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Manaus (AM) – Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed 2025) reacenderam o debate sobre a qualidade da formação médica no Brasil. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), cerca de 89 mil estudantes participaram da avaliação, incluindo alunos concluintes e de outros semestres do curso.
Entre os aproximadamente 39 mil concluintes, grupo que está mais próximo de ingressar no mercado de trabalho e atender diretamente a população, apenas 67% alcançaram o chamado “resultado proficiente”, classificação que indica conhecimento considerado suficiente ao final da formação.
Em um vídeo publicado nas redes sociais, a psicanalista e palestrante doutora Andréa Vermont afirmou que os números não devem ser tratados apenas como estatísticas educacionais. Segundo ela, o cenário revela um problema estrutural profundo.
“Saiu o resultado do Exame Nacional de Medicina 2025, que analisa os médicos que estão se formando. E o resultado não pede comemoração, pede silêncio. Silêncio para entender com cuidado, silêncio para ouvir o que está sendo dito e, principalmente, o que está sendo gritado nas entrelinhas. De cada 39 mil estudantes que concluíram Medicina, cerca de 13 mil não demonstram saber nem 60% do que deveriam saber ao final da formação. Isso não é um detalhe técnico, isso é uma fissura estrutural. Porque Medicina não é um campo onde se aprende mais ou menos”, disse.
Ao comentar os dados, a psicanalista ressaltou que a medicina não admite falhas toleráveis. Segundo ela, “não existe meia-responsabilidade, não existe erro confortável quando o outro está deitado, vulnerável, confiando e com a saúde e a vida em risco”. A especialista também destacou que o problema vai além do desempenho individual dos estudantes.
“Quando ampliamos o olhar, o cenário ainda é mais inquietante. Entre as faculdades públicas municipais, nove em cada dez foram consideradas insatisfatórias. Perceba: isso deixa de ser uma questão individual, é o retrato de um sistema que adoeceu antes de curar”, comentou.
A psicanalista também fez duras críticas às respostas adotadas por instituições e pelo poder público diante dos resultados. Para ela, as medidas anunciadas não enfrentam o problema central da formação médica.
“Diante disso, o que fazemos? As respostas institucionais e governamentais são patéticas e decorativas. Vai reduzir vagas das instituições, vai suspender o número de pessoas novas que vão entrar, vai reorganizar números e vai continuar entrando e formando gente incompetente. Medidas que arrumam planilhas, mas que não reorganizam o ensino. Nada desprotege quem está sendo formado agora, nada desprotege quem vai sentar à frente desse profissional amanhã. E aqui é importante dizer algo com absoluta clareza: não se trata de um ataque à medicina, mas de defendê-la. Defender a sua história, sua ética e aqueles que realmente se formaram com responsabilidade e preparo”, disse.
Ao defender a necessidade de critérios mais rigorosos, Andréa Vermont afirmou que a cobrança por qualidade não representa um ataque à profissão.
“Exigir qualidade não desqualifica quem é sério; ao contrário, valoriza quem tem uma excelente formação e leva essa profissão a sério. Toda sociedade precisa decidir o que leva a sério, o que exige, o que fiscaliza e o que permite”, disse.
Segundo a psicanalista, cabe à sociedade definir o que está disposta a exigir, fiscalizar e permitir. Ela ressaltou ainda que a medicina vai além de um título acadêmico.
“A medicina não é apenas um diploma; é uma autorização ética e simbólica para tocar o corpo do outro, para atravessar a sua dor, para interferir na sua história. Por isso, discutir e exigir um exame de proficiência médica não é crueldade nem perseguição, é cuidado social. Os médicos precisam ser avaliados antes de estarem prontos para atender”, disse.
Em relação ao abordar a necessidade de avaliação dos profissionais, Andréa Vermont destacou que a medida não deve ser vista como punição.
“Avaliar não é punir; avaliar é dizer que isso importa demais para ser tratado com descuido. Nenhuma área madura teme avaliação rigorosa. Que fique a dica e que esses números gerem mudanças neste país”, comentou.
Ao comparar a medicina com outras áreas de alta responsabilidade, Andréa Vermont ressaltou que a exigência de avaliação rigorosa já é uma prática consolidada em diferentes profissões.
“Pilotos são testados, engenheiros são testados, mas, quando o assunto é saúde, ainda caminhamos com receio de afirmar o óbvio: o diploma sozinho não garante o preparo real”, afirmou.
Para a psicanalista, o verdadeiro constrangimento não está em exigir mais dos profissionais, mas em aceitar padrões cada vez mais baixos de formação. Segundo ela, quando a régua é rebaixada em excesso, a sociedade deixa de agir com humanidade e passa a agir com negligência, ainda que sob o discurso da benevolência.
“O que deveria nos constranger não é exigir mais; o que deveria nos constranger é aceitar menos. Porque, quando a régua cai demais, não estamos sendo humanos, estamos sendo negligentes, travestidos de bonzinhos. Esses números não falam de provas nem de exame, falam de gente cuidando de gente”, mencionou.
Encerrando a reflexão, a psicanalista ressaltou que os dados não podem ser tratados como algo secundário.
“Isso, definitivamente, não é um detalhe. Que vidas parem de se perder por ausência de formação séria e de profissionais engajados com aquilo que realmente faz a diferença: a sua formação e a sua responsabilidade”, concluiu.
Confira:
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