(Foto: Lucas Silva/ Amazonastur)
Manaus (AM) – Enquanto mantém um decreto de limitação de empenhos que, na teoria, paralisou obras, travou repasses e impôs cortes em secretarias, o governador Wilson Lima (União Brasil) decidiu abrir uma nova frente de gastos milionários. O governo lançou uma licitação de R$ 15,5 milhões para pavimentar apenas 8 km do Ramal Esperança, situado no Km 15 da BR-174, em Manaus — um trecho que leva diretamente à Fazenda da Esperança**, comunidade ligada a projetos religiosos apoiados por aliados do próprio governador.
A concorrência eletrônica nº 018/2025, publicada pelo Centro de Serviços Compartilhados (CSC) e sob a responsabilidade da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Região Metropolitana de Manaus (Seinfra), tem valor estimado em R$ 15.519.164,72. O edital foi assinado em 7 de novembro de 2025, justamente quando o decreto de contenção de gastos continua em vigor, restringindo contratações de novas obras e despesas não essenciais.
A licitação será julgada pelo critério de menor preço unitário e prevê prazo de 180 dias para execução, com início das obras em até 15 dias úteis após a ordem de serviço. Isso significa que o asfaltamento pode estar concluído às vésperas das eleições de 2026, período em que Wilson Lima tentará consolidar apoio político no interior e entre grupos ligados a movimentos sociais e religiosos.
Obra de interesse político e religioso
O Ramal Esperança, apesar do nome, não é uma via estratégica nem de alto fluxo econômico. O trajeto, de cerca de 8 km, dá acesso à Fazenda da Esperança, instituição católica que atua com reabilitação de dependentes químicos e que há anos recebe incentivos e parcerias do governo estadual. A pavimentação da estrada, portanto, tem claro componente simbólico e eleitoral, reforçando a imagem do governador junto a bases religiosas que são influentes nas urnas e no interior do estado.
A obra milionária, nesse contexto, é vista por servidores como mais uma ação de caráter eleitoreiro, travestida de “melhoria de infraestrutura”. O gasto, em plena vigência de um decreto que corta despesas de serviços básicos, escancara a priorização seletiva de Wilson Lima, que parece poupar obras com potencial de retorno político, enquanto freia investimentos essenciais à população.
Seinfra no centro das manobras
A licitação está sob o comando do secretário de Infraestrutura, Carlos Henrique dos Santos, homem de confiança do governador e um dos articuladores da distribuição de contratos estratégicos da pasta. Nos bastidores, técnicos da Seinfra e do próprio CSC reconhecem que o processo foi conduzido “a toque de caixa”, sem justificativa técnica consistente para o custo elevado.
Além disso, o edital impõe exigências de qualificação técnica e de capital mínimo que favorecem grandes empreiteiras — um modelo que restringe a competitividade e costuma beneficiar empresas já próximas do governo.
A tentativa de gastar mais de R$ 15 milhões em um pequeno ramal rural enquanto vigoram limitações orçamentárias é, no mínimo, contraditória. O próprio decreto assinado por Wilson Lima no início do segundo semestre de 2025 determinou “contenção imediata de novas despesas de capital” e “prioridade absoluta a gastos essenciais e obrigatórios”.
Na prática, o governo restringe investimentos em áreas sensíveis e retarda pagamentos a fornecedores que não são ligados a aliados, mas abre espaço orçamentário para obras politicamente convenientes, como esta — que não só tem valor questionável para a extensão do trecho, como reforça a presença do governador em áreas onde pretende capitalizar votos e apoios religiosos em 2026.
Confira o edital:
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