Manaus, 21 de junho de 2024
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Manaus, 21 de junho de 2024

Cidades

Invadido por lama, igarapé Água Branca pede socorro

O igarapé Água Branca, único limpo da área urbana de Manaus, vem sofrendo ameaças constantes e, ultimamente, foi invadido por lama devido ao desmatamento praticado na área do Tarumã.

Invadido por lama, igarapé Água Branca pede socorro

O cenário é o mesmo há pelo menos quatro meses - (Foto: Reprodução/Instagram)

Manaus (AM) – Considerado o último igarapé limpo dentro da área urbana de Manaus, o Água Branca, localizado no bairro Tarumã, zona Oeste da capital amazonense, está completamente tomado por lama, o que traz um alerta sobre impactos que podem se tornar irreversíveis.

A lama na água virou rotina desde meados de março, e uma das possíveis causas é o desmatamento nos arredores do igarapé, segundo Jó Fernandes Farah, presidente da Organização Não Governamental (ONG) Mata Viva, e um dos responsáveis pela preservação do igarapé. Ele pontua que o Água Branca sofre constantes ameaças.

Durante o monitoramento realizado pela equipe da ONG foi descoberto que a foz do igarapé, onde havia um enorme igapó, agora está coberta de lama.

“A cidade está cada vez mais quente, mais desmatada, cheia de lixo, sem parques e sem água limpa. Você moraria num lugar assim? Nós vivemos! Até quando vamos aceitar essa omissão?” questiona Farah, que é proprietário de um terreno onde o pequeno rio deságua e cuida de inúmeras micronascentes no local há mais de 20 anos.

“Aqui [Manaus] quem trabalha em defesa das águas e florestas urbanas é tratado como inimigo do ‘crescimento’, uma pessoa desocupada, um idiota abraçador de árvores. O Água Branca já estaria morto se não tivesse a voz e a visibilidade que conquistou. A exposição negativa dos que agridem com ação ou omissão causa pelo menos dor de cabeça nos vilões. Crime ambiental não prescreve. O omisso e o agressor um dia poderão pagar pelos danos,” enfatiza Farah.

Com mais de 7 km de extensão, o Água Branca nasce na floresta dentro da área de proteção permanente do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes e vai até a Cachoeira Alta, no Tarumã.

 

Resistência em meio ao crescimento urbano

Segundo Daniel Borges Nava, gerente de recursos hídricos do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), o igarapé da Água Branca enfrenta uma série de desafios relacionados à urbanização e à destruição da cobertura florestal. Nava detalha os impactos e ações necessárias para a preservação deste importante recurso hídrico.

Ele explica que as nascentes são preservadas, mas à medida que o igarapé atravessa e entra na cidade, especificamente no bairro Tarumã, ele sofre diversos impactos negativos.

Um exemplo citado por Nava é o licenciamento indevido de um posto de gasolina na avenida do Turismo, que avançou na Área de Proteção Permanente (APP) do igarapé.

“A movimentação de terra resultante deste projeto tem causado assoreamento, tornando as águas do igarapé turvas. Esse desmatamento expõe o solo, que é escoado para dentro do igarapé durante as chuvas, impactando negativamente a qualidade da água”, diz Nava.

Apesar dos impactos, o igarapé Água Branca ainda apresenta índices bons da qualidade da água. No entanto, Nava alerta que a continuidade dos impactos pode comprometer seriamente esta qualidade.

“A ONG Mata Viva desempenha um papel crucial na prevenção e mitigação dos impactos negativos no igarapé. Eles realizam ações de alerta e monitoramento, além de pressionar os órgãos de controle municipais e estaduais para que medidas de proteção sejam efetivamente implementadas. Sem dúvida nenhuma, é o último igarapé que está disponível com qualidade de água para balneabilidade. Então, nesse sentido, todos os cuidados são necessários”, reforça.

O igarapé luta contra as ameaças ambientais – (Foto: Reprodução/Instagram)

Iniciativas do Ipaam

De acordo com Nava, o Ipaam tem desenvolvido diversos programas para proteger os recursos hídricos na região. Um desses programas é o Sistema Integrado de Inteligência, Proteção e Monitoramento da Bacia Hidrográfica do Gigante, que abrange áreas paralelas à bacia do Água Branca, dentro da bacia do Tarumã-Açú. Tal trabalho é crucial para a proteção de áreas de grande importância turístico-cultural, como o Tarumã-Açú, que abriga serviços diversos ao turismo, como balneários e flutuantes.

O órgão, conforme Nava, também acompanha de perto as estações de tratamento de afluentes, garantindo que a operação dessas estações seja adequada e que a água tratada lançada de volta ao meio ambiente esteja em conformidade com os padrões de qualidade.

“Nos juntamos os esforços como órgão executivo da política estadual de recursos hídricos com as comunidades da bacia do Gigante, nós juntamos a bacia do igarapé da Água Branca, para que a gente, realmente, possa manter a qualidade e, de certa maneira, preservar este, que é o último igarapé vivo ainda, sobrevivente dentro da relação de crescimento urbano da cidade de Manaus”, frisa.

Monitoramento da qualidade da água

Nava explica que uma parceria foi criada entre o Ipaam e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), por meio do grupo de pesquisa química aplicada à tecnologia, liderado pelo professor doutor Sérgio Duvoisin Junior, que coordena as ações para a classificação dos índices de qualidade de água na região.

“Ele faz análises físico-químicas da água, para que a gente possa ter o indicador de qualidade dessa água, que pode mostrar como o impacto da cidade está crescendo e desestabiliza a qualidade de água do igarapé. Já fizemos isso na bacia do Gigante e ampliamos, agora, com o apoio também da Águas de Manaus para toda a bacia do Tarumã-Açú”, reforça.

O monitoramento feito pela Água de Manaus começou em 2023. Desde então, as amostras são coletadas, mensalmente, em três pontos do igarapé Água Branca.

Coleta da água feita pela equipe da Águas de Manaus – (Foto: Reprodução/Instagram)

Atividades de conscientização

A ONG Mata Viva promove diversas atividades que visam à preservação ambiental e a educação ecológica. Entre as atividades realizadas destaca-se a abertura do local para a visita de alunos de escolas municipais e estaduais, bem como de universitários e pesquisadores. Essa iniciativa é fundamental para fomentar a conscientização ambiental desde cedo e encorajar a pesquisa científica voltada para a preservação.

O espaço gerido pela ONG oferece uma variedade de atividades ecológicas, como trilhas, escalada na copa das árvores, banho de igarapé, proporcionando aos visitantes uma conexão direta com a natureza. Além dessas atividades recreativas e educativas, a ONG realiza um trabalho importante de distribuição de mudas para estudantes e coleta de sementes de árvores da região, com o objetivo de reflorestar áreas degradadas ao redor de outros igarapés que já estão poluídos.

No local, são promovidas discussões sobre temas ambientais essenciais, como o cuidado com os recursos hídricos, as mudanças climáticas e a conservação da natureza. Essas atividades não só sensibilizam os participantes sobre a importância da preservação ambiental, mas também os capacitam a se tornarem agentes ativos na proteção do meio ambiente.

Sem resposta

Procuradas pela reportagem do Portal AM1, a Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam), liderada pela deputada estadual Joana Darc (UB), que está afastada por licença-maternidade e da Câmara Municipal de Manaus (CMM), comandada pelo vereador Kennedy Marques (PSD), não responderam aos questionamentos sobre quais medidas estão sendo tomadas em relação às ameaças ambientais que o igarapé Água Branca vem sofrendo.

 

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