Manaus, 7 de julho de 2026
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Cenário

União do PT e PL pode embaralhar a cabeça do eleitor, diz especialista

Cabo Maciel (PL) foi à sede do PT em Itacoatiara para formalizar uma aliança entre as siglas, já que os petistas não querem nenhum vínculo com Mário Abrahim.

(Foto: Reprodução)

Itacoatiara (AM) – Uma aliança que pode ser considerada incomum: a união entre a esquerda e a direita. O Partido Liberal (PL) do deputado estadual e pré-candidato a prefeito de Itacoatiara, Cabo Maciel, está caminhando para ter uma vice do Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições de 2024. A proposta surgiu após uma reunião interna entre o PL e a Federação FE Brasil da Esperança no município, composta pelo PCdoB, PV e PT. Mas segundo especialista ouvido pelo Portal AM1, essa união pode embaralhar a cabeça do eleitor.

Há 13 anos no PL, o deputado, agora, busca novas alternativas para ganhar o pleito em Itacoatiara. O parlamentar esteve pessoalmente, no último 12 de junho, na sede do PT em Itacoatiara, para formalizar uma aliança entre as siglas.

Em reunião, a portas fechadas, sem a presença da imprensa e que durou quase duas horas, o resultado foi a indicação da vereadora e pré-candidata a prefeita Profª Maria Francelízia (PT) para ser vice do, também, pré-candidato a prefeito nas eleições deste ano, em troca de um eventual apoio.

Em entrevista exclusiva ao Portal AM1 neste sábado (22), o presidente e a vice-presidente, interinos do PT em Itacoatiara, Glauber Souza e Aldenice Leão, respectivamente, explicaram que a sigla está em processo de “construção” e que conversa para que Itacoatiara tenha uma opção para derrotar Mário Abrahim nas urnas. Sobre a escolha da professora Francelízia para ser vice, o partido afirmou que, mesmo com Maciel no PL, combate os ‘projetos bolsonaristas’ do atual prefeito da cidade.

“Não consideramos um apoio [ao Cabo Maciel] histórico, porque o PL já esteve na base do Lula e do governo federal, tanto é que Alfredo Nascimento foi ministro na gestão do presidente. O PT- Itacoatiara está trabalhando numa ‘construção’ e nós temos uma pré-candidatura, mas esse é o momento de fazer política, de diálogo. A política é a arte do diálogo. E hoje nós estamos conversando para ver se oferecemos aos itacoatiarenses uma opção de nos libertarmos de uma gestão comandada por pessoas de outros municípios e por um prefeito com projetos bolsonaristas”, destacou Glauber Souza, presidente interino no PT em Itacoatiara.

Ainda segundo Glauber Souza, o diretório municipal do PT em Itacoatiara, cujo partido tem trajetória de vitórias nas últimas eleições com o ex-prefeito Antônio Peixoto, não caminhará com o prefeito Mário Abrahim. O presidente interino afirma que isso “não é uma questão pessoal”, mas fruto de uma análise macro da atual gestão.

“Nós, como Partido dos Trabalhadores, decidimos que este diretório municipal não caminhará, de forma alguma, com Mário Abrahim. Nós temos os motivos, elencados em documento, porque quando discutimos política não envolvemos questões pessoais, mas uma análise macro de como está a gestão: quando você não atende o trabalhador, não ouve e tira os direitos deles, no caso dos professores; quando você busca prejudicar ou dificultar a regularização de um local, onde os estudos mostram que têm descentes de quilombolas; quando temos uma prefeitura com zero transparência; nós não podemos compactuar com uma situação dessa, que são ações bolsonaristas, porque o Bolsonaro não abre espaço para o diálogo e é ditatorial”, elencou Glauber.

Diálogo interno

Apesar de formar uma federação com o PCdoB e PV, o PT afirma que o diálogo entre os partidos tem sido difícil, já que o apoio aos pré-candidatos não é o mesmo: enquanto o PV e o PT querem a Profª Francelízia como vice de Cabo Maciel, por outro lado, a vereadora Renata Tenório, presidente municipal do PCdoB e da federação Fe Brasil da Esperança em Itacoatiara, é um dos principais nomes da base eleitoral do prefeito e já afirmou que vai apoiar a reeleição de Mário Abrahim.

“O que nós podemos dizer é que cada partido pode tomar as suas decisões e depois ver como é que fica a questão federação. Mas, a federação se reuniu e foi proposto que fossem ouvidos outros pré-candidatos para que seja aberto o diálogo. O único que procurou a FÉ Brasil da Esperança foi Cabo Maciel, que esteve presente no PT e apresentou propostas muito boas, convidando a federação para compor a chapa e fazer parte como vice. Como a professora Francelízia estava como pré-candidata a prefeita, o PV indicou o nome dela para vir como vice de Maciel”, salientou Glauber Souza.

A vice-presidente interina do PT também comentou: “Não é por um objetivo pessoal, é por uma causa maior essa união. Não é pelo Cabo Maciel, ou pelo PL, é por Itacoatiara, porque estamos tentando combater um governo que não combina com o partido. Estamos fazendo um trabalho de explicar para a população sobre essa situação”, frisou Aldenice Leão.

Ainda segundo Aldenice, mesmo que Maciel seja do mesmo partido de Bolsonaro, o deputado tem projetos ‘menos projetos bolsonaristas que o atual prefeito de Itacoatiara’.

“Foi o que o Cabo Maciel nos disse: ele está há 13 anos no PL, no mesmo partido, quando ainda não era de Bolsonaro. Foi o ex-presidente quem migrou para a sigla há quatro anos atrás. E o deputado não tem culpa disso. Nós também observamos que nos trabalhos de Cabo Maciel têm muito menos projetos bolsonaristas do que os do governo Mário. Nosso apoio ao pré-candidato do PL tem sido passado para os nossos filiados e eles estão entendendo isso e apoiando”, enfatizou Aldenice Leão.

Consenso

Sobre os apoios dos partidos em Itacoatiara, a presidente da Federação Renata Tenório disse que as siglas vão aguardar a aprovação da FÉ Brasil estadual ou nacional. “Como não houve consenso entre os três partidos municipais, aguardamos a aprovação da estadual da Federação sobre os encaminhamentos, caso não haja consenso na Estadual, aguardaremos pela nacional da Federação”, anunciou a vereadora Renata Tenório, em uma publicação nas redes sociais nesta semana.

Mário Abrahim quer somar

Questionado pelo jornalista Bruno Pacheco, do AM1, sobre a possibilidade de se aliar à federação FÉ Brasil da Esperança, o prefeito Mário Abrahim foi direto e afirmou que “está aberto ao diálogo” para todas as pessoas que querem somar e têm propostas para construir uma “Itacoatiara melhor”.

“Todas as pessoas que têm um propósito de trabalhar, de servir, de construir uma cidade melhor, a gente está aberto ao diálogo. É interessante de termos esse compromisso de assumir a responsabilidade. A política é isso, é compromisso de debater projetos, que aqui tem propostas que sejam capazes de resolver nossos problemas. Não dá para ser político e achar que eu vou trabalhar para dificultar o avanço e o progresso do município, porque é o outro que está fazendo e não sou eu. […] Se não ajuda Itacoatiara, se não pensa no coletivo e não é capaz de ser um idealista pelo povo, eu não teria nenhuma vontade [de estar ao lado]”, esclareceu Mário Abrahim, durante lançamento da sua pré-candidatura à reeleição no último dia 15 de junho.

Aproximação PT e PL

Algo que, nos tempos atuais, seria ‘impossível’ no âmbito nacional, a possível união entre o PT e o PL em Itacoatiara incomoda não somente bolsonaristas do município, mas também petistas. Vale frisar que o PL é composto pelo ex-presidente Bolsonaro, o maior líder da direita no País, o principal opositor às ideologias da esquerda, o crítico e o adversário do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, liderança máxima do PT no Brasil.

Para o sociólogo e advogado Carlos Santiago, membro do Comitê de Combate à Corrupção do Amazonas, a aproximação do PT e do PL no interior do Amazonas merece uma observação crítica em meio aos aspectos ideológicos das duas siglas e o que defendem.

“Merece uma observação crítica. [É] como se não fosse importante os aspectos ideológicos, como se o que defende o PL no país e o PT não fossem importantes no interior do Amazonas, logo numa cidade importante como Itacoatiara, que tem por tradição um PT muito forte, orgânico e que já elegeu um deputado estadual e por duas vezes fez o gestor da cidade”, observou Carlos Santiago.

Ainda segundo a análise do especialista, o PL em Itacoatiara tem ‘a expressão do bolsonarismo’, com o deputado Cabo Maciel, e a união da sigla com o PT embaralha a cabeça do eleitorado, em virtude do conflito nacional entre os dois partidos comandados por um presidente com ideologias voltadas para a esquerda e, do outro lado, um ex-presidente considerado o maior líder da direita no Brasil.

“Isso pode ser uma estratégia com o objetivo de ganhar a eleição municipal, mas embaralha a cabeça do eleitorado, já que, no plano nacional, há um conflito, uma divisão ideológica, política e partidária envolvendo o PT e o PL. E, em Itacoatiara, uma cidade importante para o Amazonas, as duas siglas marcham juntas”, salientou.

Para Carlos Santiago, em uma eventual aliança entre os partidos, haverá desgastes, principalmente, para os petistas. “Haverá desgastes muito mais para os petistas, que quebra uma tradição de um partido firme, rigoroso, protagonista, que acaba se rendendo a um nome conservador, o PL de Bolsonaro”, concluiu Carlos Santiago.

Sem retorno

A reportagem procurou Cabo Maciel por meio do contato pessoal do parlamentar a fim de buscar um posicionamento sobre a aliança dele com o PT; mas até a publicação da matéria, não houve retorno.

 

(*) Por Bruno Pacheco (Especial AM1)

 

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