(Fotos: Divulgação/ Assessoria e Arquivo/Secom)
Manaus (AM) – Quando Wilson Lima entregar o Governo do Amazonas ao vice Tadeu de Souza, previsto para março de 2026 — movimento necessário para disputar uma vaga ao Senado — ele não deixará apenas a cadeira: deixará um passivo gigantesco, construído por anos de gastos explosivos, contratos questionáveis e prioridades distorcidas.
A herança é tão pesada que qualquer discurso de continuidade chega a soar irônico. Tadeu receberá um governo engessado, repleto de dívidas com fornecedores, contratos que atravessam gestões e setores inteiros funcionando por inércia — especialmente Educação, Segurança Pública e Infraestrutura.
Educação: o rombo mais profundo
A Secretaria de Estado da Educação (Seduc) se tornou o epicentro do caos financeiro. O caso mais escandaloso envolve a Pri Apoio Administrativo e Operacional Ltda, hoje rebatizada como Potencial Serviços Terceirizados, a mesma empresa que já se chamou New Pri — sempre com o mesmo CNPJ, os mesmos sócios e um histórico que se renova com novos nomes.
A empresa recebeu mais de R$ 271 milhões apenas para limpeza de escolas entre 2021 e 2025. É tanto dinheiro que o próprio TCE já precisou suspender contratos por indícios de superfaturamento e aumentos injustificados.
E não é só limpeza: dezenas de contratos com editoras, consultorias e fornecedores diversos drenaram valores milionários todos os anos. Entre os exemplos já levantados no projeto, estão empresas como Pontual Distribuidora (mais de R$ 54,9 milhões), Grafisa, Innyx Educação e Tecnologia, Editora Planeta e tantas outras que engrossam a fila do orçamento da Seduc.
Apesar do gasto monumental, os resultados do Enem trouxeram à tona a verdade que todos tentavam encobrir: a educação segue estagnada.
Para completar, a pasta abriga articuladores políticos que interferem em nomeações, pagamentos e contratos, blindando empresas e criando rotas de influência que Tadeu terá dificuldade para desarmar.
Segurança Pública: contratos caros, empresas próximas ao Poder e índices em alta
A Segurança Pública deixará nas mãos de Tadeu um sistema caríssimo e ineficiente. O símbolo disso é o “Paredão”, contratado por R$ 22,4 milhões, operado por um consórcio de empresas que orbitam a cúpula da SSP. Em meio a esse consórcio, aparecem nomes como a Logic Pro, ligada a um parente direto do alto escalão da Segurança Pública do Amazonas.
Mesmo com o investimento, os índices de violência não melhoraram, e ainda há recomendações do Ministério Público sobre ingerência política dentro da Polícia Militar — mais um foco de desgaste para o próximo governador.
Infraestrutura: obras de alto custo para atender interesses
A Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra) caminha no mesmo padrão: contratações caras, foco eleitoral e pouca transparência.
O caso mais recente é a obra de R$ 15 milhões para asfaltar um ramal de 8 km, beneficiando diretamente a Fazenda da Esperança, tudo isso sob a assinatura do secretário da pasta e em pleno decreto de limitação de empenho.
É o tipo de obra que amarra o orçamento futuro e entrega a Tadeu apenas dívidas e cronogramas de execução que ele será obrigado a cumprir, mesmo que não concorde.
Fornecedores “intocáveis”
Além dos contratos gigantes das secretarias, há empresas que se tornaram símbolos da desordem:
Uma empresa que funciona em uma casa no Nossa Senhora das Graças, já tendo embolsado mais de R$ 16 milhões do Governo.
A microempresa de ex-assessor da ALEAM, contratada sem licitação, de forma emergencial, para fornecer mais de R$ 1 milhão em ração à Sepet — uma secretaria que virou sinônimo de desorganização.
A terceirização milionária da gestão do Hospital Público Pet para a Sociedade Paulista de Medicina Veterinária, ao custo de R$ 42 milhões, com a deputada Joana Darc — aliada direta de Wilson — nomeada como gestora da estrutura.
São contratos que atravessam gestões, criam dependência e drenam recursos que Tadeu dificilmente conseguirá realocar.
Wilson Lima montou uma estrutura onde o Governo é fatiado entre articuladores: um núcleo central ligado diretamente a ele e outros espalhados por secretarias estratégicas, cada qual com seus próprios aliados, empresas favoritas e influência sobre pagamentos.
Na Seduc, um ex-secretário atua para blindar empresas e manter contratos sensíveis intocados. Em outras pastas, um empresário do setor portuário “manda e desmanda”, decidindo quem recebe e quem não recebe. Esse sistema não some quando o governador sai. Ele permanece — e Tadeu vai precisar enfrentá-lo.
A herança verdadeira
Tadeu de Souza não receberá apenas o palácio, a caneta e a faixa. Ele herdará: contratos bilionários e dívidas acumuladas; fornecedores blindados por alianças políticas; secretarias capturadas por grupos específicos; investigações em andamento; obras politicamente direcionadas; um Estado cuja máquina pública foi moldada para servir interesses privados.
A transição de poder será tranquila apenas na agenda oficial. No mundo real, Tadeu receberá um governo esgotado, polarizado e amarrado por contratos caros e questionáveis.
A herança de Wilson Lima não é administrativa — é um passivo que vai definir o futuro do Estado e limitar drasticamente o próximo governado.
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