(Foto: Alex Pazuello/ Secom e Divulgação)
Manaus (AM) – A aplicação de aproximadamente R$ 300 milhões em investimentos considerados de alto risco pela Fundação Amazonprev, responsável pela previdência dos servidores públicos do Estado, provocou uma onda de questionamentos sobre a gestão do patrimônio previdenciário e abriu uma crise que já mobiliza sindicatos, órgãos de controle e o próprio governo estadual.
Parte desses aportes, incluindo R$ 50 milhões aplicados em letras financeiras do Banco Master, está no centro das suspeitas após a instituição financeira ter sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central.
A operação realizada em junho de 2024, conforme o Relatório Anual de Investimentos da própria fundação, não possui registro de aprovação em ata, apesar de a documentação ser obrigatória pelas normas internas da Amazonprev.
A ausência do documento motivou o Sindifisco-AM a divulgar nota na última quarta-feira (19), cobrando a apuração de possíveis irregularidades e afirmando que levará o caso ao Ministério Público Federal, Ministério Público do Estado e Tribunal de Contas do Estado.
Documentos internos já apontavam inconsistências
Segundo relatórios da própria Amazonprev, desde setembro de 2024 não havia localização das atas que comprovassem a aprovação da compra não apenas das Letras Financeiras do Banco Master, mas também do C6 Bank. Em outubro daquele ano, a fundação iniciou a portabilidade da custódia desses ativos para a XP Investimentos, com o objetivo de reorganizar a documentação.
O tema voltou a preocupar em maio de 2025, quando o Comitê de Investimentos registrou em relatório interno que acompanhava a situação do Banco Master, cujo processo de aquisição pelo Banco de Brasília havia sido rejeitado pelo Banco Central, aumentando rumores sobre fragilidade financeira.
A situação ganhou novo capítulo em novembro de 2025, quando o Sindicato dos Trabalhadores da Justiça do Amazonas comunicou ao Ministério Público Estadual que a aplicação teria sido feita sem deliberação do Conselho de Administração.
Crise no Banco Master acelera reações
A crise envolvendo o Banco Master explodiu na última terça-feira (18), quando, após tentativa frustrada de venda, o Banco Central decretou regime de administração especial temporária por 120 dias e a subsequente liquidação extrajudicial. Horas antes, o presidente da instituição, Daniel Vorcaro, havia sido preso pela Polícia Federal, acusado de tentar deixar o país.
Com a liquidação, os recursos aplicados pela Amazonprev ficam bloqueados até a conclusão do processo, que pode se estender por anos.
Perito aponta falhas de gestão e risco elevado
Em entrevista exclusiva ao Portal AM1, o perito bancário Henrique Araújo da Silva classificou como “altamente atípica e arriscada” a decisão da Amazonprev.
Segundo o especialista, fundos públicos de previdência operam como “cofres comunitários”, responsáveis por garantir o futuro de professores, técnicos de saúde, analistas e demais servidores. Por isso, afirma, decisões de investimento deveriam ser tomadas com extremo rigor.
Henrique avalia que aplicar valores elevados em letras financeiras de bancos médios não é prática comum entre fundos públicos sérios.
O perito também alertou para o elevado risco de perda total do investimento. Após a liquidação do Banco Master, as letras financeiras passaram para o fim da lista de credores, atrás de funcionários, impostos, garantias e fornecedores.
“São instrumentos subordinados. Na prática, só recebem se sobrar dinheiro para todo mundo. E, em casos como esse, de fraudes e intervenção, não sobra”, afirmou.
Impactos diretos na Amazonprev
Com a liquidação extrajudicial, os R$ 50 milhões ficam congelados até o fim do processo, que pode levar anos. Além disso, o fundo deixa de receber rendimentos, comprometendo o fluxo de caixa que ajuda a custear obrigações previdenciárias.
Segundo o perito, a situação também abre caminho para questionamentos sobre a atuação dos gestores públicos.
Entre os pontos que devem ser investigados estão:
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a aprovação da operação pelo conselho deliberativo;
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a existência (ou não) de análise prévia de risco;
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falhas de controles internos;
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omissões diante das suspeitas e investigações envolvendo o banco.
Órgãos como o Ministério Público e o Tribunal de Contas podem instaurar apurações para determinar responsabilidades.
“É preciso esclarecer quem autorizou, se houve análise de risco e por que não houve registro em atas. Quando dinheiro previdenciário está envolvido, a responsabilidade é enorme”, declarou o perito.

Amazonprev e Governo negam risco aos pagamentos
Em nota oficial, a Amazonprev afirmou que a aplicação de R$ 50 milhões no fundo administrado pelo Banco Master “não oferece qualquer risco” ao pagamento de aposentados e pensionistas e que a fundação possui receita suficiente para cumprir suas obrigações. Reforçou, ainda, que todas as instituições nas quais aplica recursos são credenciadas pela Secretaria Nacional de Previdência Social.
A fundação declarou estar acompanhando o caso junto ao Banco Central.

Durante entrevista à imprensa, o governador Wilson Lima buscou minimizar a situação, alegando aos servidores públicos e beneficiários da previdência estadual que o “pagamento está garantido”, diante das recentes discussões sobre os investimentos da Amazonprev.
Segundo ele, todas as operações realizadas pelo fundo seguiram normas nacionais:
“O pagamento dos pensionistas e aposentados está garantido. Todas as movimentações que foram feitas foram com bancos credenciados pela Secretaria Nacional da Previdência”, declarou.
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