Manaus, 6 de julho de 2026
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Manaus, 6 de julho de 2026

Cenário

Professores dizem que ‘não houve diálogo’ e chamam reunião com Wilson Lima de ‘teatro’

Educadores afirmam que encontro com o governador serviu apenas para comunicar decisões já tomadas e cobram reajustes e direitos atrasados desde 2019.

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(Foto: Alex Pazuello/ Secom e Del Lima/ Portal AM1)

Manaus (AM) – O que o governador Wilson Lima anunciou como um gesto de valorização dos servidores da Educação transformou-se, na prática, em mais um capítulo de frustração e descrédito entre professores da rede estadual. Após divulgar nas redes sociais, na segunda-feira (3), o pagamento do 13º salário dos servidores públicos, o governador convidou o Sindicato dos Professores e Pedagogos do Ensino Público de Educação Básica do Município de Manaus (Asprom Sindical) para uma reunião na terça-feira (4) supostamente para tratar de pautas da Educação.

Em exclusividade ao Portal AM1, o professor Lambert Melo, coordenador jurídico da Asprom Sindical, destacou que o encontro, no entanto, foi recebido pela categoria como uma mera formalidade, uma comunicação de decisões já tomadas, sem espaço para debate, negociação ou escuta real.

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(Foto: Arquivo/Portal AM1)

Anúncio de pacote e discurso de limites fiscais

O governo apresentou, na terça-feira (4), um pacote de ações voltadas aos servidores públicos estaduais. Dentre essas medidas, o governador destacou o pagamento da data-base de 2025, com reajuste de 5,06%. 

Durante o pronunciamento, Wilson Lima afirmou que as medidas anunciadas estão “de acordo com o limite do Estado”, enfatizando que o governo busca respeitar as condições orçamentárias e fiscais atuais. Em seu discurso, o governador disse estar melhorando a qualidade de vida dos servidores públicos.

“O que a gente apresentou aqui está de acordo com o limite do Estado, aquilo que a gente consegue fazer do ponto de vista orçamentário e do ponto de vista fiscal. É claro que quando eu valorizo o servidor público, eu estou melhorando a qualidade de vida dele, estou melhorando condições de trabalho e estou fazendo com que ele, lá na ponta, preste o melhor serviço para a população”, afirmou Wilson Lima em coletiva com a imprensa.

Por outro lado, ao insistir nos “limites” financeiros, o governador sinalizou que não há espaço para avanços mais significativos nas políticas salariais, o que gerou insatisfação entre parte da categoria que reivindica reajustes de anos anteriores.

“Não houve diálogo. Houve imposição”

De acordo com o professor Lambert Melo, a reunião serviu apenas para que o governador confirmasse publicamente o que já havia divulgado: o pagamento da data-base de 2025, com reajuste de 5,06%.

“Foi uma conversa muito ruim, porque não há diálogo com o governador Wilson Lima. Ele nos chamou apenas para comunicar uma decisão que já havia tomado. Não pediu nossa opinião, não perguntou se concordávamos ou não. Apenas anunciou o que já estava decidido”, declarou o professor.

Lambert Melo também rebateu a fala do governador em entrevista coletiva, quando afirmou estar dialogando com os sindicatos.

“Isso é mentira. Desde abril, quando tivemos uma única conversa com a secretária Arlete [Secretária de Estado de Educação e Desporto Escolar (Seduc), Arlete Mendonça], não houve mais nenhum contato. Wilson Lima mente quando diz que dialoga com os sindicatos”, completou.

Reajuste “de fachada” e dívida acumulada

A insatisfação é geral entre os professores. A professora Helma Sampaio lembrou que o governo deve datas-base anteriores, além de não ter corrigido totalmente o reajuste de 2022, que ficou 2,54% abaixo da inflação.

“Ele chega agora, praticamente no fim do ano, oferecendo 5,06% e achando que está valorizando o magistério. Mas esse percentual é apenas o referente a 2025. Ele deve mais de 13% em datas-bases atrasadas. É uma jogada eleitoral, uma tentativa de limpar a imagem às vésperas do próximo ciclo político”, criticou.

Segundo a professora, o governo ignora demandas urgentes da categoria, como a atualização do PCCR (Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração), reajuste do auxílio-alimentação, realização de concursos públicos e a eleição direta para gestores escolares.

“O governo ministra o remédio errado”

A coordenadora geral da Asprom Sindical, professora Alessandra Sousa, foi ainda mais dura nas críticas. Para ela, a reunião foi um “teatro armado”, em que o governo apenas simulou diálogo para legitimar decisões unilaterais.

“O governo já sabia o que queria nos oferecer. Chegou com tudo pronto, com o percentual fechado. Disse, inclusive, que precisava gastar o dinheiro do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação] para não perder o recurso. Mas por que a má gestão continua? Desde 2021 acumulamos cerca de 12% de defasagem salarial, e nada é pago retroativamente”, denunciou.

A professora também apontou o uso de abonos salariais como estratégia midiática.

“O abono não incorpora ao salário, não conta para aposentadoria. É só propaganda. O governo está ministrando o remédio errado: dá 10 gotas quando o servidor precisa de 30. Está sufocando financeiramente o trabalhador”, comparou.

Salas sem livros e merenda de mingau

Além das questões salariais, Alessandra relatou o cenário precário nas escolas estaduais: falta de livros didáticos, merenda insuficiente e sobrecarga emocional dos professores.

“Neste ano, pela primeira vez em 21 anos, estou sem livro didático para meus alunos. É ano de Saeb, e não temos material. A merenda, em muitas escolas, é apenas mingau. Há crianças que têm ali a única refeição do dia. Onde está o dinheiro da Educação?”, questionou.

A coordenadora ainda destacou que o sistema educacional sobrevive graças ao esforço individual dos docentes.

“O professor tira do próprio bolso para oferecer o mínimo aos alunos. E, quando reivindica seus direitos, ainda é chamado de preguiçoso. É desumano o que estão fazendo com a nossa categoria”, lamentou.

Um governo que fala sozinho

O encontro entre o governador Wilson Lima e os representantes dos educadores, cujo objetivo era discutir pautas da Educação, não resultou em avanços concretos nas negociações. Segundo representantes do sindicato, a reunião serviu apenas para a apresentação de medidas já definidas pelo governo, sem abertura para debate ou alterações nas propostas.

Enquanto isso, os docentes destacam a necessidade de retomar o diálogo sobre as pendências salariais, a melhoria das condições de trabalho e os repasses destinados às escolas. O governo, por sua vez, afirma que os reajustes que serão pagos à categoria estão conforme os “limites financeiros do Estado” e que, conforme o orçamento fiscal, há pouca margem para atender totalmente às reivindicações por direito.

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