Sem novas recargas do Passe Livre, estudantes relatam que estão pagando passagem, buscando caronas e faltando às aulas em Manaus (Foto: Redes Sociais)
A interrupção foi comunicada na segunda-feira (2), por meio da plataforma “Cadê Meu Ônibus”, do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram). Segundo a entidade, as empresas não conseguem continuar custeando as passagens sem receber os valores do Governo do Amazonas.
O Executivo estadual, por outro lado, afirma que os repasses referentes a 2026 estão em dia e sustenta que a cobrança do sindicato envolve uma dívida de 2025, atualmente discutida na Justiça.
Estudantes recorrem a caronas e transporte por aplicativo
A estudante Kerlyn Santos, do 2º ano da Escola Estadual Professora Ruth Prestes, no bairro Cidade Nova, contou que passou a pagar as próprias passagens após a suspensão dos créditos. Em um dos deslocamentos, precisou recorrer a um mototaxista.
“Não está tendo jeito. É gastar dinheiro com Uber ou pagar o ônibus. Era melhor o passe estudantil, que era só encostar lá e ir embora para casa. Agora tem que ficar dependendo das pessoas”, relatou.
Outra estudante da mesma escola, Noely Silva, afirmou que utilizava até quatro passagens gratuitas por dia, pois frequentava tanto as aulas regulares quanto um curso preparatório. Ela disse que ainda não recebeu informações sobre quando o benefício será restabelecido.
“Até agora está indefinido. Ninguém falou nada. […] O que querem dizer é que os alunos que se lasquem para vir à escola”, afirmou.
Alunos faltam às aulas por falta de dinheiro
A suspensão também atinge estudantes que moram em áreas mais distantes da capital. Alguns passaram a pagar a tarifa integral, de R$ 5, enquanto outros enfrentam dificuldades para conseguir dinheiro suficiente para o deslocamento.
Uma estudante relatou que deixou de ir à escola por não ter condições de pagar a passagem. Para conseguir assistir às aulas na quarta-feira (4), precisou reunir R$ 10.
“Ontem eu nem fui para a escola. Consegui vir hoje porque tive que pagar com dinheiro mesmo. Tive que ralar para conseguir os R$ 10. Antes, a gratuidade era de seis passagens por dia, tanto para ir à escola quanto para fazer algum curso. Agora vai ter que ser uns R$ 50 por semana”, contou.
As famílias também começaram a assumir os custos. Uma mãe de estudante disse que percebeu o bloqueio ao tentar renovar os créditos do cartão da filha. Segundo ela, o sistema já não permitia novas recargas e, na terça-feira (3), o benefício foi bloqueado.
Outra aluna, identificada como Beatriz, afirmou que precisou conseguir uma carona e sair de casa mais cedo para não perder a aula.
“Eu tive que pegar carona e vir muito mais cedo do que o normal. Tive que acordar às cinco horas e cheguei aqui às seis para poder entrar na escola. Não posso perder aula porque vou levar falta, e eles não perdoam”, relatou.
Sinetram aponta falta de repasses
O presidente do Sinetram, César Tadeu Teixeira, afirmou que a falta de pagamentos calculados com base na tarifa técnica compromete a situação financeira das empresas de transporte coletivo.
Segundo ele, os custos operacionais, a folha de pagamento e o 13º salário pressionam as contas do setor.
“O sistema está numa situação financeira muito crítica, porque sem esses valores vai se deteriorando. Temos folha de pagamento agora dia 5, na próxima segunda-feira, quinto dia útil, temos 13º esse mês, e sem receber, nós não temos como”, declarou.
O sindicato também informou que formalizou a situação junto à Prefeitura de Manaus, responsável pelo sistema de transporte coletivo, para solicitar providências.
Governo afirma que pagamentos de 2026 estão em dia
O governador do Amazonas, Roberto Cidade, afirmou, na segunda-feira (2), que os pagamentos referentes a 2026 estão regularizados. Segundo ele, mais de R$ 27 milhões foram repassados ao Sinetram neste ano.
Cidade informou que, em 23 de outubro, o governo realizou um novo pagamento de R$ 3 milhões. Ele sustenta que a cobrança apresentada pelo sindicato está relacionada a valores de 2025, que são discutidos judicialmente.
O governador também criticou a suspensão das recargas e afirmou que pretende adotar medidas na Justiça contra a decisão do sindicato.
Disputa judicial envolve cerca de R$ 250 milhões
O impasse entre o Governo do Amazonas, o Sinetram e o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) envolve uma cobrança de aproximadamente R$ 250 milhões por serviços prestados no primeiro semestre de 2025.
A Procuradoria-Geral do Estado (PGE) contesta os valores e afirma que os custos apresentados pelas empresas não foram devidamente comprovados. O governo também argumenta que a responsabilidade pelo transporte coletivo é da Prefeitura de Manaus.
Em audiência realizada em 26 de outubro, o Sinetram afirmou à Justiça que as empresas não têm condições de continuar custeando as passagens dos estudantes da rede estadual com recursos próprios sem receber os valores cobrados.
Na ocasião, o Governo do Amazonas declarou que havia quitado os pagamentos do Passe Livre referentes a 2026, incluindo o repasse de outubro, realizado no dia 23.
Como funciona o Passe Livre Estudantil?
De acordo com o Sinetram, a gratuidade é calculada mensalmente conforme a quantidade de dias letivos. No início de cada mês, o estudante precisa solicitar novamente o benefício para receber os créditos correspondentes ao período.
Com a suspensão das recargas, os alunos da rede estadual ficam impedidos de receber novos créditos. Quem ainda possui saldo no cartão, entretanto, pode continuar utilizando as passagens disponíveis.
Até a última atualização das informações divulgadas, não havia previsão de retomada das recargas.
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