Manaus, 6 de julho de 2026
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Manaus, 6 de julho de 2026

Cenário

REAM demite em massa, mas Braga e Omar garantiram isenção milionária

Enquanto operários perdem seus empregos, os senadores Eduardo Braga e Omar Aziz articularam R$ 3,5 bilhões em benefícios fiscais para o Grupo Atem.

Atem Distribuidora (Foto: Divulgação/Atem)

Brasília (DF)  – O Ministério Público do Trabalho (MPT) investiga uma suposta demissão em massa na Refinaria de Manaus (REAM), controlada pelo grupo Atem. Pelo menos 75 funcionários foram desligados em menos de um mês.

Segundo o Sindicato dos Petroleiros do Estado do Amazonas (Sindipetro-AM), a decisão afeta principalmente o setor operacional da empresa e os funcionários denunciam o possível desmonte do refino para um “terminal de importação e distribuição de combustíveis”.

“Eles refinaram pouco tempo, não deu nem um mês, refinaram. Eu acho que só para dizer que estavam refinando mesmo, para dar desculpa para o MPF ou outro órgão. E depois disso os desligamentos começaram,” disse um dos funcionários que pediu para não ser identificado.

Durante dois anos e oito meses, o entrevistado atuava na REAM como técnico de transferência e utilidades e, afirmou que todos os operários já sabiam sobre uma possível demissão em massa.

“Psicologicamente a gente já estava se preparando, porque a qualquer momento nós poderíamos ser desligados. O motivo é que a REAM fez algumas mudanças no processo. Pra gente, o que que caracterizou é que ela quer parar o refino,” explicou o primeiro entrevistado.

Os trabalhadores ouvidos pelo Portal AM1 pediram para não serem identificados por medo da represália do grupo Atem. Uma das fontes afirma que os burburinhos sobre as demissões começaram antes mesmo da aprovação da reforma tributária, entre abril e maio de 2024.

“Éramos 5 equipes com 4 operadores e 1 supervisor. Mas, alguns operadores foram desligados ano passado, mês de junho. Naquela ocasião, a REAM já nos dava sinais de que poderia parar com o Refino de Petróleo,” explicou.

“Fizeram uma maquiagem nas unidades”

O operador de controle e refino de petróleo atuou na empresa por quase três anos. Ele informou que durante sete meses, as unidades 2111, 2110 que trabalhavam com o refino passaram por manutenção. A partir de janeiro de 2025, a unidade 2111 começou a funcionar, mas no final de março deste ano o grupo foi avisado que as operações deixariam de ocorrer.

“É um procedimento incomum, pois as unidades devem trabalhar por até 6 anos sem parar.  Após a parada da U-2111, colocamos em operação a U-2110. A U-2110 ficou em operação por apenas duas semanas e foi retirada,” disse o especialista.

Após as demissões, alguns operários foram remanejados para o setor de utilidades e de refino. Quando foi desligado, o trabalhador relata que o local não tinha mais ambulatório médico e poucos bombeiros.

“Considero essa atitude perigosa, pois o refino não sabe operar os equipamentos das utilidades e vice-versa. Pelo que pude observar em meus últimos dias, a REAM tornou-se um Terminal de Distribuição de combustíveis,” disse o ex-funcionário.

Um dos entrevistados, afirmou ao Portal AM1 que a empresa fez apenas reparos superficiais nas unidades, enquanto informava que elas estavam em “manutenção”.

Contratado em 2022, após a compra da refinaria pelo grupo Atem, o operário afirma que a empresa apresentou a ilusão de “refinar combustível e também dar uma alavancada em nossa carreira profissional,”.

“Após a transferência da refinaria da Petrobras e o grupo Atem, a empresa iniciou uma manutenção preventiva nas unidades de refino, porém apenas fizeram uma maquiagem nas unidades.  Após o início do refino de petróleo, a empresa não achou viável continuar refinando,” disse o ex-operador de cogeração.

Realidade X discurso

No dia 17 de março deste ano, o senador Eduardo Braga (MDB) defendia a refinaria na Câmara Municipal de Manaus. Em seu discurso, o parlamentar afirmou que a empresa estaria fazendo investimentos para trazer de volta o refino ao Amazonas. Enquanto na versão dos operários, as unidades que estavam ativas foram descontinuadas.

“Neste exato momento em que estamos discutindo aqui, dentro da refinaria estão acontecendo os investimentos que vão fazer com que a refinaria volte a refinar modestamente, ainda sem nenhum benefício fiscal,” disse o senador à época.

Em mais uma entrevista do Portal AM1, um operário de 53 anos contou que o grupo foi ludibriado, e que passava por ameaças de demissão em todo o tempo, desde 2024. Contratado como técnico para atuar na refinaria, o trabalhador do setor de utilidades foi rebaixado para operador.

“Quando fomos contratados pela Ream, fizemos todo treinamento que durou meses, dentro do processo de transição na refinaria, desgaste físico, mental, sonhos empregados. Tudo isso para formarmos um contingente de profissionais bem qualificados. A Ream sempre nos levou na conversa prometendo plano de cargos e salários, o que tivemos foram momentos tristes, ambiente de tensão e opressão por parte de alguns gestores. Sempre teve o terror psicológico de ser demitido a qualquer momento, a seleção dos operadores exigia nível técnico, mas a gerência que nos contratou como técnicos de operação, nos rebaixou para operadores,” detalhou.

No mesmo período, os senadores Eduardo Braga e Omar Aziz (PSD) estavam no Congresso Nacional defendendo a isenção de impostos para a refinaria da Atem.

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Senadores do Amazonas – Foto: (Roque Sá/ Agência Senado)

Atem e os benefícios da Reforma Tributária

Com o discurso de manter viva a única refinaria da Amazônia, os senadores conseguiram aprovar uma emenda de Aziz que isenta a REAM de R$3,5 bilhões em impostos. Na época, alguns veículos de comunicação questionaram a isenção, visto que, naquele momento, a refinaria não refinava, apenas fazia a distribuição dos combustíveis.

E a aprovação da emenda que beneficia o grupo Atem levantava suspeitas de favorecimento tanto para Braga quanto para Aziz. Na Câmara dos Deputados, manifestações contrárias marcaram a votação. A deputada Adriana Ventura (Novo-SP), por exemplo, criticou a emenda, afirmando que “os outros estados” pagariam para que apenas um fosse beneficiado.

O Partido Liberal encaminhou um destaque para derrubar a emenda de Aziz, mas após muitas articulações o deputado federal Capitão Alberto Neto (AM) conseguiu retirar o destaque.

O Portal AM1 acompanhou as discussões e questionou os parlamentares sobre a isenção da refinaria, mas não houve resposta.  Nesta semana, as assessorias também foram questionadas sobre as demissões e o benefício e, até o momento, o que se mantém é o silêncio dos senadores sobre o caso.

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