(Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Manaus (AM) – Após sancionar a regulamentação das apostas esportivas em 2023, o presidente Lula voltou a adotar um discurso crítico em relação ao setor e afirmou nesta sexta-feira (22) que pretende endurecer as regras para o funcionamento das chamadas bets no país.
Durante entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, Lula classificou o vício em jogos como uma “doença”, criticou a expansão desenfreada das plataformas digitais e admitiu que, se dependesse apenas de sua vontade, proibiria todas elas.
A declaração ocorre em meio ao crescimento acelerado do mercado de apostas online no Brasil, impulsionado justamente pela regulamentação sancionada pelo próprio governo. Embora tenha defendido a medida na época como forma de criar mecanismos de controle e arrecadação tributária, Lula agora reconhece os efeitos negativos da proliferação das plataformas, especialmente sobre jovens e famílias de baixa renda.
“Eu proibiria todas. Mas não depende de mim. Eu não sou dono do Brasil”, afirmou o presidente ao justificar a dificuldade de adotar medidas mais duras contra o setor.
Contradição entre discurso e prática
Ao ser questionado sobre o fato de ter sancionado a regulamentação mesmo declarando oposição pessoal às apostas, Lula argumentou que a decisão foi resultado das circunstâncias políticas e da correlação de forças no Congresso Nacional. Segundo ele, um eventual veto presidencial seria facilmente derrubado pelos parlamentares.
A justificativa, no entanto, evidencia a contradição entre o posicionamento atual do presidente e a decisão tomada pelo governo em 2023, que abriu caminho para a consolidação do mercado de apostas esportivas no país.
Desde então, as bets ampliaram sua presença em clubes de futebol, transmissões esportivas, programas de televisão e redes sociais, movimentando bilhões de reais.
Influência política e publicidade sob mira
Durante a entrevista, Lula também fez críticas diretas ao poder econômico do setor e à influência exercida pelas empresas de apostas nos espaços de decisão política.
“É sabido a quantidade de influência que eles têm no Congresso Nacional”, declarou.
O presidente afirmou que pretende discutir novas restrições para a publicidade das plataformas, hoje presente em praticamente todos os campeonatos esportivos nacionais. A proposta segue a linha de regulamentações aplicadas a produtos considerados nocivos à saúde, como cigarros e bebidas alcoólicas.
A avaliação do governo é que o excesso de propaganda contribui para normalizar as apostas, especialmente entre adolescentes e jovens adultos, público mais vulnerável ao endividamento e ao comportamento compulsivo.
“Jogar é uma doença”
Ao abordar os impactos sociais das apostas online, Lula adotou um tom contundente. Segundo ele, o vício em jogos se tornou um problema crescente no Brasil e exige resposta mais firme do Estado.
“Jogar é uma doença. É o vício, gente. Você não tem noção do vício”, afirmou.
O presidente também criticou modalidades de jogos eletrônicos de azar, como o popular “Jogo do Tigrinho”, apontado por autoridades como uma das principais portas de entrada para práticas de apostas de alto risco.
“Você pode deixar uma ou outra funcionando. Agora, o que você não pode deixar é o tigrinho da vida funcionar”, disse.
Desafio para o governo
Apesar do discurso mais duro, Lula não apresentou medidas concretas nem prazos definidos para mudanças regulatórias. A promessa é de que o Ministério da Fazenda, responsável pela fiscalização do setor, avalie novas ações até o fim do ano.
Enquanto isso, o mercado de apostas segue em expansão e acumulando críticas de especialistas, órgãos de defesa do consumidor e setores da saúde pública, que alertam para o aumento dos casos de endividamento, dependência financeira e comprometimento da renda familiar.
Ao final da entrevista, Lula reconheceu que o principal desafio será ampliar os mecanismos de controle sem afrontar garantias individuais.
“O cassino agora foi para dentro da sala de casa, para dentro do celular”, resumiu o presidente, ao admitir a dificuldade de conter um fenômeno que se consolidou justamente após a regulamentação aprovada pelo próprio governo.
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