Leite materno pode ser usado para tratar Covid-19 em pacientes, afirma estudo

Mulher com imunodeficiência grave e diagnóstico de Covid-19 prolongado passou a tomar leite materno de vacinada e conseguiu superar doença causada pelo coronavírus
Da Redação – Portal AM1
Publicado em 07/06/2022 14:47
(Foto: Reprodução)

Um importante avanço científico foi apresentado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os quais recorreram a um método nada convencional para tratar um quadro de Covid -19 em uma paciente com uma doença genética rara, a qual torna seu sistema imune incapaz de combater vírus e outros patógenos.

Durante uma semana, ela foi orientada a ingerir 30 mL, a cada três horas, de leite materno de uma doadora vacinada contra o SARS-CoV-2. Após esse período, o resultado do teste de RT-PCR, que há quase seis meses vinha indicando a presença do RNA viral, logo positivo para Covid-19, finalmente veio negativo.

O caso foi relatado em artigo publicado na revista Viruses. “Tenho acompanhado essa paciente desde criança e quando ela me contou que estava com Covid-19 eu fiquei muito apreensiva. O erro inato da imunidade que ela apresenta deixa seu sistema de defesa todo desregulado. Sua resposta inflamatória é deficitária, há poucas células se mobilizando para o local da inflamação e baixa produção de anticorpos. As características de virulência dos agentes infeciosos podem levar a dois desfechos nesses casos: infecção crônica ou morte”, conta a pediatra Maria Marluce Vilela, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM-Unicamp) e autora principal do artigo.

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A pesquisadora explica que o sistema imune humano e dos demais mamíferos produz normalmente cinco tipos de anticorpos: as imunoglobulinas IgM, IgG, IgA, IgE e IgD. Portadores dessa doença – conhecida como síndrome de imunodesregulação – geralmente têm pouco IgE e, em alguns casos, ausência completa de IgA, o principal anticorpo neutralizante de vírus e outros patógenos, que costuma estar presente no leite materno, nas secreções respiratórias e gastrintestinais.

Além disso, há uma produção muito baixa de IgG, normalmente o anticorpo mais abundante no sangue e responsável por reconhecer e neutralizar antígenos com os quais o organismo já teve contato prévio.

LEITE MATERNO NO TRATAMENTO

“Ficamos receosos de que a infecção se prolongasse por muito tempo, o que a debilitaria ainda mais e aumentaria o risco de contaminar outras pessoas. Nessa mesma época, saíram os resultados de um estudo mostrando que mulheres lactantes imunizadas com a vacina da Pfizer produziam leite com uma quantidade razoável de IgA. Decidimos então fazer a experiência assistencial de reposição de IgA via leite materno”, conta Vilela.

A pesquisadora conta que só foi possível fazer o ensaio porque há no país uma legislação rígida que garante a segurança dos bancos de leite. Somente podem doar mulheres saudáveis, com testes negativos para doenças infecciosas como Aids, sífilis e hepatite, entre outras. E o sistema também permite saber se a doadora foi imunizada.

“Recomendamos a ela o consumo do leite por via oral, pois o IgA funciona como uma ‘vassoura’, ou seja, vai grudando nos patógenos ao longo de todo o trato gastrointestinal e tudo que é impróprio é eliminado nas fezes. O intervalo de três horas entre as doses – exceto no período noturno – foi pensado para não dar chance de o vírus continuar se replicando”, conta a pediatra.

O teste negativou após uma semana e outros dois exames, feitos com intervalos de dez dias cada, também não detectaram a presença do SARS-CoV-2. “E ainda seguimos fazendo testes de RT-PCR para SARS-CoV-2. Nossa preocupação é que, com as novas variantes, ela adquira uma infecção assintomática”, diz a médica.

*Com informação do DOL

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