Manaus, 29 de julho de 2026
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Cidades

Xiborena: estiagem, trilha das onças e o drama dos ribeirinhos

O Portal AM1 esteve na comunidade do Xiborena, em Iranduba, para mostrar as dificuldades dos moradores com a estiagem e o perigo iminente das onças

Xiborena: estiagem, perigo das onças e drama dos ribeirinhos

A estiagem na comunidade Paraná do Xiborena, no Amazonas, afeta a vida dos moradores do local, que aguardam ansiosamente pelo período da cheia. Foto: Márcio Silva / Portal AM1

O período de estiagem costuma trazer muitas dificuldades para quem vive na comunidade do Xiborena, comunidade rural localizada no município de Iranduba – distante a 35 quilômetros de Manaus. Mas a seca, que dificulta o escoamento da produção agrícola na região, se tornou uma questão secundária diante do mais novo temor dos moradores daquela área: o maior felino das Américas, a onça-pintada. Relatos que se multiplicam e, por vezes, assustam, principalmente, os moradores mais antigos, que garantem que não viam nada parecido naquela região, há pelo menos 20 anos.

“Diz que ela é grande, ó… grande mesmo! Nós temos até medo dela vir e pegar galinha ou a gente estar no roçado e ela pegar, porque a gente capina, né?!”, conta Maria do Socorro Souza, de 49 anos. A dona de casa, que mora bem na entrada do paraná do Xiborena, conhece bem a história de avistamentos dos felinos. E ela não é a única. Na região, todos conhecem ao menos alguém que já teve contato visual com os animais neste ano. E foi em busca da “Trilha das Onças”, que a equipe de reportagem do Portal AM1 foi à comunidade Paraná do Xiborena.

A jornada

A viagem até o local é relativamente curta. Saindo de barco do porto da Ceasa, na zona Sul de Manaus, bastam aproximadamente mais de 20 minutos para chegar a outra margem do rio Negro, onde fica a comunidade.

Foto: Márcio Silva / Portal AM1

Na região, o calor não dá trégua e o solo é rachado. Os flutuantes que ficam na saída do paraná estão encalhados em terra firme à espera da cheia. Este ano, para amenizar os impactos da seca, os moradores decidiram, por conta própria, construir uma barragem para evitar que o paraná secasse totalmente.

“Essa barragem foi construída para o pessoal levar alimento lá para dentro, água, comida, [alimento] que se compra em Manaus. E também para trazer as coisas que eles vão vender em Manaus para comprar os alimentos deles”, explica o agricultor Giovanni Matias, 44. “Se não fosse essa barragem, não tinha água nem para os bichos beberem”, explica o líder comunitário Francisco Raimundo, 56 anos.

Líder comunitário do Xiborena, Francisco Raimundo, 56 anos. Foto: Márcio Silva / Portal AM1

Com paus e sacas de areia, a barragem evitou a seca completa e deixou para os moradores uma pequena “estrada” de rio, para que fosse possível chegar aos trechos mais distantes do Xiborena. E é por esse caminho que a reportagem do Portal AM1 começou a seguir em busca da “trilha das onças”.

Medo

Com poucos minutos paraná a dentro, a equipe do Portal AM1 encontrou o motorista e agricultor, Luís Carlos da Silva, de 60 anos. Em sua pequena propriedade rural, ele planta feijão e jerimum-caboclo. E foi no roçado que ele conta que teve de “correr” das onças.

“A gente já tinha visto uma, mas há 20 anos, mas agora está aparecendo uma pintada aqui atrás, no terreno. Eu já a vi duas vezes no meu terreno. A gente está até assustado. Ela pega. Então, está muito perigoso por causa dessa onça”, revela.

O motorista e agricultor, Luís Carlos da Silva, de 60 anos, conta que já teve que ‘correr’ das onças no local. Foto: Márcio Silva / Portal AM1

Para Luís, agora, o trabalho na roça tem de ser feito com todo o cuidado possível. “A qualquer minuto, ela pode pegar uma pessoa. Eu já corri umas quatro vezes para dentro de casa. E quando vem, nunca é só uma. São sempre duas e é aí que mora o perigo, porque a gente está aqui sozinho”, diz Luís.

Apesar do medo, depois de cuidar da plantação, Luís anda praticamente toda a extensão do paraná, de sua propriedade até a margem do rio Negro, acompanhado apenas de um cachorro.

Foto: Márcio Silva / Portal AM1

Mais relatos

A viagem continua pelo paraná, em busca de novos relatos, que não tardam a aparecer e, pela descrição dos moradores, os felinos têm tamanhos diferentes. “A onça está com um filhote pequeno. Ela passa aí atrás, mas ninguém tem nada a ver… O pessoal tem visto o rastro, tem escutado, mas nós, não, porque a gente fica trabalhando, chega tarde e vai todo mundo dormir. Então, deixa ela para lá, no cantinho dela. Ela é meio braba mesmo. Quem vai querer enfrentar? Então, é ela no canto dela e o cara no dele”, fala o pescador e agricultor, Elias Gregório, 61, morador do Xiborena desde 1990.

“Minha filha viu”

“Eu já ouvi falar. Meu compadre Pedrinho viu. A minha filha já viu. Viu ela (a onça) pessoalmente no igarapé, quando ela ia para a igreja. É um filhote. Meu compadre que tem uma fazenda, diz que ela fica atravessando de um lado para o outro (do rio). Mas graças a Deus, até o momento, não começou a sumir galinha, pato ou boi”, comenta o agricultor Elso Gomes do Couto, de 68 anos.

A esposa de seu Elso, Lucilene de Souza Menezes, 61, diz não ter medo dos animais. “Não tenho medo, não. Eu tenho medo da “onça-homem”. Aquelas pessoas que querem fazer o mal, mas uma onça dessas, ela vive lá no mato comendo os bichos e a gente quase não vive na mata e, graças a Deus, não tem mexido com os nossos bichos. Eu não tenho preocupação com isso”, comenta.

Vida difícil

A espera pelo período da cheia é grande. Enquanto ela não vem, os moradores do Xiborena vão se virando como podem, como explica o líder comunitário Francisco Raimundo, 56 anos. “É um período em que a comunidade fica isolada por conta da seca. Fica muito difícil para as pessoas se deslocarem das suas casas até chegar ao rio para poder pegar um transporte e chegar à cidade grande. São três meses de sofrimento. A gente não tem apoio das nossas autoridades. Eles não vêm aqui durante o período da seca, e cada um dá o seu jeito, se deslocando como pode até chegar à margem do rio e essa é a vida que a gente leva todo ano, lutando para caminhar e sobreviver”, desabafa.

Foto: Márcio Silva / Portal AM1

Se a vida já estava difícil por conta da estiagem, agora, com aparecimento de onças, a situação ficou ainda mais complicada. Mas a pergunta que não quer calar entre os moradores do Xiborena é:  afinal, o que houve para que as onças-pintadas tenham se aproximado tanto da comunidade?

O professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Rogério Fonseca, 45, que é biólogo, mestre em ciências florestais e ambientais – com ênfase em gestão ambiental e áreas protegidas;  doutor em Ecologia e Conservação e Manejo de vida silvestre, elucida algumas questões sobre o comportamento dos felinos.

“A onça-pintada, assim como a onça parda, que são os dois grandes felinos da fauna brasileira, eles ocorrem na região amazônica especificamente naquela área do encontro das águas, entre Iranduba, Careiro e mesmo aqui na cidade de Manaus. Essas onças que comumente chamamos de onças periurbana, coexistem conosco e sempre fazendo seu trânsito entre nós, naquele período em que nós, humanos, estamos mais inativos, quase sempre no período noturno”, explica.

De acordo com o pesquisador, restos de alimentos também contribuem para atrair os felinos. “O indivíduo vai lá e faz um abate de uma galinha, faz o abate de um animal, e deixa esse resíduo do abate mal disposto, ele acaba sendo uma fonte de “atração” para a onça-pintada. Então, se essa onça é uma fêmea, que está com o filhote em fase de aprendizado de caça, se é um indivíduo muito velho, senil, e que perdeu um pouco de sua habilidade de caça, ou mesmo se é um animal que foi atingido por uma munição, que acaba deixando aquele animal ‘capenga’ de alguma forma, ele acaba fazendo a substituição das presas naturais por presas domésticas”, pontua.

A caça indiscriminada também pode favorecer o aparecimento do felino.  “Em regiões que existe forte pressão de caça ilegal e onde boa parte do lista alimentar da onça não existe mais, a onça também vai optar, por algumas vezes, em consumir animais domésticos”, ressalta.

A barragem

Além do descarte de resíduos de abate de animais e a caça predatória, que reduz as presas naturais da onça-pintada, uma obra da engenharia humana também pode ter sido a grande causadora da atração do felino nesses tempos de seca.

No caso, aqui, a própria barragem construída pelos moradores do Xiborena. “Vamos pensar o seguinte: a época de seca é uma época em que todos os animais, todos, sem exceção, eles vão para os pontos onde tem o maior acúmulo de água.  Se foi feito um represamento – eu não sei se esse represamento foi autorizado, por algum órgão governamental -, há que se levar em consideração que você está alterando a dinâmica natural de um curso d’água e, por isso, a fauna, no caso das onças, muito especificamente,  elas vão procurar o lugar que tem o maior acúmulo de água. Então, para essa situação, creio sim, que essa obra tenha ocasionado uma fonte de atração das onças para mais próximo dos humanos. Há que se avaliar o mais urgente possível essa situação”, alerta.

Foto: Márcio Silva / Portal AM1

Cuidados

O especialista também destaca alguns cuidados que os humanos precisam ter, quando entram em contato com os felinos. “Nunca saia correndo de nenhum animal. Pare, se acalme o máximo que você puder e mantenha visualmente o animal no seu foco visual, sempre”, indica. De acordo com o pesquisador, o mais comum, neste tipo de situação, é o animal seguir seu próprio caminho. “As onças-pintadas não têm humano como opção alimentar”, assinala. E quando o animal não for embora? “Se ele der uma demonstração de que vai ficar te encarando, a situação mais clara que a gente recomenda é: sempre se demonstre o maior possível (explica o especialista, estufando o peito), para que o animal reflita sobre a posição dele, de entrar em conflito com um animal com muito mais força e energia que ele”, finaliza.

O geógrafo e ambientalista, Carlos Durigan, que é membro da Aliança da Onça-pintada, faz um alerta para a situação dos avistamentos na comunidade do Xiborena, inclusive, no sentido dos perigos para o próprio animal silvestre.

“É claro que você tem precauções com um animal como esse, e eles se aproximando de áreas muito habitadas é um problema. Mas deveria haver alguns procedimentos, em casos assim, para garantir a segurança das pessoas e também do animal. O que acontece geralmente quando uma onça aparece em uma área habitada ou em sítios, fazendas, onde tem animal doméstico, ela acaba sendo morta por um fazendeiro ou proprietário de terra. Então, é uma questão de cuidar da situação, tanto para os animais domésticos e para as pessoas, quanto para o próprio animal, que infelizmente acaba sofrendo com essa situação de desequilíbrio”, destaca.

Na galeria abaixo, confira mais fotos do repórter fotográfico do Portal AM1, Márcio Silva