(Foto: Divulgação /Secom)
Manaus (AM) – O governador Wilson Lima (União Brasil) está prestes a encerrar sua passagem pelo Governo do Amazonas deixando uma herança pesada: R$ 17,631 bilhões em empréstimos contratados ao longo de seus dois mandatos, em operações firmadas em reais e em dólares, estas últimas convertidas para a moeda nacional.
O volume coloca o Estado em um patamar inédito de endividamento e acende um alerta sobre o futuro das finanças públicas.
Levantamento mostra que apenas no segundo mandato Wilson Lima enviou 12 pedidos de financiamento à Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM), muitos deles em regime de urgência, com pouca transparência sobre a destinação real dos recursos e justificativas genéricas de “modernização”, “equilíbrio fiscal” e “eficiência administrativa”.
O caso mais recente ilustra bem esse padrão. No último dia 9, o governador encaminhou à ALE-AM o Projeto de Lei Ordinária nº 1054/2025, solicitando autorização para contratar US$ 60 milhões (cerca de R$ 327 milhões) junto ao Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). O pedido tramita em regime de urgência e pode ser votado antes mesmo do recesso parlamentar.
Apesar do valor expressivo, o projeto não detalha como o dinheiro será aplicado. Limita-se a enquadrar a operação no programa Progestão, com promessas vagas de “racionalização das despesas”, “sustentabilidade fiscal” e “modernização da gestão”.
A justificativa fala em criar “espaço fiscal” para áreas prioritárias como saúde e educação, um discurso repetido à exaustão, mas que pouco se reflete na realidade dos serviços públicos do estado.
Sem freio
Desde 2023, o governo Wilson Lima emplacou uma verdadeira avalanche de financiamentos. Em agosto daquele ano, contratou US$ 87,5 milhões (R$ 455 milhões) com o BID para o PROSAI Parintins.
Dois meses depois, pediu R$ 220 milhões ao Banco do Brasil para o PROHABIS. Em novembro, vieram mais R$ 1,5 bilhão para o PRODECAP VI e US$ 200 milhões (R$ 1,04 bilhão) para o Pró-Sustentável II.
O ritmo não diminuiu. Em dezembro de 2023, o governo contratou US$ 100 milhões (R$ 520 milhões) para o PADEAM II.
Já em 2024, num único movimento, fechou R$ 3 bilhões com o Banco do Brasil para o PRODECAP VIII e IX e US$ 585 milhões (R$ 3,042 bilhões) com o IBRD para o Pró-Sustentável III, sob o argumento de reestruturar dívidas e melhorar o fluxo de caixa — na prática, trocar dívida velha por dívida nova.
Ainda em dezembro de 2024, mais R$ 3 bilhões foram solicitados para o PROHABCAP 2025 e 2026. Em 2025, o governo voltou ao IBRD para contratar US$ 585 milhões (R$ 3,042 bilhões), novamente sem detalhar a destinação. Em novembro, vieram mais R$ 1,5 bilhão para o PROHABISCAP e, agora, os US$ 60 milhões para o Progestão.
Quem paga é o próximo governo
Somados, os empréstimos contratados em reais alcançam R$ 9,22 bilhões. Já os financiamentos em dólares, convertidos para a moeda nacional, chegam a R$ 8,411 bilhões. O total: R$ 17,631 bilhões comprometidos, que recaem diretamente sobre o futuro do Amazonas.
O problema não é apenas o tamanho da dívida, mas a falta de clareza sobre os resultados concretos. Enquanto o governo amplia o endividamento em nome da “eficiência” e da “modernização”, áreas essenciais seguem enfrentando crises recorrentes na saúde, na educação e na infraestrutura.
O discurso fiscal contrasta com a prática de empilhar empréstimos sucessivos, muitos deles aprovados a toque de caixa pela base aliada na ALE-AM.
Com a possibilidade real de Wilson Lima deixar o cargo para disputar uma vaga no Senado em 2026, a conta fica para o sucessor.
Uma dívida bilionária, contratos de longo prazo e pouco espaço fiscal formam o legado financeiro de um governo que apostou pesado no crédito externo e interno, mas deixou dúvidas profundas sobre responsabilidade, transparência e prioridade no uso do dinheiro público.
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