(Foto: Reprodução/Freepik)
Por Dellany Cristine de Oliveira Veras*
Vivemos uma era de ouro na intervenção do desenvolvimento infantil, impulsionada por avanços na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e por equipes multidisciplinares cada vez mais integradas. É inegável a potência dessas abordagens para a aquisição de marcos funcionais e autonomia.
No entanto, ao olharmos para a foto que ilustra este texto um tabuleiro de madeira, peças de encaixe e um livro de cores, corremos o risco de ver apenas o ato técnico de treinar uma habilidade: parear a cor rosa com a peça correspondente.
Essa visão funcionalista, embora necessária, é insuficiente se desejamos uma intervenção irretocável. Quando uma criança neurodivergente já possui uma agenda preenchida por terapias comportamentais, fonoaudiológicas, ocupacionais, e tantas outras, uma pergunta crucial muitas vezes paira nos corredores dos consultórios e nos corações dos pais: E a criança por trás do diagnóstico?
É neste território subjetivo, técnico e complexo que a atuação ética do neuropsicólogo e da psicóloga clínica se faz não apenas importante, mas URGENTE , atuando como parceiras e refinadoras das abordagens comportamentais, nunca como rivais.
O Arquiteto Cognitivo: A Neuropsicologia Refinando o Potencial
O trabalho da neuropsicologia em uma equipe multidisciplinar, e especificamente em paralelo à ABA e à TCC, não é redundante. Enquanto a análise do comportamento foca no fazer (treinar a resposta comportamental e moldar condutas sociais adequadas), a neuropsicologia debruça-se sobre a arquitetura. Ela investiga os processos cerebrais subjacentes que permitem que essa resposta ocorra. Como bem pontuou Lev Vygotsky, o saber que não vem da experiência não é saber. A neuropsicologia traduz como a estrutura cerebral dessa criança experimenta e processa esse saber exigido.
O neuropsicólogo não avalia apenas para rotular ou medir QI. Ética e tecnicamente, seu papel é monitorar o como do aprendizado. O que ecoa para ele é o ajuste fino do potencial de aprendizagem. Se uma criança não avança em um programa comportamental, o olhar neuropsicológico investiga se o entrave é uma falha na Memória Operacional, uma Rigidez Cognitiva persistente ou uma velocidade de processamento lenta. Não se trata apenas de reforçar o comportamento desejado, mas de adaptar a instrução às capacidades neurocognitivas singulares daquele indivíduo. É a precisão técnica garantindo a eficiência da intervenção geral.
O Poeta da Subjetividade: A Psicologia Cuidando do Humor e da Identidade
Para além da eficiência cognitiva, há uma dimensão ética que não pode ser negligenciada. Parafraseando a clássica literatura psicológica, se a neuropsicologia cuida da estrutura do pensar, a psicologia clínica cuida da estrutura do ser. Ela impede que o foco excessivo na “adequação social” apague a singularidade da criança. Ter uma psicóloga clínica (seja de base comportamental ou cognitiva) na equipe é fundamental para garantir que a criança não seja reduzida a um conjunto de respostas operantes socialmente adequadas.
(*) Neuropsicóloga Forense/ Terapeuta Cognitivo Comportamental
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