(Foto: Divulgação)
Manaus (AM) – A trajetória política do ex-prefeito de Borba Simão Peixoto (MDB) foi acompanhada por uma expressiva evolução patrimonial. Em 2004, quando disputou sua primeira eleição para vereador, ele informou à Justiça Eleitoral não possuir bens. Agora, candidato a deputado estadual em 2026, Peixoto declarou patrimônio de R$ 7.205.806,14.
O crescimento mais acentuado ocorreu durante o período em que esteve à frente da Prefeitura de Borba. Em 2020, quando foi eleito prefeito, Simão declarou R$ 2,17 milhões. Seis anos depois, o valor aumentou R$ 5.035.806,14, uma alta de 232,06%.
Todas as informações foram prestadas pelo próprio candidato e estão disponíveis para consulta pública no Sistema de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais, o DivulgaCandContas, mantido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A evolução chama atenção não apenas pelo volume, mas pela velocidade. Em apenas seis anos, o patrimônio declarado por Peixoto mais que triplicou, saltando de R$ 2,17 milhões para R$ 7,2 milhões.
De estudante sem bens a proprietário rural
Na eleição de 2004, Simão Peixoto apresentou-se à Justiça Eleitoral como estudante, bolsista, estagiário ou ocupação semelhante. Candidato a vereador pelo então Partido Republicano Progressista (PRP), terminou a disputa como suplente e declarou não possuir patrimônio.

O cenário já era completamente diferente em 2020. Na eleição em que chegou à Prefeitura de Borba, Peixoto informou bens avaliados em R$ 2.170.000,00.

A declaração incluía, entre outros, imóvel rural Nova Olinda, com 84,4129 hectares, avaliado em R$ 10 mil; participação na empresa Simão Peixoto, no valor de R$ 400 mil; imóvel rural de 100 hectares, com 597 cabeças de gado, avaliado em R$ 780 mil; casa de alvenaria com nove cômodos, avaliada em R$ 250 mil; imóvel rural denominado Bom Fim, avaliado em R$ 20 mil; imóvel rural de 500 hectares, com 210 cabeças de gado, avaliado em R$ 390 mil; lancha com dois motores de 300 HP, avaliada em R$ 320 mil.
Esse conjunto formava o patrimônio milionário apresentado por Peixoto no momento em que assumiu o comando de um município marcado por dificuldades econômicas, limitações de infraestrutura e forte dependência de recursos públicos.
Patrimônio mais que triplicou em seis anos
Na declaração entregue para as eleições de 2026, Simão Peixoto informou R$ 7.205.806,14 em bens. O valor é 3,32 vezes maior que o registrado na disputa pela Prefeitura de Borba.

A maior parte do patrimônio está concentrada em propriedades rurais e rebanhos bovinos. O principal bem é um imóvel de 500 hectares na margem esquerda do Rio Madeira, acompanhado de 1.705 cabeças de gado. O conjunto foi avaliado em R$ 3,6 milhões.
Outro imóvel, com 100 hectares e 890 cabeças de gado, aparece com valor declarado de R$ 1,824 milhão. Somadas, apenas essas duas propriedades chegam a R$ 5,424 milhões e reúnem 2.595 animais.
Peixoto também declarou uma residência com 11 cômodos no bairro São Sebastião, em Borba, avaliada em R$ 650 mil; participação de R$ 400 mil em uma empresa de construção civil; lancha com dois motores de 300 HP, avaliada em R$ 420 mil; e caminhão no valor de R$ 200 mil.
A relação apresentada ao TSE ainda inclui outros imóveis rurais e valores mantidos em conta corrente e caderneta de poupança.
Bens aumentaram de valor e rebanhos se multiplicaram
A comparação entre as declarações revela que parte do crescimento decorre do aumento dos valores atribuídos aos próprios bens e da ampliação dos rebanhos associados às propriedades.
Em 2020, o imóvel rural de 500 hectares foi declarado por R$ 390 mil e aparecia acompanhado de 210 cabeças de gado. Em 2026, a propriedade passou a ser informada por R$ 3,6 milhões, com 1.705 animais. O crescimento declarado desse conjunto foi de aproximadamente 823%.
O imóvel de 100 hectares, que em 2020 tinha 597 cabeças de gado e valor de R$ 780 mil, passou a reunir 890 animais e foi avaliado em R$ 1,824 milhão — aumento de cerca de 134% no valor declarado.
A casa que aparecia por R$ 250 mil passou a ser informada por R$ 650 mil, uma valorização de 160%. A lancha subiu de R$ 320 mil para R$ 420 mil, enquanto a participação societária permaneceu avaliada em R$ 400 mil.
Os dados eleitorais não explicam, contudo, se os aumentos decorrem exclusivamente de novas aquisições, expansão da atividade agropecuária, valorização dos imóveis ou atualização dos valores anteriormente informados. O DivulgaCandContas apresenta as declarações feitas pelo candidato, mas não detalha a origem dos recursos nem realiza uma auditoria patrimonial.
Prisão e suspeita de desvio de R$ 29,2 milhões
O período de Simão Peixoto na Prefeitura também foi marcado por prisão, afastamento do cargo e investigação sobre contratos públicos. Em maio de 2023, ele foi preso preventivamente durante a Operação Garrote, deflagrada pelo Ministério Público do Amazonas. A investigação apurava um suposto esquema de desvio de R$ 29,2 milhões da Prefeitura de Borba por meio de licitações.
Segundo o MP-AM, o grupo investigado seria formado por Simão, familiares, servidores públicos e empresários. As suspeitas envolviam associação criminosa, fraudes em licitações, lavagem de dinheiro e corrupção ativa e passiva.
A investigação apontava que procedimentos licitatórios teriam sido simulados para favorecer empresas ligadas ao então prefeito. Parte dos valores pagos pela administração municipal, conforme a apuração, teria sido posteriormente dividida entre servidores e parentes de Peixoto.
O então prefeito deixou a prisão em julho de 2023 após obter liberdade provisória e pagar fiança equivalente a aproximadamente R$ 105,6 mil. A decisão também impôs o uso de tornozeleira eletrônica e proibiu os investigados de entrar nas dependências da Prefeitura de Borba por 180 dias. Posteriormente, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou o retorno de Peixoto ao comando do município.
Da prisão ao pedido de perdão de joelhos
Pouco depois de deixar a prisão, Simão Peixoto protagonizou outra cena de forte repercussão política. Durante um evento religioso realizado em Borba, em setembro de 2023, o então prefeito se ajoelhou publicamente e pediu perdão a Roberto Cidade pelo soco que havia desferido no rosto do parlamentar um ano antes.
A agressão ocorreu em setembro de 2022, quando Roberto Cidade ainda presidia a Assembleia Legislativa do Amazonas e participava de uma agenda eleitoral em Borba. O episódio foi registrado em vídeo, e Cidade apresentou boletim de ocorrência.
No pedido de desculpas, Peixoto afirmou ser um “novo homem” e reconheceu publicamente ter dado o soco no rosto do então presidente da Aleam.
Roberto Cidade ocupa atualmente o Governo do Amazonas e é pré-candidato à reeleição. Simão Peixoto, por sua vez, tenta conquistar uma cadeira justamente na Assembleia que era comandada por Cidade quando ocorreu a agressão.
Ele chega à disputa estadual não apenas com o histórico de confronto físico, prisão e investigação sobre licitações, mas também com patrimônio 232,06% maior do que o informado na eleição que o levou à Prefeitura de Borba.
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