(Arte: Comunicação/MPF)
Manaus (AM) – A Amazônia, maior floresta tropical do planeta e responsável por quase metade do território brasileiro, continua enfrentando desafios que colocam em risco sua biodiversidade, seus recursos hídricos e os modos de vida de milhões de pessoas.
Segundo dados do MapBiomas, o bioma perdeu cerca de 52 milhões de hectares de vegetação nativa nos últimos 40 anos, o equivalente a aproximadamente 13% de sua área total.
Entre as principais ameaças estão o garimpo ilegal e o desmatamento, atividades que provocam degradação ambiental, estimulam a criminalidade e afetam diretamente comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Diante desse cenário, o Ministério Público Federal (MPF) tem ampliado sua atuação para responsabilizar infratores, recuperar áreas degradadas e proteger populações tradicionais.
Garimpo ilegal avança sobre áreas protegidas
A Amazônia concentra mais de 90% da área garimpada do Brasil. Grande parte dessa atividade ocorre de forma clandestina, seja pela exploração em áreas protegidas e terras indígenas, seja pelo descumprimento das normas ambientais e minerárias. Mais de 70% dos garimpos da região estão localizados a menos de 500 metros de rios, lagos e igarapés, aumentando os riscos de contaminação e destruição dos ecossistemas aquáticos.
Segundo o procurador da República André Porreca, o garimpo ilegal gera impactos que vão muito além da retirada irregular de minérios. A atividade está associada ao desmatamento, à contaminação por mercúrio, à evasão de recursos públicos e ao fortalecimento de organizações criminosas. Investigações do MPF apontam a participação de facções com atuação interestadual e até conexões internacionais na cadeia de exploração mineral ilegal.
Além dos danos ambientais, o procurador destaca que a atividade frequentemente está ligada à violência contra povos indígenas. Em muitos casos, grupos armados invadem territórios tradicionais para garantir a exploração ilegal de recursos minerais, provocando conflitos e violações de direitos humanos.
Um dos casos mais emblemáticos ocorre na Floresta Nacional de Urupadi, em Maués (AM), onde a Justiça Federal recebeu denúncia contra 13 investigados por integrar um esquema de garimpo ilegal que movimentou mais de R$ 258 milhões. A exploração acontecia na região conhecida como Filão do Abacaxis, considerada uma das maiores jazidas de ouro da América do Sul.
Mercúrio ameaça rios e populações tradicionais
Outro grave problema associado ao garimpo ilegal é o uso de mercúrio no processo de separação do ouro. Considerada uma das substâncias mais tóxicas para a saúde humana, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela contamina rios, peixes e toda a cadeia alimentar. A exposição ao metal pode provocar danos neurológicos, perda de memória, alterações cognitivas e problemas motores.
A procuradora da República Sofia Freitas alerta que os impactos atingem especialmente indígenas e ribeirinhos, que dependem diretamente dos rios e da pesca para sua sobrevivência. Segundo ela, o avanço do garimpo compromete os modos de vida tradicionais e agrava situações de vulnerabilidade social e sanitária.
A crise humanitária enfrentada pelo povo Yanomami, em Roraima, é um dos exemplos mais graves das consequências da mineração ilegal. A emergência de saúde pública declarada em 2023 revelou um cenário de desnutrição infantil, surtos de doenças e contaminação ambiental associados à presença de garimpeiros em território indígena.
Desmatamento afeta todo o país
Além do garimpo, o desmatamento continua sendo uma das principais ameaças à Amazônia. A derrubada da floresta para expansão de pastagens, ocupação irregular de terras públicas e exploração ilegal de madeira tem causado perda de biodiversidade e comprometido serviços ambientais essenciais para o equilíbrio climático. Somente em 2025, cerca de 289 mil hectares de vegetação nativa foram perdidos na região.
Os efeitos da destruição da floresta ultrapassam os limites da Amazônia. De acordo com André Porreca, a redução da cobertura vegetal interfere diretamente no regime de chuvas em diversas regiões do Brasil, afetando a agricultura, a pecuária e o abastecimento de água, especialmente no Centro-Oeste e Sudeste do país.
Para combater o avanço do desmatamento, o MPF utiliza ferramentas tecnológicas como o projeto Amazônia Protege, que cruza imagens de satélite e dados públicos para identificar áreas degradadas e responsabilizar os autores dos crimes ambientais. A iniciativa já resultou em diversas condenações e ações de recuperação ambiental em vários estados da Amazônia Legal.
Preservação é desafio global
Com a intensificação das mudanças climáticas e o avanço de atividades ilegais sobre a floresta, especialistas alertam que a preservação da Amazônia tornou-se uma questão de interesse global. Além de abrigar uma das maiores biodiversidades do planeta, o bioma desempenha papel fundamental na regulação climática e na manutenção dos recursos hídricos.
O Ministério Público Federal reforça que proteger a Amazônia significa garantir não apenas a conservação de uma das maiores riquezas naturais do mundo, mas também assegurar qualidade de vida, segurança ambiental e desenvolvimento sustentável para as atuais e futuras gerações.
(*) Com informações da Assessoria Ministério Público Federal (MPF)
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