(Foto: Portal AM1 e Divulgação/Agência Amazonas)
Manaus (AM) – A advogada e presidente do PSOL Manaus, Natalia Demes, afirma que a saúde pública do Amazonas segue marcada por falhas estruturais, denúncias recorrentes e ausência de gestão eficaz por parte do governo Wilson Lima. Atuante há uma década em uma organização voltada ao combate da violência obstétrica, ela afirma que o problema permanece grave nas maternidades do Estado.
Segundo Natalia, mesmo com a recente redução da mortalidade materna, o avanço não ocorreu por iniciativa do governo, mas pela pressão contínua de movimentos que atuam na defesa dos direitos das mulheres. “Nós identificamos uma redução na mortalidade materna do Amazonas. Mas não é pela gestão, ao contrário, a gestão tem precarizado os serviços”, afirmou. Ela acrescenta que o movimento social tem sido o principal agente de mudança: “É a força também do movimento social insistindo nas mudanças que vai ter uma mudança no agente público que está ali representando o Estado”.
A dirigente relata que as denúncias recebidas pelo grupo são constantes e abrangem desde demora no atendimento até negligência em procedimentos essenciais. “Nós ainda recebemos muitas notícias de descumprimento, de demora no atendimento”, disse. Nas maternidades, afirma que os problemas são generalizados: “O que a gente recebe de denúncia também é de falta de medicamento, falta de leito, estruturas quebradas, máquinas que não funcionam”.
Essas falhas impactam diretamente gestações de alto risco e dificultam exames básicos. “Você não ter que esperar meses para um ultrassom em determinado lugar… isso impacta a gestação de alto risco, isso impacta diversas situações”, destacou. Para Natalia, a precarização também afeta profissionais: “Quantas vezes nós vimos médicos por muito tempo sem receber salários? Isso é um descaso com a saúde”.
A presidente do PSOL critica ainda a postura do governo durante a pandemia. Segundo ela, as decisões adotadas agravaram a crise sanitária. “A forma como o governador atuou durante o período da pandemia… ele é chamado também de genocida e não é por acaso”, afirmou. Ela cita, como exemplo, a aplicação de medicamentos sem protocolo comprovado. “Houve aqui no Amazonas uma permissão de se fazer teste com medicamentos que não eram utilizados em humanos… em Itacoatiara, por exemplo, foi aplicada Proxalutamida, que não tinha sequer protocolo para uso humano”.
Natalia também aponta fragilidades na atenção básica, responsabilidade municipal, mas que afetam toda a cadeia do atendimento. “Nós temos uma cobertura de pré-natal muito ruim, vários exames não são disponibilizados, o retorno da gestante na UBS é demorado, por vezes não tem médico, está fechada”, relatou. Para ela, isso resulta em um ciclo contínuo de violações: “Eu recebo mulheres fazendo denúncias de violência obstétrica… intervenções desnecessárias, cortes, manobras que machucam, que rompem útero”.
A advogada critica ainda a entrega de unidades de saúde para Organizações Sociais (OS), modelo defendido pelo governo Wilson Lima. Para ela, os impactos já são perceptíveis entre profissionais e usuários. “A visão da Natalia Demes vem de quem está trabalhando dentro das unidades, que é principalmente o despreparo de muitos dos profissionais que estão ali”, afirmou. Segundo ela, a mudança desestruturou setores inteiros: “Deixar a gestão completa, todo o setor de radiologia, todo o setor de obstetrícia ir para uma unidade apenas… a gente tem um desfalque com relação à capacidade do profissional”.
Natália avalia que o modelo tende a piorar a prestação de serviços. “No geral, terceirizar absolutamente o atendimento à saúde nos parece um erro que a longo prazo só tende a piorar”, concluiu.
Assista à entrevista na íntegra:
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