(Foto: Alex Pazuello/Secom)
Manaus (AM) – Antes da operação do Ministério Público que atingiu contratos da própria Secretaria de Estado de Saúde (SES), o governador Wilson Lima já havia adjudicado ao Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (Ideas) a gestão do Complexo Hospitalar Leste — que reúne o Hospital e Pronto-Socorro João Lúcio e o Hospital e Pronto-Socorro da Criança (HPSC) Zona Leste — pelo valor de R$ 1,969 bilhão por 60 meses. A entrega foi formalizada na Portaria nº 850/2025-GAB/SES/AM, de 25 de setembro de 2025, que homologou o resultado do chamamento CP 02/2025 e adjudicou o contrato à OS.
Pelo edital, o Ideas passa a ter controle direto sobre a operação hospitalar do complexo, incluindo — na prática — poder para comprar equipamentos, contratar equipes inteiras, estabelecer metas assistenciais e executar serviços sensíveis como atendimento de trauma adulto e infantil, cirurgia e UTI, funções que até então eram conduzidas sob gestão estatal.
Segundo reportagem do Portal ND+ e material veiculado pelo programa Domingo Espetacular, o IDEAS é citado em denúncias de mortes de bebês em unidade hospitalar de Santa Catarina por suposta negligência no atendimento, além de já controlar mais de 20 unidades de saúde no país. As denúncias levaram familiares a cobrar responsabilização e apuração dos fatos.
A decisão do Governo do Estado ocorre no exato momento em que a credibilidade da gestão da saúde no Amazonas está sob pressão: logo após a adjudicação ao IDEAS, o Ministério Público do Estado (MPE-AM) deflagrou operação contra contratos da própria SES, expondo fragilidades de controle e integridade na execução de recursos públicos da área — o que amplia o contraste de delegar a terceiros, por meio de contrato bilionário, a gestão de dois dos maiores prontos-socorros do estado.
Além do valor e da abrangência, o contrato transfere ao IDEAS a governança operacional do principal eixo de urgência da Zona Leste, sem previsão de publicação obrigatória e periódica de indicadores clínicos para acompanhamento social. O edital prevê auditoria e controle interno, mas não determina transparência ativa dos resultados à população.
Segundo o documento, o IDEAS passa a controlar a operação assistencial integral do João Lúcio e do HPSC da Zona Leste, a contratação e gestão de equipes (médicas, enfermagem e apoio), a compra de equipamentos e material permanente, a execução de metas e indicadores definidos pelo Estado, além da gestão direta de áreas críticas (urgência, trauma, cirurgia e UTI).
A entrega de um complexo estratégico — João Lúcio e HPSC Zona Leste — a uma OS com operação nacional e sob denúncias públicas em outro estado exige transparência reforçada na execução do contrato: publicação mensal de metas e resultados, auditorias independentes, indicadores de desfecho clínico (mortalidade evitável, taxa de infecção, ocupação de UTI, absenteísmo de equipes) e mecanismos de resposta rápida a eventos adversos. Esses pontos, embora citados genericamente no edital (controle, auditoria e metas), precisam ser efetivamente monitorados e publicizados durante os cinco anos de contrato.
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