Creche no Tarumã está ‘em obras’ há 11 anos: ‘de político, o único que ainda não veio aqui foi o Bolsonaro’

'Olhe um pouco mais pela gente, Sr. prefeito David Almeida!', apela o líder comunitário, que há 11 anos aguarda a finalização de obras da creche
Conceição Melquíades – PORTAL AM1
Publicado em 23/03/2022 05:02
A escola está tomada pelo matagal. O local onde deveria ser construído a área de lazer virou 'piscina' -Fotos: Conceição Melquiades|AM1

Manaus (AM) – Desesperança, descrença, raiva, amargura, expectativa zero. São essas as palavras ditas pelos moradores da comunidade União da Vitória, no bairro Tarumã-Açu, Zona Oeste de Manaus. Todo esse sentimento é fruto de um sonho frustrado, após 11 anos de espera da conclusão da obra da construção da creche municipal na rua Peixe-Cavalo, iniciada em 2011, na gestão do então prefeito de Manaus, Amazonino Mendes.

O pedreiro Manoel Francisco Paiva, de 67 anos, revelou que mora há 16 anos na comunidade e quando foi anunciada a construção da creche – quase de frente à casa dele – foi uma alegria para todos, pois além de saber que iria ter uma escola para os netos dele, teria também a oportunidade de aumentar a renda da família, pois montaria uma pequena lanchonete para sua esposa trabalhar e, assim, ter uma renda a mais para o sustento da família.

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“Quando aquele prefeito mentiroso disse que iria construir a creche, o meu neto estava com 4 aninhos e a mãe dele precisava deixá-lo em local seguro para poder trabalhar. Agora, ele está com 16 anos e já está até concluindo o ensino médio, não precisa mais da creche, mas tem um monte de mulher com filhos pequenos aqui, e nem escola suficiente para atender a população do bairro há!”, desabafou Paiva.

Manoel Paiva disse ainda que chegou a construir um pequeno ponto comercial na frente da casa dele, onde sua esposa poderia, de casa, fazer uma renda e ter mais independência financeira, pois na época, ele trabalhava na estrada e demorava uma quinzena para receber os proventos e trazer o sustento para os familiares.

“Fiz esse ponto aqui para minha esposa, que sonhava em montar um lanche para ela poder trabalhar. Mas a creche, até hoje, nunca aprontou e o sonho da mulher ficou só no projeto também, porque construíram essa creche no terreno alagado e quando chove, mais parece mais um rio. É tanta água que chega a subir quase um metro e tudo vai para o fundo. Isso aí foi só para enganar os bestas e gastar o dinheiro público à toa”, afirmou o morador, que disse ter testemunhado diversos políticos naquele local em período de campanha política, mas que nada fizeram para reparar o problema da creche.

“De políticos, o único político que ainda não veio aqui, ainda, foi o Bolsonaro. Pois já veio prefeito, secretário prometendo mundos e fundos, mas nada fazem!”, continuou Paiva.

Área externa da creche onde seria um campo para os moradores está cheia de mato

A creche, que nem nome tem, é conhecida como a ‘creche 42’, da Rua 31, por fazer parte do plano de campanha das 100 creches prometidas durante campanha do então prefeito de Manaus, Amazonino Mendes. A creche teve a fase de construção do prédio concluída e chegou a encher os olhos da comunidade. Faltava somente a parte elétrica e alguns detalhes; porém, terminou o mandato do prefeito e o prédio ficou abandonado.

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Amazonino Mendes, durante leitura da mensagem na abertura do ano legislativo da Câmara Municipal de Manaus (CMM), na manhã do dia 6 de fevereiro de 2012, disse que até o final daquele ano entregaria 100 creches em diferentes zonas da cidade. E que eram suas prioridades, entre tantas outras promessas anunciadas durante abertura dos trabalhos na CMM. A Prefeitura de Manaus contava com orçamento em torno de R$ 3 bilhões.

Prefeito de Manaus durante abertura dos trabalhos na CMM – Foto: Márcio James / SEMCOM

Amazonino Mendes foi eleito duas vezes prefeito de Manaus e três vezes governador do estado. Ele foi prefeito da capital de 1983 a 1986 e de 1993 e 1994. Também governou o Amazonas nos períodos de 1987 a 1990 e de 1995 a 2002. Além disso, foi senador pelo estado. Em 2004 e 2006, perdeu as eleições para prefeito e governador, respectivamente.

Não há vagas

A dona de casa Aline Caroline Guimarães, de 30 anos, disse que mora há nove anos no local e que desde que chegou ao bairro, o que viu foi um prédio abandonado. Ela, que tem dois filhos pequenos, um de 4 e outro de 2 aninhos, disse que gostaria muito de poder contar com uma creche para deixar seus filhos em segurança, para poder trabalhar.

“Meus filhos estão em idade de creche, só meu esposo trabalha porque não tenho com quem deixar meus filhos. E já estou preocupada, pois até as escolas que têm no bairro, não possuem vaga para todas as crianças da comunidade. Aqui, tem muita mãe que matricula seus filhos em escolas da estrada ou noutros bairros, pois não comporta [sic] todos os estudantes nas escolas daqui”, reclamou Aline, que sugeriu que fosse feito um espaço de lazer também para aquela região.

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“Aqui não temos nenhum tipo de associação de mães ou lugar que possam ser ofertados cursos para as mulheres. Eu vejo que em outras cidades há.”

Quem também reclamou da falta de creches na região foi a moradora Camila Correa Cardoso, de 26 anos. Ela tem um bebê de 11 meses e uma criança de três anos. Para ela, se não fosse a ajuda dos familiares, ficaria muito mais difícil, visto que quando precisa deixar os filhos para realizar algum serviço, conta com os parentes, pois não há creche e ela gostaria de fazer alguns trabalhos como diarista, para complementar a renda, mas não pode, pois os filhos não estão em creche, porque não há.

Retrato do descaso e do abandono

O descaso é evidente. O prédio onde deveria funcionar uma creche e atender boa parte da população do loteamento União da Vitória demonstra o retrato do abandono. Mesmo na gestão passada, quando o então prefeito de Manaus era Arthur Neto, o secretário de obras da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf), Marcos Rotta, hoje vice de David, e o próprio prefeito estiveram no local e viram a situação do prédio, os cuidados que deveriam ter sido realizados só foram pensados quando faltavam dois meses para terminar o mandato do prefeito.

Já na atual gestão do prefeito David Almeida, o prédio está deteriorado devido aos alagamentos e também por conta de vandalismo. Como foi abandonado, vândalos pegaram telhas, ferros, e outros materiais, deixando o prédio destruído. As fortes chuvas também fizeram com que uma parte do muro desabasse.

O prédio como um todo, mesmo sem nunca ter sido utilizado, apresenta paredes mal conservadas, grades enferrujadas, e o mato que tomou conta de todo o terreno, além de poças d’água em todos os locais.

O muro desabou com as fortes chuvas e o barro tomou toda a lateral do prédio

O caso mais grave é o do muro do prédio, que caiu e não foi feito nada para recuperar. O local virou abrigo para os cães, que deixam fezes em todas as partes e fazem companhia aos vigilantes que se revezam no monitoramento de segurança para que o prédio não seja mais depredado com a presença de baderneiros.

Na área interna da escola, o chão está tomado pelas águas das chuvas e os cachorros aproveitam o local

Apelo

“Olhe um pouco mais pela gente, Sr. prefeito”, apela o líder comunitário, André Lima Massa. Segundo ele, há dois anos que encaminha diverssas solicitações para a Prefeitura de Manaus, pedindo apoio para aquela comunidade.

Ofícios enviados às secretarias pelo líder comunitário, que pede por melhorias na comunidade

Lima diz que o ex-secretário Pauderney Avelino, ainda gestor da Semed, foi ao local e prometeu que entregaria a creche para a comunidade. Porém, passados três meses, ele se afasta do cargo para concorrer às eleições deste ano, e nenhuma satisfação deu para a comunidade.

Print do site Portal da Transparência

“Nossa comunidade é carente. As ruas estão precisando da operação ‘tapa-buraco’. Não há pavimentação adequada em parte do bairro e as famílias não possuem um Centro Desportivo Comunitário (CDC). Os jovens precisam de uma quadra de esportes, e aqui não temos”, pontuou o líder da comunidade que solicita mais atenção para o local.

Igarapé

A creche foi construída em uma área encharcada, próximo ao igarapé. Sempre que ocorre o período chuvoso, o igarapé que recebe as águas de vários leitos de rios, inunda, provocando alagamentos em todo o lote onde foi realizada a construção da creche. O lote não recebeu nenhum aterro e, ainda que tivesse tido as obras concluídas e fosse entregue à população, não poderia ser utilizado, pois o problema do alagamento ocorreria o tempo todo no período das chuvas.

Entramos em contato com a Semed, mas até a publicação da matéria nenhuma resposta foi dada; espaço segue aberto.

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