Manaus, 22 de outubro de 2026
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Cenário

Desmatamento e queimadas elevam emissões de carbono na Amazônia

Estudo do Inpe aponta que ações humanas aumentam emissões e que períodos de seca intensificam os impactos sobre a floresta.

Queimada recorrente aumentou emissão de carbono na Amazônia (Foto: Michael Dantas/Getty Images)

Manaus (AM)— O desmatamento e as queimadas foram os principais responsáveis pelo aumento das emissões de carbono na Amazônia em dois dos três períodos analisados por um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A pesquisa, publicada nesta quarta-feira (21) na revista científica Nature, analisou 15 anos de dados coletados na região.

O levantamento reuniu informações obtidas entre 2010 e 2024 por meio de aeronaves que monitoraram concentrações de dióxido de carbono (CO₂) e monóxido de carbono (CO) em quatro pontos da Amazônia brasileira.

Os pesquisadores cruzaram os dados com informações sobre desmatamento, queimadas, chuvas, temperatura e condições dos oceanos Pacífico e Atlântico.

Emissões aumentaram com pressão sobre a floresta

O estudo dividiu os anos analisados em três grupos, considerando fatores climáticos e a intensidade das ações humanas sobre a floresta. Entre 2019 e 2022, período marcado pelo avanço do desmatamento e da degradação, o desmatamento aumentou 97% e a área atingida pelo fogo cresceu 25% em comparação com o primeiro grupo de anos analisado.

Nesse período, o balanço médio de carbono chegou a 0,43 petagrama de carbono (PgC) por ano, equivalente a aproximadamente 1,58 bilhão de toneladas de CO₂.

O resultado chamou atenção porque o aumento das emissões ocorreu mesmo sem a presença das condições de seca extrema observadas em outros anos.

Secas intensificam efeito das queimadas

O terceiro grupo reuniu os anos de 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024, marcados por temperaturas mais elevadas e períodos de seca associados, entre outros fatores, ao El Niño e ao aquecimento do Atlântico Tropical Norte.

Nesse grupo, o desmatamento aumentou 22% e a área queimada cresceu 92% em relação ao primeiro período. O balanço médio chegou a 0,49 PgC por ano, equivalente a aproximadamente 1,80 bilhão de toneladas de CO₂, o maior índice entre os três grupos analisados.

As emissões associadas ao fogo também foram 53% superiores às registradas no segundo grupo. De acordo com o estudo, as condições climáticas contribuíram para ampliar os impactos das queimadas. Nos anos quentes e secos, a Amazônia recebeu 13% menos chuva por ano, enquanto as temperaturas ficaram mais elevadas.

Ação humana tem peso nos incêndios

A pesquisa também identificou forte influência das atividades humanas na ocorrência das queimadas. Segundo os dados analisados, os incêndios provocados por raios representaram apenas 1,6% das ocorrências em 2023 e 1% em 2024.

Os números indicam que a maior parte dos eventos de fogo nesses períodos esteve relacionada a outras formas de ignição, em um cenário de maior pressão sobre a floresta.

Amazônia perde capacidade de absorver carbono

Ao considerar os 15 anos analisados, o balanço médio de carbono da Amazônia foi de 0,32 PgC por ano, equivalente a cerca de 1,17 bilhão de toneladas de CO₂.

As queimadas responderam, em média, por um fluxo de 0,40 PgC de carbono por ano, ou aproximadamente 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ equivalentes.

O estudo destaca que esse último valor representa as emissões brutas relacionadas ao fogo, enquanto o balanço total também considera a capacidade da floresta de absorver carbono.

Mudanças no clima aumentam vulnerabilidade

Os pesquisadores também identificaram alterações nas condições climáticas da Amazônia ao longo das últimas décadas. Entre 1979 e 2024, a precipitação anual na região caiu 8%. Entre agosto e outubro, período que concentra o auge da estação seca, a redução chegou a 20%.

No mesmo intervalo, a temperatura média anual aumentou 1,13°C, enquanto entre agosto e outubro a elevação chegou a 1,81°C. Segundo os pesquisadores, a perda de vegetação contribui para a redução das chuvas e o aumento das temperaturas, criando condições que favorecem novos incêndios e deixam a floresta remanescente mais vulnerável.

O estudo conclui que a combinação entre desmatamento, degradação, queimadas e períodos de seca ocorre de forma cada vez mais intensa e compromete a capacidade da Amazônia de absorver parte do carbono presente na atmosfera.

A pesquisa foi liderada por Luciana Gatti, pesquisadora do Inpe e coordenadora do projeto Carbam, que acompanha as emissões e a absorção de carbono na Amazônia.

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