(Foto: Divulgação/Marcos Holanda)
Manaus (AM) – É comum em municípios do interior do Amazonas conhecer alguém que trabalhe na prefeitura. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados no ano passado, em 2021, 90% das cidades do estado tiveram como principal atividade econômica a administração pública.
Apesar de serem referentes ao ano de 2021, esses dados traçam um retrato atual, uma vez que mudanças estruturais capazes de impactar os indicadores evoluem lentamente, segundo especialistas.
Com base nesses números, há mais pessoas empregadas no serviço público do que trabalhando com carteira assinada em empresas privadas, conforme levantamento da Folha baseado em dados oficiais.
As três cidades mais dependentes da administração pública, segundo o IBGE, são: Santa Isabel do Rio Negro (72,63%), Tonantins (70,10%) e Maraã (69,57%). Seguem a lista São Paulo de Olivença (69,24%); Atalaia do Norte (69,49%); Amaturá (67%); Benjamin Constant (66,64%); Novo Airão (65,38%); São Gabriel da Cachoeira (64,20%) e Nova Olinda do Norte (63,59%).
Dependência e falta de alternativas
Segundo Adalberto dos Santos, especialista em Direito Administrativo, a falta de vontade política é um dos principais fatores que levam à dependência dos moradores das prefeituras.
“O que falta é vontade política, porque o recurso que a prefeitura recebe é proveniente do Fundo de Participação dos Municípios, que é a principal fonte de renda. Outro recurso importante é a cobrança de impostos, como o ISS (Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza) e o ITBI (Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis), mas no interior esses valores são irrisórios. As prefeituras sobrevivem de convênios com o Estado e outros órgãos para aumentar recursos”, diz o especialista.
O que pode ser seito?
Adalberto dos Santos pontua que uma das alternativas é investir em turismo, comércio, indústria e atrair recursos mediante convênios internacionais. “Mas não há vontade e nem interesse. As pessoas acabam dependentes da prefeitura, buscando cargos como professor, assessor ou em áreas de limpeza para ter uma fonte de renda. Dessa forma, é uma questão muito simples, que não tem vontade política nem de implantar políticas sociais que visem à geração própria de recursos, como tem nas capitais”, explica.
Vivência
No município de Manaquiri, por exemplo, conforme Everton Santos, de 28 anos, que trabalha como vigilante, ou o povo trabalha na prefeitura ou vira mototaxista. “Não tem outra alternativa. O município conta com poucas oportunidades de emprego e, geralmente, só se conseguem bicos. Eu saí do ensino médio e me vi sem expectativas. Fui para Manaus, fiz um curso de vigilante, voltei para o município e consegui um trabalho na prefeitura. Agora estou estudando para tentar passar em um concurso público”, conta Everton.
A falta de oportunidades nos municípios faz com que muitos moradores do interior migrem para a capital amazonense justamente em busca de trabalho ou para se especializar em algum curso, para voltar aos municípios e tentar uma vaga em um cargo público.
Análise econômica
O economista Marcelo Araújo classifica que a falta de diversificação econômica nos municípios do Amazonas é alarmante.
“A dependência da administração pública cria uma economia frágil e vulnerável. Sem políticas públicas para desenvolver outros setores, como o turismo, a agricultura sustentável e o comércio, essas cidades continuarão presas em um ciclo de dependência. É crucial que os governos locais busquem alternativas para fomentar o empreendedorismo e atrair investimentos, criando um ambiente mais propício para o desenvolvimento econômico”, diz o economista.
Com a ausência de alternativas, segundo Marcelo, a dependência dos cargos públicos torna-se a principal fonte de renda para muitos moradores. “A implementação de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento de outros meios econômicos é essencial para reverter esse quadro e promover um crescimento sustentável e diversificado na região”, frisa.
PIB do Amazonas
Apesar da dependência de alguns municípios com a administração pública, o Produto Interno Bruto do Amazonas (PIB) no ano de 2021 foi de R$ 131.531.038.000,00, um aumento de 13,37% em relação ao ano de 2020, quando se registrou R$ 116.019.139.000,00. Em relação ao volume produtivo, o PIB do Amazonas cresceu 5,56%.
Manaus, sendo a capital e local onde se encontra o Polo Industrial, detém o maior PIB do estado, com R$ 103.281.436.000,00 em 2021 e crescimento nominal de 12,54% em comparação com o ano de 2020, que foi R$ 91.773.536.000,00. A participação de Manaus em relação ao PIB do Amazonas em 2021 foi de 78,52%, ficando abaixo de 2020, que representava 79,10%.
Entre os municípios do interior, houve troca de posição: Coari, que em 2020 ocupava a terceira posição, foi para a segunda em 2021, passando Itacoatiara para a terceira posição. Coari registrou PIB de R$ 3.380.278.000,00 em 2021, contra R$ 1.923.265.000,00 de 2020, e participação de 2,57% em relação ao PIB do Amazonas. Itacoatiara, com participação de 1,79% no PIB do Amazonas, registrou valores de R$ 2.350.463.000,00 em 2021 e R$ 2.273.504.000,00 em 2020, com crescimento de 3,39%. Manacapuru permaneceu na quarta posição em 2021, registrando PIB de R$ 1.544.675.000,00 e participação de 1,17%. Em comparação com o ano de 2020, o PIB de Manacapuru cresceu 7,85%, registrando em 2020 um PIB de R$ 1.432.217.000,00.
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