(Foto: Divulgação/ PF)
Manaus (AM) – Segundo relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Manaus consolidou-se como um dos principais centros de regularização de ouro de origem ilegal na Amazônia. Apesar de estar distante das áreas de garimpo, a cidade é apontada como ponto de passagem essencial na cadeia que dá aparência de legalidade ao metal extraído de forma clandestina, antes de sua inserção no mercado nacional e internacional.
O documento aponta que parte do ouro extraído ilegalmente na fronteira entre Brasil e Colômbia, em rios como Japurá, Jutaí, Içá e afluentes, é negociada sem registro em municípios do interior do Amazonas, como Tefé e Tabatinga. De acordo com o relatório, o material segue dessas áreas para Manaus e Itaituba (PA), onde empresas e intermediários empregariam notas fiscais irregulares ou falsificadas para formalizar sua procedência.
Capital se destaca como centro logístico e financeiro da cadeia do ouro
A posição geográfica e a estrutura econômica de Manaus favoreceram o desenvolvimento de um ambiente propício à comercialização do ouro.
A cidade reúne uma rede de portos, rotas fluviais e aéreas, além de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs), instituições autorizadas pelo Banco Central a intermediar operações financeiras com ouro, o que facilita a movimentação do metal.
Segundo o relatório da Abin, esse sistema dificulta a rastreabilidade da origem do ouro, permitindo que o produto de garimpos clandestinos seja inserido no mercado com documentação aparentemente regular. Dessa forma, Manaus atua como ponto de ligação entre áreas de extração e centros de comercialização formais.
Especialista aponta falhas de fiscalização e sobreposição de competências
Para o Portal AM1, o ambientalista e professor Welton Oda avaliou que a concentração da lavagem de ouro em Manaus expõe a fragilidade das políticas de controle mineral e ambiental na Amazônia. Para ele, o problema vai muito além da mineração de ouro e reflete um histórico de irregularidades e negligência do poder público em diversos setores. O professor citou, por exemplo, o processo de exploração de potássio em Autazes.
“Infelizmente, o ouro é apenas um dos indicadores dessa fragilidade. O processo de extração de potássio em Autazes, por exemplo, também é marcado por irregularidades e por conflitos com o povo Mura”, afirmou.
Dados mencionados pelo especialista indicam que o Ministério Público Federal acompanha mais de 20 processos relacionados a concessões minerárias com problemas como invasão de terras indígenas, sobreposição de áreas e uso indevido de licenças ambientais.
No caso específico do ouro, o professor lembrou que durante o governo Bolsonaro houve não apenas omissão na fiscalização, mas incentivo à presença de garimpeiros em terras Yanomami, o que contribuiu para o fortalecimento de redes ilegais de extração e comercialização do metal. Além disso, criticou também a atual gestão estadual, apontando que a falta de prioridade às políticas ambientais no governo de Wilson Lima perpetua o cenário de descontrole.
“O governo de Wilson Lima, cuja ineficiência e falta de prioridade ambiental lembram a gestão Bolsonaro. A relação ruim com a ministra Marina Silva reflete a visão equivocada do governo estadual de que preservação ambiental e desenvolvimento econômico são incompatíveis”, declarou Welton.
Welton Oda afirmou que o garimpo é uma das principais fontes de contaminação por mercúrio nos rios amazônicos. A substância, utilizada na separação do ouro, é altamente tóxica e pode causar sérios danos neurológicos em humanos e animais. Ele destacou que, até recentemente, o uso de mercúrio era permitido por lei no Amazonas, o que agravou o problema.
O ambientalista alertou que rios como o Madeira já apresentam altos níveis de contaminação, afetando diretamente os peixes que compõem a base alimentar de diversas comunidades ribeirinhas. Segundo ele, boa parte do mercúrio que circula na região chega por contrabando, especialmente vindo do Peru e da Colômbia, alimentando uma cadeia ilegal que combina impactos ambientais devastadores e graves consequências sociais para a população amazônica.
Restauração ambiental enfrenta prazos longos e resultados incertos
A engenheira florestal Fabiana Rocha explicou ao Portal AM1 que os danos provocados pela mineração ilegal são de difícil reversão, variando conforme as condições do solo, a intensidade da degradação e a capacidade de regeneração natural das áreas afetadas.
“Não há prazo definido para a recuperação de ecossistemas degradados por garimpos ilegais. O processo depende do tipo de solo, do grau de degradação e da capacidade de regeneração natural da área. Em muitos casos, os danos são profundos e, em alguns, irreversíveis”, afirmou.
Em relação à chamada “lavagem de ouro” em Manaus, a especialista afirmou que a prática representa um grave problema para a sustentabilidade ambiental da Amazônia. O estado, segundo ela, funciona como um centro de escoamento e regularização informal de ouro extraído ilegalmente em outras regiões, o que enfraquece o controle ambiental e estimula novas frentes de garimpo.
Para reduzir os danos provocados por essa cadeia ilegal, Fabiana Rocha defendeu medidas urgentes, com ênfase na rastreabilidade do ouro, desde a extração até a comercialização. Ela destacou a necessidade de uso de tecnologias de monitoramento. Além disso, reforçou a importância de investir na recuperação de áreas contaminadas por mercúrio e em alternativas econômicas sustentáveis para as comunidades dependentes do garimpo, de modo a reduzir a pressão sobre a floresta.
Identificação da origem do ouro ainda é limitada
O geólogo Paulo Vale Pereira Neto explicou que, sob análise física ou química, não é possível determinar se o ouro foi extraído legal ou ilegalmente. Segundo ele, a rastreabilidade do metal é um dos maiores desafios enfrentados pelos órgãos de controle.
“Não é possível identificar, apenas pelas características físicas do ouro ou do solo, se o metal foi extraído de forma legal ou ilegal. O que está sendo desenvolvido é um sistema de rastreabilidade capaz de determinar a origem e verificar se foi produzido dentro da lei”, disse o geólogo ao Portal AM1.
De acordo com o geólogo, a diferença entre o ouro legal, irregular e ilegal está diretamente ligada à obtenção de licenças minerárias e ambientais. O ouro legal é aquele produzido com todas as autorizações necessárias. O irregular poderia ser regularizado, mas é extraído sem a devida documentação.
Enquanto o ilegal provém de áreas onde a mineração é proibida, como reservas indígenas e unidades de conservação ambiental. Ele ressaltou que, embora o metal em si não revele sua origem, a rastreabilidade pode indicar se foi extraído de locais onde a atividade é vedada por lei.
O geólogo distinguiu o garimpo da mineração industrial, destacando que a segunda é uma atividade altamente controlada e regulamentada, enquanto o garimpo se caracteriza pela falta de organização e ausência de cuidados ambientais. Ele observou que, por décadas, a atividade foi incentivada pelo próprio Estado como forma de ocupação da Amazônia, mas hoje seus efeitos se mostram devastadores.
Garimpo e mineração industrial: diferenças e impactos
Paulo Neto destacou que o garimpo aluvionar, realizado no leito dos rios, é o tipo de extração mais comum e também o que gera os impactos ambientais mais significativos.
“Essa prática, geralmente conduzida por pequenos mineradores sem licenciamento ambiental, causa degradação dos recursos hídricos, afetando a qualidade da água, os sedimentos e a fauna aquática. Altera também a hidrologia e a estabilidade dos rios amazônicos”, explicou.
O geólogo diferenciou o garimpo da mineração industrial, ressaltando o grau de controle sobre cada uma das atividades.
“A mineração industrial é uma atividade controlada e regulamentada. O garimpo, por sua vez, é caracterizado pela falta de organização e pela ausência de cuidados ambientais. Durante décadas, o Estado incentivou o garimpo como forma de ocupação da Amazônia, e hoje se observam os efeitos acumulados desse modelo”, afirmou.
Operações no Amazonas
Ao Portal AM1 o superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, afirmou que o órgão tem atuado de forma intensa no combate ao garimpo ilegal no estado, mas destacou que há limites legais para a atuação da autarquia. Segundo ele, crimes como evasão de divisas e falsificação de notas são de competência da Polícia Federal, enquanto o Ibama concentra seus esforços na fiscalização ambiental e na repressão à extração ilegal de ouro.
Entre os anos 2023 e 2025, o Ibama realizou mais de 30 operações contra o garimpo, resultando na destruição de mais de 1.700 balsas e dragas. Ele classificou essa atuação como uma verdadeira “disputa de território com os garimpeiros”, que, segundo ele, tem levado à redução expressiva da atividade ilegal no Amazonas.
O superintendente ressaltou ainda que o trabalho é feito em integração com outros órgãos federais, como a Funai, para proteger terras indígenas, e o ICMBio, que responde pelas unidades de conservação. De acordo com Araújo, o objetivo é impedir que o garimpo avance sobre áreas protegidas e garantir a preservação ambiental no estado.
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