(Foto: Reprodução/ Redes Sociais )
Manaus (AM) — Um caixão dentro de uma cova e a lembrança da falta de oxigênio trouxeram novamente à campanha eleitoral de 2026 um dos capítulos mais traumáticos da história recente do Amazonas: o colapso do sistema de saúde em janeiro de 2021, durante o governo Wilson Lima, quando hospitais de Manaus ficaram sem oxigênio medicinal em meio à segunda onda da Covid-19.
A referência apareceu em um vídeo publicado, na última quarta-feira (2), pelo candidato a deputado federal Massami Miki (Republicanos-AM). Na gravação, ele simula o próprio enterro e afirma que “Manaus conheceu a dor da falta de oxigênio”. A encenação é usada para transmitir uma mensagem de sobrevivência e de “nova chance”, mas também acaba trazendo de volta à memória a forma como o Estado enfrentou uma crise que, cinco anos depois, ainda é objeto de apuração e busca por reparação.
Na época do colapso, o Amazonas era comandado por Wilson Lima, que permaneceu no governo até abril deste ano. Investigações posteriores apontaram que havia sinais de que a demanda por oxigênio estava aumentando antes de o sistema entrar em colapso.
Alertas antes do colapso
Segundo o Ministério Público Federal (MPF), uma investigação constatou que não houve contratação adequada de oxigênio medicinal mesmo após alertas da empresa responsável pelo fornecimento.
A fornecedora havia comunicado ao Estado, ainda em julho de 2020, seis meses antes da crise, a necessidade de um aditivo contratual para aumentar o fornecimento. Conforme o MPF, a ampliação ocorreu somente em novembro e em quantidade inferior à necessária.
O relatório final da CPI da Pandemia também apontou que, em setembro de 2020, um engenheiro clínico da Secretaria de Saúde do Amazonas havia concluído que o volume contratado era insuficiente e que a quantidade necessária seria superior ao dobro do que estava sendo adquirido.
Mesmo diante desse cenário, em 14 de janeiro de 2021, Manaus viveu o colapso que ficaria marcado por relatos de pacientes sem oxigênio nos hospitais.
O próprio Governo do Amazonas chegou a pedir ajuda ao Ministério da Saúde. O então secretário estadual de Saúde, Marcellus Campêlo, afirmou à CPI que comunicou ao então ministro Eduardo Pazuello, em 7 de janeiro, as dificuldades para atender à crescente demanda e pediu apoio logístico.
MPF apontou omissões
As consequências da atuação do poder público não ficaram restritas ao debate político. Em ação que busca a responsabilização civil e institucional pela crise, o MPF apontou omissões da União, do Estado do Amazonas e do Município de Manaus.
Segundo o órgão, além dos problemas relacionados à contratação de oxigênio, houve falhas no planejamento para transferir pacientes para outros estados, apesar da possibilidade de colapso da rede. O MPF também apontou falta de ações coordenadas de distanciamento social e incentivo a medicamentos preventivos sem eficácia científica comprovada.
Em janeiro deste ano, cinco anos após a tragédia, o Ministério Público Federal voltou ao assunto e apresentou informações de relatórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). De acordo com o órgão, os documentos indicam que desde 28 de dezembro de 2020 já existia um déficit crônico de oxigênio medicinal no Amazonas. O MPF sustenta que as novas informações reforçam a tese de omissão dos entes públicos na condução e no planejamento da crise.
Wilson Lima entrou na mira da CPI
A condução do governo estadual também levou Wilson Lima ao centro das investigações políticas sobre a pandemia. Em 2021, o governador foi convocado pela CPI da Pandemia para prestar esclarecimentos sobre a gestão da crise sanitária, a falta de oxigênio e suspeitas envolvendo a compra de respiradores. Após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), ele não compareceu ao depoimento.
Ao final dos trabalhos, Wilson Lima foi incluído no relatório da CPI, que propôs seu indiciamento por epidemia com resultado morte, em razão da gestão da pandemia no Amazonas. A inclusão no relatório, porém, não equivale a uma condenação judicial.
Em outra frente, relacionada à compra de respiradores durante a pandemia, Wilson chegou a se tornar réu no Superior Tribunal de Justiça (STJ), após o tribunal receber denúncia sobre supostas irregularidades na aquisição dos equipamentos. Esse processo é distinto da apuração específica sobre a falta de oxigênio.
Caixão traz tragédia de volta à campanha
É nesse histórico que a imagem do caixão usada agora na campanha ganha outro peso. Massami aparece dentro da cova, enquanto uma escavadeira joga terra sobre o caixão, e relembra que “Manaus conheceu a dor da falta de oxigênio”.
O candidato usa a cena como metáfora para defender novas oportunidades de trabalho para pessoas de 40, 50 e 60 anos. Mas, ao recorrer à crise do oxigênio, o vídeo também resgata a memória de um período em que a capacidade do Governo do Amazonas de antecipar e responder ao colapso da saúde foi colocada sob forte questionamento por órgãos de investigação e pela CPI da Pandemia.
Cinco anos depois, a imagem de um caixão utilizada em uma peça eleitoral acaba remetendo a uma crise cujas responsabilidades institucionais continuam sendo discutidas na Justiça — e a um período que marcou a gestão de Wilson Lima no comando do Amazonas.
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