(Foto: Alex Pazuello/Secom)
Ruy Marcelo*
Na Amazônia, entre novembro e julho, os rios costumam seguir um roteiro conhecido: sobem lentamente, transbordam, redesenham cidades e modos de vida. É o período de chuvas e enchente. O que foge completamente ao script é assistir ao Rio Solimões baixar justamente quando deveria subir. Bancos de areia surgem, embarcações encalham, comunidades ficam isoladas. A exceção virou rotina.
Mas fiquemos tranquilos. Segundo o discurso oficial, está tudo sob controle. Afinal, a prioridade segue sendo expandir petróleo, gás e mineração, porque — dizem — isso é “estratégico”, “inevitável” e, claro, “compatível com o desenvolvimento sustentável”. Sustentável para quem, ainda não ficou claro.
O curioso é que a seca chegou antes do futuro. O futuro anunciado pela ciência, pelos alertas climáticos e pelos relatórios sistematicamente ignorados. Enquanto o rio não sobe, sobe o apetite por novas fronteiras de exploração energética. Explorar mais petróleo para “financiar” a transição energética virou a versão moderna de beber gasolina para apagar incêndio.
Na prática, o cenário é simples:
– o clima muda rápido;
– os rios respondem primeiro;
– e as políticas públicas continuam andando de barco a remo.
A Amazônia, que deveria ser o centro da estratégia climática brasileira, segue tratada como almoxarifado de recursos naturais. Minério para a transição dos outros. Petróleo para garantir o presente de poucos. O sul global acumulando os passivos climáticos. Às populações locais, como sempre, sobra a adaptação forçada: menos água, menos peixe, menos renda e mais promessa.
Tudo isso ocorre em um contexto econômico e geopolítico internacional pouco dado a sutilezas. O mundo voltou a disputar petróleo e minerais a qualquer custo. A retórica climática convive, sem constrangimento, com sanções, guerras híbridas e corrida por recursos. O imbróglio entre Venezuela e Estados Unidos, por exemplo, escancara a contradição: fala-se em democracia, estabilidade e clima, enquanto as riquezas do subsolo seguem sendo o verdadeiro objeto da conversa. A transição energética global, quando aperta, vira nota de rodapé.
Há algo de profundamente irônico — e trágico — em observar a seca do Solimões enquanto se anunciam novos projetos de exploração como se ainda estivéssemos nos anos 1990. O rio dá sinais claros de exaustão. O clima também. Já o modelo de desenvolvimento parece ter uma saúde invejável: nunca aprende, nunca muda, nunca responde por seus erros.
É aqui que entra um ponto geralmente esquecido: a responsabilidade do voto. Em 2026, quando discursos fáceis e promessas grandiosas voltarem a circular, convém lembrar que política ambiental não é detalhe ideológico, é escolha concreta de sobrevivência. Quem trata a Amazônia como obstáculo ao crescimento está, na prática, escolhendo mais seca, mais conflito, mais doenças e menos futuro.
A transição energética, tão celebrada em palcos internacionais, aqui ganha um sotaque peculiar: lenta, seletiva e, sobretudo, sempre adiável. Afinal, dizem, “o Brasil precisa crescer”. Crescer para onde, se os rios estão encolhendo?
Talvez o Solimões esteja tentando nos dizer algo simples, sem relatório técnico nem PowerPoint:
não há futuro energético possível em um território ambientalmente exaurido.
Ignorar o recado é uma escolha. E, em ano eleitoral, é bom lembrar: toda escolha tem consequências — inclusive na urna. Como todo amazônida sabe, quando o rio muda de comportamento, o problema não é o rio.
(*) Procurador de Contas – AM/Mestre e doutorando em Direito Ambiental (UEA)
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