(Foto: Celso Maia/Portal AM1)
Manaus (AM) – Em meio a uma cidade marcada por desafios, em março de 2025, parte dos vereadores da Câmara Municipal de Manaus se dedicou à possível criação de uma Frente Parlamentar em Defesa da BR-319. Segundo PL, a Frente irá servir para discutir, defender e acompanhar assuntos relacionados a essa rodovia, que é importante para a cidade, mas longe da competência dos vereadores.
No dia 18 de junho, o projeto foi analisado e aprovado pela 2ª Comissão de Constituição, Justiça e Redação. Agora o projeto será analisado pela 8ª Comissão de Transporte, Mobilidade Urbana e Acessibilidade.
Para entender melhor os impactos e as discussões em torno do projeto, o Portal AM1 ouviu dois cientistas políticos e uma ambientalista. Eles analisaram os interesses políticos, os possíveis impactos ambientais e as consequências sociais da criação da Frente Parlamentar em Defesa da BR-319.
Vereadores defendem desenvolvimento
Na justificativa do projeto, os autores defendem que a BR-319 é estratégica para a integração econômica e logística da Amazônia ao restante do país. A estrada, que liga Manaus a Porto Velho, é considerada vital para o escoamento de produtos da Zona Franca de Manaus (ZFM), para redução de custos logísticos, além de reforçar a presença do Estado brasileiro na Amazônia.
Os defensores afirmam que é possível conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental, desde que sejam utilizadas tecnologias sustentáveis, sistemas rigorosos de monitoramento ambiental e compensações adequadas.
Os vereadores João Paulo Janjão (Agir36) propositor, Aldenor Lima (União Brasil), Capitão Carpê (PL), Coronel Rosses (PL), Elan Alencar (Democracia), Eurico Tavares (PSD), Jander Lobato (PSD), Joelson Silva (Avante), Kennedy Marques (MDB), Mitoso (MDB), Paulo Tyrone (PMB), Prof. Samuel (PSD), Prof.ª Jacqueline (União Brasil), Raulzinho (MDB), Roberto Sabino (Republicanos), Rodinei Ramos (Avante), Rodrigo Sá (Progressistas), Saimon Bessa (União Brasil), Sargento Salazar (PL), Sérgio Baré (PRD), Yomara Lins (Podemos) e Zé Ricardo (PT) são os autores da propostas.
Distorção de responsabilidades
Essa é a pergunta que alimenta o debate e também a crítica. Para o cientista político Carlos Santiago, a criação da frente parlamentar parece destoar das responsabilidades mais urgentes dos vereadores.
“Manaus tem problemas gravíssimos. Violência crescente, trânsito caótico, educação deficiente, falta de creches e poluição nos igarapés. Quando vereadores escolhem priorizar uma frente parlamentar para uma estrada federal, ficam parecendo mais interessados em criar um discurso eleitoral do que em resolver os problemas reais da cidade”, afirma o especialista.
Santiago critica diretamente o distanciamento entre as pautas escolhidas pela Câmara e as demandas cotidianas da população manauara.
Limitações
Na avaliação do também cientista político Helso Ribeiro, o movimento é legítimo dentro do jogo político, mas possui limitações claras.
“A competência da Câmara de Manaus sobre uma rodovia federal é praticamente nula. No máximo, serve como instrumento de pressão política ou como construção de capital eleitoral. Afinal, estamos às vésperas das eleições municipais. É uma pauta que rende visibilidade”, afirma.
(Foto: Arquivo pessoal Helso Ribeiro)
O cientista ressalta que, embora seja possível que uma frente parlamentar atue politicamente pressionando o governo federal ou buscando apoio institucional, isso não gera efeitos práticos diretos sobre a execução das obras da BR-319, que dependem de recursos e decisões federais.
“Se isso vai ser visto como um movimento antiambiental ou pró-desenvolvimento, depende muito do tom que os próprios vereadores adotarem. Mas é inegável que há um cálculo político envolvido”, conclui Helso.
Debate ambiental
O debate sobre a BR-319 nunca vem sem o peso das questões ambientais. Organizações ambientalistas alertam para os riscos de desmatamento, aumento da grilagem, invasão de terras e impactos irreversíveis na floresta.
Por outro lado, os defensores da obra insistem que, com planejamento adequado e responsabilidade técnica, é possível pavimentar a estrada sem comprometer os biomas, além de garantir desenvolvimento econômico e social para a região.
Para a ambientalista Fabiana Rocha, a criação da Frente Parlamentar representa uma oportunidade legítima de ampliar o debate sobre o futuro da BR-319. No entanto, ela alerta que o projeto de resolução que cria a frente tem um viés predominantemente desenvolvimentista, focado nos benefícios econômicos e logísticos da pavimentação, sem contemplar de forma efetiva as preocupações ambientais e sociais.
“A gente precisa entender que essa é uma área de floresta, que ainda mantém parte dessas terras mais protegidas. Embora o texto mencione a participação de universidades, institutos de pesquisa e da sociedade civil, não há uma previsão clara de escuta dos segmentos ambientais e dos povos tradicionais que vivem na região”. ressalta Fabiana.
(Foto: Fabiana Rocha / arquivo pessoal)
Ela também critica a estrutura do projeto, que, segundo ela, tem como objetivo principal impulsionar a obra, sem garantir as análises socioambientais necessárias.
“Isso pode tornar o processo ainda mais problemático, especialmente se não forem consideradas as reais demandas de quem vive e utiliza a BR-319”,conclui.
Prioridades
Enquanto vereadores mobilizam energia política para uma rodovia federal, a cidade de Manaus segue convivendo com problemas urbanos estruturais. O cientista político Carlos Santiago resume essa contradição:
“Falta uma frente parlamentar pela mobilidade urbana, pela educação de qualidade, pela despoluição dos igarapés. É isso que o povo de Manaus quer e precisa.”
A questão que fica para a sociedade manauara é: a criação da Frente Parlamentar em Defesa da BR-319 representa uma estratégia legítima de desenvolvimento regional, ou é mais uma cortina de fumaça que desvia o foco dos problemas locais, em ano eleitoral?
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