Manaus, 6 de julho de 2026
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Cidades

Febre Oropouche avança e já atinge quase todo o país

Doença antes restrita à Amazônia já provocou mais de 11 mil infecções e cinco mortes em 2025, com epicentro no Espírito Santo.

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(Fotos: Divulgação/ Conselho Federal de Farmácia)

MANAUS (AM1) – A febre oropouche, antes restrita à Região Amazônica, se espalhou pelo Brasil e já soma 11.805 casos confirmados em 18 estados e no Distrito Federal apenas em 2025. O Espírito Santo, a quase 3 mil km da Amazônia, lidera o ranking com 6.318 registros, tornando-se o epicentro da doença no país.

O avanço surpreendente do vírus tem mobilizado pesquisadores e gestores de saúde, que buscam entender como uma arbovirose regional rompeu fronteiras e passou a atingir áreas com população sem imunidade prévia.

Em meio ao surto, cinco pessoas morreram – quatro no Rio de Janeiro e uma no Espírito Santo. Outras duas mortes estão em investigação. O número de óbitos já supera o registrado em 2024, quando foram contabilizadas quatro vítimas fatais.

A febre oropouche é causada por um vírus transmitido pelo mosquito Culicoides paraensis, conhecido como maruim ou mosquito-pólvora, encontrado em todo o território nacional. Os sintomas incluem febre, dor de cabeça, dores musculares e nas articulações, semelhantes aos da dengue e chikungunya. A infecção também pode trazer complicações graves na gestação, como microcefalia, malformações e até óbito fetal.

Nova linhagem e desmatamento

De acordo com o pesquisador Felipe Naveca, chefe do Laboratório de Arbovírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), análises genéticas identificaram que os surtos recentes no Brasil foram causados por uma nova linhagem do vírus, surgida no Amazonas.

“E nós também conseguimos mostrar que esse cenário está muito relacionado com algumas áreas de desmatamento recente, principalmente no sul do Amazonas e no norte de Rondônia, que serviram como pontos cruciais para dispersão desse vírus. Aí pessoas infectadas acabaram levando para fora da Região, porque depois que ela é infectada pelo vírus, leva um tempo até manifestar os sintomas”, complementa Naveca.

O maruim prolifera em ambientes úmidos com matéria orgânica em decomposição, como plantações e áreas de mata, sendo comum em zonas periurbanas, próximas de florestas e áreas agrícolas. Apenas as fêmeas transmitem o vírus aos humanos e também a animais.

Mudanças ambientais, como secas e cheias extremas, afetam diretamente o ecossistema dos vetores. Um estudo internacional, que analisou dados de seis países da América do Sul, apontou que fatores climáticos, como temperatura e precipitação, explicam 60% da propagação do vírus. Eventos como o El Niño podem ter impulsionado o surto iniciado em 2023.

Monitoramento e ações de controle

O Ministério da Saúde reforçou o monitoramento da oropouche, com reuniões técnicas, visitas a estados e capacitação de equipes locais. Em nota, a pasta informou que, em parceria com a Fiocruz e a Embrapa, estuda o uso de inseticidas no controle do vetor, com resultados preliminares promissores.

As orientações para prevenção incluem o uso de roupas compridas, sapatos fechados, telas de proteção nas janelas e a eliminação de matéria orgânica acumulada. Gestantes devem redobrar os cuidados. Apesar de não haver comprovação de transmissão sexual, o uso de preservativo durante sintomas é recomendado como precaução.

Espírito Santo: epicentro fora da Amazônia

Com pouco mais de 4 milhões de habitantes, o Espírito Santo lidera o número de casos no país. O subsecretário estadual de Vigilância em Saúde, Orlei Cardoso, afirma que o perfil periurbano de muitos dos 78 municípios capixabas e a presença de áreas agrícolas, como as de café, favorecem a proliferação do maruim.

“Os primeiros casos ocorreram no período da colheita do café, que atrai muitos trabalhadores de fora. Eles se deslocam entre cidades, o que amplia a possibilidade de disseminação do vírus”, explica Cardoso.

Diante da novidade, o estado tem reforçado o treinamento de profissionais da saúde e agentes comunitários para diferenciar a oropouche de outras arboviroses e garantir o diagnóstico precoce.

Nordeste também registra avanço

Estados do Nordeste também registraram surtos. O Ceará, por exemplo, contabiliza 674 casos em 2025. Segundo o Secretário Executivo de Vigilância em Saúde, Antonio Lima Neto, os focos começaram em áreas de plantio de banana, cacau e mandioca, especialmente na região serrana de Baturité. Neste ano, o vírus avançou para a sede do município, com 20 mil habitantes.

O Ceará também registrou óbito fetal relacionado à doença. Em 2024, o Brasil teve cinco mortes fetais e um caso de malformação congênita ligados à oropouche.

Lima Neto ressalta que, diferentemente do Aedes aegypti, o controle do maruim exige medidas mais complexas. “É preciso pensar em barreiras químicas entre plantações e áreas residenciais. O Ministério da Saúde realiza testes com produtos, mas ainda não há solução simples”, conclui.

(*) Com informações da Agência Brasil

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