(Foto: Chico Batata/Agecom)
Manaus (AM) – A cidade de Manaus convive diariamente com o desafio de destinar o esgoto produzido por mais de 2 milhões de habitantes. De acordo com um especialista em ecologia, Welton Oda, ouvido pelo Portal AM1, a capital amazonense discute a implementação de um emissário subfluvial, sistema que conduz efluentes para águas mais profundas e distantes, como alternativa para minimizar a poluição dos igarapés e do Rio Negro. No entanto, o especialista alerta que a solução, embora utilizada em capitais litorâneas como Rio de Janeiro e Florianópolis, é controversa e pode trazer sérios impactos ambientais.
O professor Welton Oda, do Departamento de Biologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e líder do Grupo de Pesquisas em Educação para a Biodiversidade (DIVERSA), explica que a capacidade de autolimpeza do Rio Negro não é ilimitada.
“Manaus tem mais de 2 milhões de habitantes, o que equivale a uma emissão fecal diária de centenas de toneladas, sem contar a urina. Mesmo com a técnica do emissário, a experiência em outras cidades brasileiras mostra que os níveis de coliformes fecais permanecem acima dos limites ambientais, tornando as águas impróprias para banho e prejudicando a balneabilidade”, afirma.
Segundo Oda, outro ponto crítico é o destino dessa matéria orgânica.
“Toda essa carga será conduzida, no final do ciclo, para o mar, que já sofre com a acidificação e a morte de organismos como o plâncton e os corais”, alerta, destacando ainda o histórico brasileiro de manutenção precária, que frequentemente resulta em vazamentos de efluentes.

(Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)
Eutrofização: o risco invisível
A crença de que o Rio Negro, por seu grande volume, poderia diluir o esgoto sem prejuízos significativos também é contestada pelo pesquisador. O principal impacto, segundo ele, é a eutrofização, o excesso de nutrientes na água.
“As fezes podem servir de alimento, mas em excesso reduzem a oxigenação e tornam o ambiente morto. A eficiência dos emissários é questionável, como demonstram os casos do Rio de Janeiro e Florianópolis”, explica.
Embora haja resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), a 357/2005 e a 430/2011, que tratam da possibilidade de autodepuração, Oda reforça que, para o Rio Negro, o uso de emissário só poderia ocorrer mediante tratamento prévio da água, algo que, segundo ele, não possui estudos conclusivos nem garantias de manutenção.
Soluções descentralizadas e de baixo custo
Para o ecólogo, a adoção de tecnologias simples e locais pode ser mais eficiente e sustentável do que investir em uma grande obra. Ele cita exemplos como fossas de evapotranspiração, banheiros secos e fossas secas, que permitem a decomposição das fezes antes que alcancem os cursos d’água.
“São soluções baratas, populares e aplicáveis em grande escala em Manaus. A cidade tem áreas de terra firme e de várzea; por isso, é possível pensar em alternativas pontuais. Se os igarapés não recebessem tantos efluentes, não estariam tão poluídos”, argumenta.
Oda defende que a discussão sobre o saneamento deve envolver poder público e comunidades.
“Vejo o emissário como uma última alternativa, pensada para proteger a saúde humana. Mas o que é mais fácil nem sempre é o necessário. Às vezes, a solução demanda maior complexidade e participação social”, conclui.
Debate urgente
Enquanto a chamada “Carta de Manaus” reacende o debate sobre o emissário subfluvial, a fala do especialista reforça a necessidade de planejamento, investimento em tratamento e participação comunitária. O Rio Negro, patrimônio natural da Amazônia, pode até ter capacidade de diluição, mas, como alerta Oda, não é infinito nem imune aos impactos do descuido humano.





