Manaus, 6 de julho de 2026
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Cenário

Violência contra mulheres é normalizada pela sociedade, alertam especialistas

Análises mostram por que agressões contra mulheres seguem sendo toleradas mesmo diante de leis e campanhas.

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(Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Manaus (AM) – Casos de agressões contra mulheres em espaços públicos e no ambiente de trabalho têm se multiplicado em diferentes regiões do Brasil, incluindo Manaus, onde recentemente uma motorista de ônibus foi atacada por um passageiro dentro do próprio local de trabalho.

As ocorrências reforçam um problema estrutural apontado pela 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, que revela que o machismo segue sendo uma marca da sociedade brasileira e influencia diretamente a forma como as mulheres são tratadas no cotidiano.

Especialistas ouvidas pelo Portal AM1 destacam que esse tipo de violência vai além do ato em si e reflete uma estrutura social marcada pelo machismo, pela desigualdade e pelo silenciamento das vítimas.

Violência que ultrapassa o físico

Para a terapeuta psicanalista Samiza Soares, a agressão contra mulheres em ambientes públicos e de trabalho revela uma dificuldade histórica da sociedade em reconhecer a mulher como sujeito legítimo nesses espaços. Segundo ela, a violência nem sempre se manifesta de forma física.

“Essa violência muitas vezes aparece por meio de humilhações, ameaças, intimidações e desqualificação. Ainda existe a expectativa de que a mulher seja sempre cordial, passiva e tolerante, mesmo diante do desrespeito. Quando ela ocupa um lugar de visibilidade, autonomia ou autoridade, isso pode gerar incômodo e reações agressivas, como se sua presença precisasse ser controlada ou silenciada”, afirma.

No consultório, Samiza relata acompanhar mulheres marcadas por experiências semelhantes, muitas delas ocorridas diante de testemunhas, o que amplia o sofrimento psicológico.

Marcas invisíveis do trauma

De acordo com a psicanalista, os impactos emocionais da violência são profundos e duradouros. O medo intenso, o choque e a sensação de humilhação costumam surgir imediatamente após a agressão.

“A longo prazo, podem aparecer ansiedade, crises de pânico, sintomas depressivos, dificuldade de retornar ao trabalho e medo de circular em espaços públicos. O trauma se instala na memória emocional e passa a afetar a forma como essa mulher se percebe e se relaciona com o mundo”, explica.

Ela destaca ainda que muitas vítimas acabam silenciando por receio de perder o emprego ou a fonte de renda, especialmente em contextos de vulnerabilidade econômica.

Violência naturalizada e silêncio social

Para a antropóloga Aline Ribeiro, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a violência contra a mulher deve ser compreendida como parte de um sistema de dominação historicamente construído.

Inspirada na pensadora norte-americana Patrícia Hill Collins, Aline explica que raça, classe e gênero operam de forma interligada, sustentando práticas de violação que não são episódios isolados, mas expressões de um machismo estrutural.

“A violência é frequentemente acionada como ferramenta para manter hierarquias sociais. Agressões contra mulheres em espaços públicos e no ambiente de trabalho não são exceções, mas manifestações de um sistema que protege o poder masculino sobre os corpos femininos”, analisa.

Segundo a antropóloga, o machismo no Brasil é socialmente aceito e normalizado, o que cria uma espécie de “permissão social”, ainda que inconsciente, para a violência. Esse cenário se agrava quando se observa que mulheres negras, pardas e indígenas estão mais expostas às agressões, resultado da sobreposição entre racismo, sexismo e desigualdades sociais.

O papel do Estado e a repetição da violência

Aline Ribeiro ressalta que a naturalização do desrespeito faz com que agressões sejam tratadas como parte do cotidiano, inclusive diante de testemunhas cujo silêncio acaba legitimando o ato violento.

“O Estado não é neutro nesse processo. Ao falhar na criação de políticas públicas efetivas de prevenção, proteção e acolhimento, ele atua como parte do patriarcado. Priorizar apenas respostas punitivas depois da violência transfere às mulheres a responsabilidade por sua própria segurança”, critica.

Para a antropóloga, o foco exclusivo no endurecimento penal não tem se mostrado eficaz para combater a violência de gênero. Ela defende que o enfrentamento passa necessariamente pela educação, pela redução das desigualdades sociais e pelo fortalecimento da autonomia feminina.

“Enquanto tratarmos a violência contra as mulheres apenas como uma questão policial, estaremos lidando com os efeitos e não com as causas. É preciso investir em políticas públicas integradas, que atuem desde as escolas até os serviços de saúde, construindo redes de cuidado e prevenção”, conclui.

Um problema que exige mudança estrutural

Os relatos das especialistas apontam que a violência contra mulheres em espaços públicos e profissionais não pode ser tratada como exceção ou desvio individual. Trata-se de um problema estrutural que exige ações contínuas do poder público, das instituições e da sociedade.

Casos como o da motorista agredida em Manaus evidenciam a urgência de medidas que garantam segurança, acolhimento e dignidade às mulheres, além de uma mudança cultural capaz de romper com a naturalização da violência que ainda marca o cotidiano brasileiro.

 

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