu quisesse ser atendida eu precisaria chegar 5h da madrugada para agendar uma consulta. Como eu vou sair esse horário de casa, doente, nesse dia eu fui bater no pronto socorro. Eu nem sei onde tem uma UBS próxima aqui, para eu ir quando não consegui pela carreta”, relatou Zuleide.

De acordo com a pesquisa feita pela equipe de reportagem o local possui seis Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) com distâncias que variam entre 1,5 km e 3,3 km, ou seja, de 45 a 20 minutos andando. As unidades são; UBS – N 59, UBS – N 28, UBS -N 24, UBS -N 57, UBS-N 29 e a UBS Sávio Belota.

Questionada pela equipe de reportagem pela falta de atendimento básico na carreta da saúde, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) não esclareceu o ocorrido, o Portal Amazonas1 segue aguardando retorno.

Ainda de acordo com os moradores, a compra de alimentos também é dificultosa. Na maioria das vezes eles recorrem aos mercadinhos improvisados por outros moradores dentro do residencial, porém na hora de fazer compras mais especificas é necessário andar até a Avenida 7 de maio ou a Torquato Tapajós, onde há supermercados.

Foto: Marcio Silva

Segurança

Devido ao local ser afastado das principais vias e com a presença de diversos terrenos abandonados e áreas de mata nas redondezas, o índice de criminalidade e o tráfico de drogas já está presente nos residenciais.

Com medo de represálias, os moradores que revelaram os problemas de segurança não quiseram se identificar. Segundo eles, quando chega a noite, os lugares destinados para o lazer e esportes dão lugar ao uso, compra e venda de entorpecentes.

“Acredito que é necessário acabar com esses espaços abandonados, sei que em todo lugar tem violência e atos ilícitos, mas isso ameaça a paz da população. Isso não é confortável, principalmente para aqueles moradores que tem filhos pequenos”, relatou um morador.

Enquanto uns prezam pelo sentimento de segurança outros acreditam que o mais seguro na verdade é não se envolver, nem denunciar e se manter dentro de casa.

“É só ficar em casa, não olhar, nem falar, fingir que nem está acontecendo. Em todo lugar tem, eu prefiro me limitar somente a minha casa, meu trabalho e a minha família. Isso sempre vai ter, melhor nem comentar com ninguém e nem se incomodar. Assim, evitamos o pior”, argumentou outro morador.

Segundo os moradores, por mais que o policiamento exista, ainda é muito falho e nem sempre intimida os infratores. A distância entre a delegacia mais próxima também colabora para a impunidade.

Segundo a Policial Civil, os moradores devem se direcionar ao 26° Distrito Integrado de Polícia (DIP), que fica no bairro Santa Etelvina, com distância de 2,2 km, o que equivale a um trajeto de 23 minutos para os pedestres e cinco minutos para motoristas.  

Falta de planejamento urbano

Segundo especialistas sociais a falta de acesso aos recursos básicos aos moradores do local é reflexo da falta de planejamento urbano do poder público que se limita a entrega de moradias, sem estudar a qualidade de vida e os serviços que serão ofertados aos moradores contemplados pelos programas habitacionais.

Para o sociólogo Francinézio Amaral , a oferta de serviços básicos muitas vezes é transformada em discursos eleitoreiros dos governantes, que ainda usam a resolução dos problemas sociais como forma de alcançar votos.

“Os políticos transformam a realização de obras e serviços – que são direito constitucionais – como escolas, hospitais, ruas asfaltadas, transporte público em barganha por votos ao se apresentarem como benfeitores dessa população. A vida dessas pessoas continua sofrida e o cansaço acaba fazendo com que elas se rendam à essa dependência e continuem votando nos mesmos grupos políticos que historicamente se revezam no poder tanto na capital, quanto no estado”, argumentou.

Amaral destacou ainda que o problema de acesso dos residenciais não são novidades em Manaus e sim um fenômeno histórico das políticas de habitação a nível municipal e estadual.

“Infelizmente, a situação dos residenciais Manauara I e II não é uma novidade. Por exemplo, quando conjuntos residenciais como Cidade Nova e Nova Cidade foram entregues, também careciam dos mesmos problemas. Contudo, é preciso destacar que tanto a prefeitura de Manaus, quanto o Governo do Amazonas possuem condições de planejar as políticas de habilitação em sintonia com as demais políticas sociais como transporte, saneamento, saúde, educação, segurança pública e, ao não fazerem isso evidenciam, além de falta de vontade política, que ainda preferem a prática da velha política de manter a população dependente da “benevolência” dos políticos da vez, fazendo uso eleitoreiro do que é direito das cidadãs e dos cidadãos”, comentou.

Em meio a tantas dificuldades, principalmente a de segurança, o especialista em segurança pública, Walter Cruz afirmou que nesse momento se faz necessário a representação política dos eleitos para assistir a população.

“É inimaginável que essas pessoas sejam transferidas para esses imóveis sem que dê condições para que elas vivam de maneira digna nesses locais. Esse sempre foi o problema na nossa cidade, somente depois de dá as residências é que os órgãos analisam possibilidades de inclusão social. Prova disso é o residencial Viver Melhor, hoje as pessoas enfrentam diversas dificuldades com o tráfico de drogas no local”, analisou.

Walter destacou que os conflitos e a falta de segurança expõem ainda mais a população de baixa renda a uma vida precária, mesmo com moradias próprias.

“Eu entendo que deixa vulnerável as famílias que vivem ali. Vale a pena que a população cobre do governo do estado uma referência de policiamento no local, pois tem vários instrumentos que podem ser implantados para os moradores, seja através dos DIP’s, barracas de policiamento ou até mesmo policiamento móvel. E, até mesmo a representação política, os vereadores e deputados podem estar presentes para que o governo e a prefeitura apresentem recursos de assistência a essa parte da população”, finalizou Cruz.

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