Manaus, 6 de julho de 2026
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Manaus, 6 de julho de 2026

Cidades

O veneno dos rios: mercúrio do garimpo intoxica indígenas e compromete o futuro

Contaminação por mercúrio afeta peixes, água e crianças na Amazônia; especialistas alertam para efeitos devastadores por até 150 anos.

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Mercúrio - Foto: (Reprodução/ Redes sociais)

Brasília (DF) – Desnutrição, aborto de repetição, pneumonia química e danos ao cérebro são algumas das consequências da inalação, ou do consumo de pescados contaminados pelo mercúrio trazido pelo garimpo.

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Armado Ígor Marapara – Foto: (Reprodução/ redes sociais @igormarapara)

Nascido na aldeia, no Alto Solimões, da etnia Kaixana, Armando Igor Corrêa Marapara, de 25 anos, viu de perto a chegada e a devastação causada pelo metal pesado na aldeia.

Aos oito anos, parte da família foi atraída pelos garimpeiros, e auxiliavam o grupo de desconhecidos a encontrar os melhores lugares de mineração.

Por falta de conhecimento sobre o impacto do mercúrio sobre os rios, fauna e flora, a penetração dos garimpeiros dentro da comunidade trouxe sérias consequências.  O elemento químico se acumulou nos rios da região e consequentemente os peixes, afetando a alimentação da tribo.

“Meus primos morreram e nós não sabíamos o que era. Lembro que, quando eles adoeceram, a gente não podia ter contato. O mercúrio acabou contaminando a água e os peixes, eu acredito que sou um sobrevivente, pois poderia ter sido eu,” relatou o indígena.

O motivo da morte dos parentes de Armando Igor só foi descoberto anos depois, contaminação da água e do principal alimento, o peixe.

O perigo visível

Dados da última pesquisa da Fiocruz, apontam que a ingestão diária de mercúrio pela população ribeirinha chega a ser três vezes maior do que o limite estabelecido pela agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (U.S.EPA).

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Professora da Universidade Municipal de São Caetano do Sul Marta Marcondes – Foto: (Arquivo pessoal)

Marta Marcondes, professora e pesquisadora da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, explica que os danos causados pelo mercúrio são duradouros, “mesmo após a saída do garimpo, o mercúrio permanece causando danos por 150 anos”.

“Um garimpo na região amazônica, por exemplo, que tenha começado na segunda década do século XX, nós ainda temos aí muito chão pela frente para que esse mercúrio ainda tenha ação e que esse metal entre na cadeia alimentar dos rios da Amazônia,” destacou a pesquisadora.

 

 

 

 

 

 

A professora Dra. Tereza Cristina de Oliveira, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), destaca que a situação é delicada pois as altas concentrações do mercúrio estão na cadeia alimentar do nortista.

“Nos assusta e preocupa essa concentração, pois além da de impactar na biodiversidade, na quantidade de peixes no ambiente impacta a saúde própria da população, porque a gente aqui no norte, a alimentação principal, a proteína principal de consumo é o peixe,” explicou a professora.

 

Na bacia do Rio Negro, localizada entre o Amazonas, Roraima, Colômbia, Venezuela e Guiana,  uma equipe da UFAM atua em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) coletando amostras para comprovar a presença de mercúrio na região. Segundo a professora, a pesquisa está em andamento e os resultados devem ser publicados em breve.

“Precisa ter ações imediatas nessas áreas que estão com concentrações maiores, que são mais próximas de atividades de garimpo,” destacou Tereza Cristina.

Em 2022, no território Yanomami, um grupo coordenado pelo médico e pesquisador da ENSP Paulo Basta, realizou uma operação de pesquisa com 22 profissionais, entre epidemiologistas, psicólogos, enfermeiros e especialistas em saúde indígena.

No total, 287 indígenas foram examinados, mechas de cabelo e amostras de sangue coletadas. Destes, mais de 50% apresentaram resultados acima do limite máximo de segurança estabelecido pelas agências de saúde para o mercúrio no corpo, que é de seis microgramas por grama.

 “Todas as pessoas que forneceram a amostra de cabelo, foram detectados os níveis de contaminação com mercúrio, assim como foram detectados os níveis de contaminação nos pescados consumidos pela população local,” disse Basta.

Doenças

As amostras de cabelo coletadas, mostram que os indígenas com níveis mais elevados de mercúrio, apresentaram déficits cognitivos e polineuropatia periférica com mais frequência.

Além disso, ¼ das crianças até os 11 anos estavam com anemia, desnutrição aguda e quase 80% apresentam déficits de estatura para a idade (desnutrição crônica).

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Dr. Paulo Basta – Foto: (Arquivo pessoal)

O médico destacou que a substância afeta de forma mais severa gestantes e crianças, e pode comprometer a fertilidade, e até causar abortos de repetição.

No caso dos bebês, o mercúrio pode ser transmitido para o bebê pelo cordão umbilical, gerando uma concentração de até sete vezes superior aos níveis do sangue da mãe.

“Quando a mãe está pesadamente contaminada, se ela não perder a criança ao longo da gestação, a criança, no cenário grave, pode nascer com anomalias congênitas, com má formação, com deformidades, com paralisia cerebral,” pontuou o pesquisador.

De forma geral, nas crianças geradas por mulheres que estão contaminadas pelo metal são percebidas alterações nos marcos de crescimento, onde ela  leva mais tempo para sustentar a cabeça, se sentar. Basta ainda pontua que essa criança pode ter dificuldades no aprendizado e não acompanha o ritmo escolar.

“O mercúrio vai afetar diretamente a capacidade cognitiva, a capacidade intelectual, a inteligência dessa criança. Então, uma criança que hoje, né, tem um déficit cognitivo, vai se converter amanhã num adulto com déficit cognitivo. Então, esse déficit cognitivo vai comprometer a qualidade de vida dessa pessoa.

SUS está preparado?

Questionado se o Sistema Único de Saúde (SUS) está pronto para atender este tipo de situação, o médico Paulo Basta afirmou que não existe um preparo das equipes de saúde.

“Não existem cursos de atualização profissional disponíveis, para as pessoas poderem ir buscar, conhecimentos. Não existe uma rede no SUS de referência para acolher esses pacientes. Não existe um serviço de tele-saúde para você entrar em contato e pedir esclarecimento,” disse o médico.

Em uma tentativa de auxiliar os profissionais que atuam nestas áreas, o grupo lançou em abril o “Manual Técnico para Atendimento de Indígenas Expostos ao Mercúrio no Brasil”, pensado para as equipes dos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs).

“Ele não é uma ação que se resolva em si e só.  É necessário que as equipes recebam um treinamento apropriado para poder utilizar esse manual, para poder extrair desse manual as informações, pertinentes para sua prática clínica, para o seu atendimento, a população que necessita,” explicou Basta.

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Manual técnico – Ministério da Saúde

O manual pode ser acessado na Biblioteca Virtual de Saúde do Ministério da Saúde, ou  clicando aqui. A obra vai ser lançada oficialmente em uma cerimônia no Palácio do Planalto, dia 28 de maio, a partir das 9h.

Para Marta Marcondes, é preciso “boa vontade dos gestores públicos, investimento e educação” para que as pessoas entendam o tamanho do problema e tenha a consciência de não contaminar a água dos rios com mercúrio.

“Temos que parar com essa questão da contaminação. Mas para isso é preciso uma fonte muito segura de fiscalização, de monitoramento, de punição para as pessoas que estão atuando de forma criminosa. E aí depois, a gente começa a trabalhar com a efetividade da quantidade desse mercúrio nesses rios, e quais sistemas de tratamento seriam indicados.

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