Pacientes aguardam até seis meses na fila de espera do Francisca Mendes

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Pacientes aguardam até seis meses na fila de espera do Hospital Francisca Mendes

Pacientes precisam pegar ficha para conseguir marcar exames e consultas. Para garantir isso, às vezes, eles dormem na unidade de saúde

Distribuição de senha inicia às 06h, mas pessoas chegam bem antes ao hospital (Antônio Mendes/Amazonas1)

Para conseguir marcar consultas, exames, receber atendimento e até cirurgias cardíacas, populares amanhecem nas portas do Hospital Francisca Mendes, zona Norte de Manaus. Isso porque as senhas são distribuídas antes das 07h e mesmo chegando cedo, o risco de não conseguir ser atendido é grande.

É o caso da aposentada Cassilda Costa, de 73 anos, que saiu de casa durante a madrugada para tentar uma consulta com a clínica geral do Caimi Dr. André Araújo, que fica alocado no HPS Francisca Mendes, mas não conseguiu pegar ficha para atendimento porque já tinham esgotado.

“Eu vim lá do bairro Santa Etelvina, zona Norte, para tentar marcar uma consulta porque minha labirintite está atacada, vivo caindo. Eu tenho que vir na quarta-feira que vem, mas eu vou ver porque moro tão longe para dar viagem perdida”, disse, afirmando que chegou na unidade de saúde às 05H55.

Já Maria Diva, de 64 anos, teve a mesma frustração ao não conseguir marcar consulta com o especialista. Entretanto, ela pretende chegar mais cedo na próxima semana para não correr o risco de perder a chance.

“Estou fazendo tratamento porque estou com tendência à várias doenças, como diabetes. A especialista que eu queria, ginecologista, está de férias e até então, nenhum médico substituiu. Tenho que ligar na quarta para ver se tem algum substituto e sexta vou chegar mais cedo”, declarou.

As consultas para o Caimi são marcadas sempre às sextas, por isso é muito comum ver uma longa fila ainda de madrugada. Essa é uma tentativa de pessoas, a maioria idosos, que desejam conseguir atendimento.

As colegas Ana Maria Xavier, 61, “Dona Zena”, 75, Odéia Lira, 64, eram as primeiras da fila. As aposentadas combinaram de ir juntas de Uber e chegaram na unidade, por volta das 03h, para garantir o serviço.

Da esq. para dir.: O trio de amigas tomando mingau enquanto espera a distribuição de fichas (Foto: Antônio Mendes/Amazonas1)

Para elas, a dificuldade maior é na realização de exames e marcação de consultas com neurologistas, gastroenterologia, ortopedista, entre outros especialistas.

“O ruim mesmo é fazer exame, estou na fila de espera da ressonância desde abril e não tem nem previsão de marcar. Demora muito e se você quiser, tem que pagar particular. Fora que é difícil também conseguir ortopedista, urologista, vascular. Demora demais”, comentou Ana Maria.

Sisreg: A “solução” que virou problema

A demora na marcação de consultas e exames é atribuída, pelos pacientes, ao Sistema de Regulação de Vagas de Consultas e Cirurgias (Sisreg) lançado em junho de 2018.

A proposta das secretarias de Saúde do Amazonas (Susam) e do município de Manaus (Semsa) era unificar a marcação de consultas e exames especializados na rede pública de saúde. O usuário que fosse atendido em uma unidade de saúde já sairia com consultas e/ou exames marcados de forma imediata no próprio local.

Entretanto, na prática, os pacientes esperam meses para conseguir marcar um exame e mais um tempo para realizá-lo. O carpinteiro Valder Andrade, de 49 anos, há mais de um ano espera realizar um procedimento cirúrgico para o problema de varizes e ainda não conseguiu, por não ter feito todos os exames necessários.

Pessoas madrugam na portal de hospital para garantir vagas. (Foto: Antônio Mendes/Amazonas1)

“O Sisreg é muito ruim, para fazer um exame demora de 2 a 3 meses. A gente espera demais. Conheço um senhor que precisava fazer cirurgia do coração e disseram que ele teria que esperar um ano. Ou seja, ele ia acabar morrendo antes de conseguir operar. É complicado, eu mesmo ainda não consegui fazer minha cirurgia por não ter feito todos os exames”, disse e brincou, “vou marcar o Eletrocardiograma hoje, vai ser mais uma demora para fazer”.

Trabalhadores ameaçados e cirurgias reduzidas

A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) vai encerrar, no próximo dia 4 de dezembro, o contrato de 550 funcionários da Fundação de Apoio Institucional Rio Solimões (Unisol) que afeta os serviços prestados no hospital Francisca Mendes.

De acordo com o titular da pasta, Rodrigo Tobias, a Susam deve contratar os terceirizados como temporários por um período. Todo um planejamento será realizado para que os profissionais sejam contratados diretamente e recebam como “servidores efetivos do Estado”.

A transição estaria afetando diretamente os serviços prestados na unidade, alertou o vereador Marcelo Serafim, na última terça-feira, 15.

“As cirurgias já haviam sido reduzidas e na última semana, em alguns dias, não foram nem realizadas. A falta de funcionários que estão sem receber,bem como de insumos […] comprometem a segurança clínica dos pacientes cardíacos do Amazonas”.

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