(Fotos: Divulgação/Seap e Alex Pazuello / Secom)
Manaus (AM) – A Secretaria de Administração Penitenciária do Amazonas (SEAP) segue sendo um dos órgãos mais caros e mais problemáticos da gestão Wilson Lima. Um levantamento realizado com base nos documentos oficiais disponíveis no portal da Transparência do Governo do Amazonas revela um cenário de altíssima concentração de recursos, contratos milionários com empresas já conhecidas do sistema prisional e uma rotina de escândalos que atravessa anos sem solução estrutural.
Os dados do relatório de despesas de 2025 mostram, de forma explícita, que a SEAP mantém um fluxo contínuo de pagamentos de grande porte para um pequeno grupo de fornecedores.
Entre os maiores beneficiados estão três empresas que há anos concentram serviços dentro do sistema prisional:
New Life Multisserviços S.A. – apenas em 2025, já aparecem pagamentos superiores a R$ 14,4 milhões em uma única nota de empenho.
RH Multi Serviços Administrativos Ltda. – também em 2025, registra pagamento integral de R$ 13,2 milhões em uma única movimentação.
Reviver Administração Prisional Privada EIRELI – empresa que aparece repetidamente como credora, recebendo cifras que somam milhões de reais em diversas notas, como os valores de R$ 7,19 milhões, R$ 510 mil e R$ 1 milhão apenas em 2025.
Essas empresas também aparecem nos registros de anos anteriores, como mostram notas de exercícios anteriores ainda não quitadas, evidenciando dívidas acumuladas do governo Wilson Lima com a própria estrutura do sistema prisional.
O volume de pagamentos para serviços terceirizados — segurança, administração prisional, mão de obra e manutenção — mostra que a SEAP, longe de fortalecer sua estrutura própria, segue totalmente dependente de terceirizações milionárias, reforçando a falta de autonomia do Estado na gestão das unidades.
Custo da segurança privada explode
A Embrasil, outra fornecedora histórica, recebeu novamente valores expressivos, incluindo R$ 248 mil apenas em uma das notas de 2025, além de diversas pendências de anos anteriores no mesmo patamar de valores.
Com isso, apenas três empresas — New Life, RH Multi e Embrasil — absorvem, juntas, mais de R$ 40 milhões entre pagamentos diretos e restos a pagar identificados nos relatórios.
Retrato dos pagamentos
New Life Multisserviços S.A.
A empresa recebeu, apenas em uma das notas de pagamento de 2025: R$ 14.443.821,47, pagos integralmente em uma única operação. Além disso, os restos a pagar de anos anteriores incluem: R$ 817.324,57 (2023) e R$ 822.691,90 (2023).
A repetição de valores quase idênticos mostra continuidade contratual — e dependência total da secretaria em relação à empresa.
RH Multi Serviços Administrativos Ltda
Outro gigante dentro da SEAP, também com cifras monumentais: R$ 13.200.115,28 pagos integralmente em 2025. Há ainda pendências de anos anteriores: R$ 721.012,89 (2023) e R$ 718.257,88 (2023) repetido em outra nota.
Reviver Administração Prisional Privada EIRELI
Responsável por gerenciar unidades prisionais e, historicamente, alvo de questionamentos. Só em 2025 aparecem: R$ 7.197.100,64 pagos integralmente, R$ 510.479,52 pagos integralmente, além de R$ 1.011.351,46 empenhados no mesmo ano.
Nos restos a pagar dos anos anteriores, aparecem cifras como: R$ 968.793,92, R$ 31.311,26, R$ 1.018.037,99 e R$ 1.020.315,17 — todos valores pendentes deixados pelas gestões anteriores de Wilson Lima.
Embrasil – segurança privada
A vigilância privada das unidades custa caro: R$ 248.250,00 pagos integralmente em 2025. Além disso, há repetidas pendências de R$ 25.673,36 ano após ano, evidenciando continuidade dos mesmos contratos e débitos acumulados.
Estrutura prisional em crise permanente
Enquanto os gastos aumentam, a SEAP enfrenta sucessivas crises de gestão: superlotação, fugas, rebeliões, mortes, denúncias de tortura, corrupção interna, facções dominando presídios e investigações recorrentes sobre a conduta de gestores.
A contratação contínua de empresas como a Reviver — que administra unidades prisionais e aparece recebendo valores milionários em série — reforça a percepção de que o Estado segue terceirizando o controle sobre suas unidades, apesar dos problemas estruturais e operacionais amplamente conhecidos.
Padrão de opacidade e contratos repetidos
Os dados mostram um fato incontestável: a SEAP não funciona com estrutura própria mínima. O governo Wilson Lima terceirizou tudo: segurança privada, limpeza, administração das unidades, alimentação, manutenção predial, serviços operacionais, monitoramento e vigilância eletrônica, até a mão de obra básica diária.
A administração direta praticamente inexiste na operação cotidiana das unidades — e isso aparece na dureza dos números. Enquanto outras secretarias utilizam contratos variados, a SEAP concentra quase todo o seu orçamento em mão de obra terceirizada e gestão prisional privatizada.
A análise dos dados deixa claro que, no governo Wilson Lima, a SEAP não diversifica fornecedores nem promove mudanças estruturais. Pelo contrário: os documentos mostram um padrão de renovação tácita e continuidade de contratos com empresas que já foram alvo de críticas públicas, denúncias na imprensa e questionamentos de órgãos de controle.
Além disso, o volume de recursos destinado a empresas de serviços gerais, administração prisional e vigilância contrasta com a ausência de investimentos reais em pessoal efetivo, tecnologia, inteligência e reestruturação física das unidades pilares essenciais para qualquer política séria de segurança penitenciária.
A combinação de gastos milionários, fornecedores repetidos, dívidas acumuladas, escândalos recorrentes e ausência de reformas estruturantes expõe uma SEAP cara e ineficaz onde o dinheiro público não se traduz em melhorias reais para o sistema penitenciário nem para a segurança da população.
Os documentos mostram valores gigantes, mas a realidade das unidades prisionais apresenta superlotação crônica, celas deterioradas, falta de servidores de carreira, denúncias sistemáticas de tortura e maus-tratos, unidades dominadas por facções, mortes e rebeliões sob o governo Wilson Lima, fugas frequentes e bloqueio de celulares inexistente.
A SEAP, hoje, é um retrato duro de um Estado que terceiriza sua responsabilidade, multiplica despesas e fracassa no que deveria ser sua função essencial: garantir segurança, dignidade e controle sobre o próprio sistema penitenciário. Em pleno terceiro mandato, Wilson Lima entrega um sistema prisional que continua funcionando como um ciclo interminável de terceirizações, dependência de empresas privadas e crises sucessivas — enquanto o Estado permanece longe de assumir, com estrutura própria, o controle do que deveria ser uma política pública estratégica.
Confira os documentos
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