Manaus, 26 de julho de 2026
×
Manaus, 26 de julho de 2026

Cidades

Investimento em saneamento gera benefícios econômicos, mas tema ainda enfrenta desafios regionais

Estudo mostra que cada R$ 1,00 investido em saneamento básico gera uma economia de R$ 4,00 na saúde, prevenindo doenças e diminuindo internações.

o-impacto-do-investimento-em-s

(Foto: Divulgação/Prefeitura de Manaus)

Manaus (AM) – Um estudo do Instituto Trata Brasil revela que, para cada R$ 1,00 investido em saneamento básico, o retorno é de R$ 4,00 em economia para a saúde. Esses dados apontam para uma solução viável diante das demandas de infraestrutura no Brasil, onde cerca de 1,2 milhão de pessoas ainda vivem sem acesso ao tratamento de água e esgoto, conforme dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Instituto Trata Brasil, em 2022, detalhou os principais benefícios econômicos e sociais decorrentes de investimentos em saneamento. Entre os impactos identificados, estão: a redução dos custos com saúde pública, o aumento da produtividade no trabalho, a valorização imobiliária e o estímulo ao turismo.

Somente na área da saúde, o estudo aponta uma economia de R$ 61 bilhões entre 2005 e 2019, com destaque para a redução das despesas com internações por infecções gastrointestinais no Sistema Único de Saúde (SUS). Esses custos caíram de R$ 1,5 bilhão em 2005 para R$ 1 bilhão em 2019, gerando uma economia de R$ 500 milhões para os cofres públicos.

o-impacto-do-investimento-em-s

Doutoranda em Geografia e Mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade de Cambridge, Tamara Zambiasi é bolsista do UKRI/ESRC. (Foto: Arquivo Pessoal/Tamara Zambiasi)

Essa economia é interpretada de maneira positiva por Tamara Zambiasi, doutoranda em Geografia na Universidade de Cambridge, que desenvolve uma pesquisa exploratória ligada à interseção entre financiamento e governança da água no Brasil, com foco em como esses fatores afetam a sustentabilidade e a equidade no acesso à água.

Conforme a pesquisadora, essa relação de economia por meio do investimento em saneamento básico evidencia não somente as vantagens nas questões econômicas, como também de saúde.

“A relação apontada — R$ 1,00 investido em saneamento gerando uma economia de R$ 4,00 na saúde — demonstra que esses investimentos não apenas melhoram a qualidade de vida, prevenindo doenças, mas também aliviam os custos do sistema de saúde e contribuem para uma economia mais robusta”, apontou Zambiasi em entrevista ao Portal AM1.

De acordo com Zambiasi, o investimento em saneamento básico não apenas previne a disseminação de doenças como diarreia e hepatites, mas também alivia a pressão sobre os sistemas de saúde.

“Investir em saneamento resulta em menos pessoas adoecendo por doenças evitáveis, como diarreia, hepatites e outras enfermidades transmitidas por água contaminada. Sistemas eficientes de saneamento básico — como o fornecimento de água potável e a coleta e tratamento de esgoto — são cruciais para interromper a cadeia de transmissão de doenças de veiculação hídrica”, esclareceu Zambiasi.

E quem vive na pele?

Embora os dados mostrem avanços, a realidade cotidiana de quem vive sem saneamento básico permanece desafiadora. Um exemplo é Giselle Dantas, moradora do beco do Nonato, que experimentou de perto os efeitos dessa carência até recentemente, quando teve acesso ao serviço pela primeira vez.

Há quatro décadas, Giselle Dantas já residia no beco Nonato, mas, diferentemente de hoje, não tinha acesso à água tratada. Segundo ela, a falta de saneamento básico na época resultava em frequentes problemas de saúde em sua família.

“A gente vivia doente, com vômito, diarreia, as crianças sempre iam ao médico. Era muito ruim não ter água tratada e esgoto”, relatou Giselle à reportagem.

o-impacto-do-investimento-em-s

O Beco Nonato é a primeira área de palafitas em Manaus a receber sistema de esgotamento sanitário (Foto: Emília Picanço/Portal AM1)

Ainda segundo a moradora, a chegada da água tratada e da rede de esgoto trouxe melhorias tanto na saúde quanto na valorização dos imóveis. Ela destacou a redução do mau cheiro e o aumento da qualidade de vida, especialmente durante o período de verão, quando a situação era ainda mais crítica.

“Melhorou nossa saúde e valorizou nossos imóveis. A chegada da rede de esgoto também foi uma bênção, porque antes tudo era despejado debaixo das nossas casas. No verão, era horrível, um mau cheiro insuportável. Depois que a rede coletora de esgoto chegou ao beco Nonato, tudo melhorou. Agora, podemos receber visitas e almoçar tranquilos, sem aquele fedor horrível. Melhorou muito para nós, muito mesmo”, completou Giselle.

Na capital amazonense

Em análise do painel disponibilizado pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), foi identificado que somente 14,71% da população da Região Norte do Brasil é atendida pelo esgotamento sanitário. É um dos menores índices do País e se posiciona bem abaixo da média nacional, que é de 56% de atendimento.

Tamara Zambiasi analisou os dados sobre saneamento básico e destacou que a Região Norte do Brasil enfrenta as condições mais precárias no que diz respeito aos investimentos nesse setor.

o-impacto-do-investimento-em-s

Beco Ayrão, no bairro Praça 14, zona Sul de Manaus (Foto: Emília Picanço/Portal AM1)

Conforme a pesquisadora, fatores geográficos específicos da região, como áreas de difícil acesso e grande extensão territorial, são algumas das justificativas para os baixos índices de cobertura e atendimento em saneamento. Ela enfatizou a importância de políticas públicas mais eficazes e investimentos direcionados para superar essas barreiras e melhorar a qualidade de vida da população local.

“Os desafios enfrentados pela Região Norte são complexos e múltiplos. Primeiramente, há uma infraestrutura historicamente insuficiente, o que é agravado pelos obstáculos geográficos da região, composta por vastas áreas de floresta amazônica, grandes rios e comunidades dispersas em zonas rurais e ribeirinhas. Essa configuração geográfica torna a construção e a manutenção de redes de água e esgoto muito mais caras e difíceis de implementar”, explicou Zambiasi.

O Instituto Trata Brasil destaca que Manaus figura entre os 20 municípios com os piores índices de saneamento básico na última década. Apesar dessa posição, a capital tem avançado gradualmente em busca de melhorias no setor.

Conforme a análise do instituto, os 20 municípios com pior desempenho investiram, em média, R$ 73,85 por habitante anualmente entre 2018 e 2022 — um valor 68% inferior à média nacional necessária para a universalização do saneamento.

“No caso desses municípios, por terem indicadores muito atrasados e distantes da universalização, ter um investimento anual médio por habitante abaixo do nacional resulta em uma dificuldade muito grande para atingir as metas do Novo Marco Legal do Saneamento Básico e da Portaria 490/2021 em tempo hábil”, descreveram no relatório.

Nem tudo está perdido

Para a doutoranda Tamara Zambiasi, os primeiros passos em direção a um futuro mais promissor no saneamento básico devem começar com uma abordagem que não priorize o lucro.

“A questão do saneamento básico no Brasil precisa ser reconfigurada como uma política pública prioritária, desvinculando-se da lógica do lucro e reafirmando seu caráter de direito humano fundamental”, pontuou Zambiasi ao AM1.

Nesse contexto, a especialista destaca a importância das políticas públicas atuarem diretamente na raiz do problema, visando prevenir futuras consequências prejudiciais. Segundo ela, intervenções estruturais e estratégicas são essenciais para garantir soluções duradouras no saneamento básico, evitando que problemas recorrentes se agravem ao longo do tempo.

“É essencial que os governos retomem a responsabilidade pelo saneamento, garantindo que todas as áreas recebam investimentos adequados. Isso somente é possível por meio de uma política de investimento público massivo e contínuo, para expandir e modernizar a infraestrutura de saneamento no país. Isso inclui tanto a construção de novas redes de abastecimento de água e coleta de esgoto quanto a manutenção das já existentes”, declarou Zambiasi.

Dentro desse contexto, Tamara Zambiasi acredita que a efetividade no saneamento básico será atingida por meio de um trabalho colaborativo entre diferentes esferas de governo. Ela define essa abordagem como “multiescalar”, abrangendo desde ações municipais até políticas federais, com esforços coordenados em todos os níveis, a fim de garantir resultados consistentes e abrangentes.

“Além disso, a gestão do saneamento deve ser integrada a outros setores, como saúde, educação, habitação e planejamento urbano. Uma gestão multiescalar, que envolva o governo federal, estados e municípios, é essencial para garantir que as soluções sejam adaptadas às realidades locais. Isso também inclui a participação da sociedade civil, por meio de conselhos locais e fóruns que envolvam comunidades, especialistas técnicos e representantes de organizações sociais”, esclarece Tamara.

Igarapés

Dados da Associação Comercial do Amazonas (ACA) constatam que Manaus é cortada por aproximadamente mil igarapés, mas, infelizmente, poucos permanecem vivos e com ecossistema preservado. O igarapé Água Branca, localizado no bairro Tarumã, é hoje um dos últimos cursos d’água limpos em área urbana da capital amazonense.

Para tentar reverter a degradação dos igarapés, a Prefeitura de Manaus implementou um projeto de instalação de ecobarreiras em vários pontos da cidade. Em maio deste ano, a administração municipal anunciou a instalação de ecobarreiras. Esse sistema tem recolhido entre 500 e 700 toneladas de resíduos sólidos por mês.

o-impacto-do-investimento-em-s

Ecobarreiras instaladas no Passeio do Mindu, no bairro Parque Dez de Dezembro, em Manaus (Foto: Emília Picanço/Portal AM1)

De acordo com o levantamento fornecido pela Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) à reportagem, Manaus conta atualmente com 10 ecobarreiras instaladas pela Prefeitura em diversos igarapés da cidade.

As barreiras estão localizadas nos seguintes cursos d’água: Igarapé do Passarinho; Igarapé da Avenida Samba; Igarapé do Alvorada; Igarapé do 40; Igarapé do Bairro União; Igarapé Novo Aleixo; Igarapé Mindu; Igarapé da Compensa; Igarapé do Coroado e Igarapé São Francisco.

As ecobarreiras atuam como “cercas vivas”, retendo detritos como plásticos e garrafas antes que poluam ainda mais os cursos d’água da cidade, desempenhando um papel crucial na preservação dos igarapés de Manaus.

 

LEIA MAIS: