(Foto: Clóvis Miranda)
Manaus (AM) – Apesar de décadas de discursos oficiais e promessas eleitorais, a realidade da política no Amazonas segue praticamente inalterada: a capital continua sendo o centro de decisões, investimentos e políticas públicas, enquanto o interior permanece em segundo plano. O padrão, repetido a cada eleição, mantém a lógica de concentração que molda a vida de quatro milhões de amazonenses, metade deles vivendo em Manaus.
O cientista político Israel Pinheiro explicou que a desigualdade entre capital e interior vai além da demografia.
“Do total de recursos gerados no estado, algo em torno de 60% a 70% se concentra na capital. Isso ocorre porque Manaus reúne a infraestrutura capaz de atrair pessoas, investimentos e mobilidade, gerando um ciclo de concentração. As emendas parlamentares, por exemplo, na prática, acabam reforçando essa hierarquia, em vez de reduzir as disparidades”, afirmou.
Pinheiro afirmou que a falta de descentralização tem raízes históricas. Políticos costumam apresentar projetos para o interior, mas a circulação de recursos e o peso da economia fazem com que Manaus continue recebendo a fatia majoritária. “É uma lógica estrutural: onde está o capital, ali também se concentram as estruturas públicas”, explicou.
Já o cientista político Luiz Carlos chamou atenção para o discurso recorrente dos políticos e suas promessas para se manter no poder, que na maioria dos casos, nunca se concretizam.
“Os políticos de hoje são especialistas em nos prometer o futuro. É curioso: jamais nos perguntam sobre o passado e fazem questão absoluta de esquecer o presente. O futuro tem uma vantagem estratégica: ele nunca chega”, ironizou.
Segundo ele, essa situação se encaixa perfeitamente na realidade amazonense.
“Na capital, os problemas sociais se tornam mais visíveis, exigindo respostas imediatas. No interior, a ausência do Estado é compensada por soluções improvisadas pela própria comunidade solidariedade, improviso e silêncio. Isso é extremamente conveniente para os gestores públicos, que se sentem desobrigados de agir. Se o povo não reclama, está tudo resolvido”, analisou.
O cientista político observou que a maior parte das políticas públicas efetivas no Amazonas vêm do governo federal, tanto para a capital quanto para o interior.
“Os governos locais observam, prometem e aguardam o próximo ciclo eleitoral. Enquanto isso, seguimos presos a um presente de problemas crônicos, sempre à espera de um futuro que nunca se materializa”, concluiu.
Entre a promessa e a prática, o interior do Amazonas segue vivendo com carências estruturais na saúde, educação, saneamento e transporte.
E, a cada nova eleição, o ciclo recomeça: discursos inflamados, promessas de descentralização, mas, na prática, a realidade permanece concentrada em Manaus.
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