(Fotos: Diego Peres/Secom)
Manaus (AM) – A decisão da Justiça Federal que suspendeu todo o programa de créditos de carbono do governo do Amazonas não é apenas um revés jurídico: é um retrato claro da gestão ambiental improvisada e politicamente conveniente conduzida pelo governador Wilson Lima.
A 9ª Vara Federal em Manaus determinou a paralisação imediata do edital para escolha de empresas do modelo REDD+ em 21 Unidades de Conservação, além de impedir que órgãos públicos ou companhias contratadas entrem nessas áreas sem autorização.
A liminar atende a pedidos do Ministério Público Federal e da Funai, que apontaram o óbvio: o governo do Amazonas atropelou processos essenciais, ignorou comunidades indígenas e tradicionais e tentou empurrar um projeto milionário sem cumprir regras básicas de consulta e transparência.
A própria juíza Marília Gurgel Rocha de Paiva foi categórica ao dizer que o Estado não apresentou garantias mínimas de respeito social, ambiental e jurídico — e que sequer houve diálogo com quem vive e depende da floresta.
Relatos de moradores das áreas afetadas são constrangedores: a maioria afirma não ter sido consultada, não ter entendido o que é crédito de carbono e nunca ter visto representantes do governo explicando o projeto. Em alguns casos, lideranças souberam do programa pela imprensa, depois que Wilson Lima assinou um contrato durante a COP30 para implantar o projeto no Parque Estadual do Sucunduri.
Essa desconexão não é um acidente. É um método. O governo do Amazonas tenta sustentar uma política ambiental com selo internacional, mas que nasce sem diálogo, sem salvaguardas e sem participação social — exatamente o modelo de “sustentabilidade de fachada” que especialistas classificam como greenwashing.
Riscos graves e irregularidades estruturais
Os órgãos federais alertam que várias das Unidades de Conservação incluídas no edital se sobrepõem a Terras Indígenas, áreas que exigem consulta prévia, livre e informada, conforme determina a Convenção 169 da OIT. O governo Wilson Lima simplesmente ignorou isso.
Além disso, pareceres técnicos anexados ao processo afirmam que o projeto não demonstra capacidade real de gerar redução de emissões, colocando o estado diante do risco de comercializar créditos que não representam benefício climático algum. Em outras palavras: vender “ar quente”.
O governo estadual vinha anunciando o projeto como um marco ambiental capaz de gerar até R$ 590 milhões em três décadas.
A Justiça desmontou essa narrativa. O processo revela um estado que tenta ingressar no mercado de carbono sem instrumentos básicos de governança, monitoramento, transparência e participação social — ingredientes que definem se o projeto é sério ou apenas uma grande operação política travestida de compromisso climático.
Ao suspender o programa, a Justiça expôs algo que já vinha sendo alertado por especialistas: o governo Wilson Lima corre para apresentar resultados ambientais a qualquer custo, enquanto ignora o elemento mais importante da preservação: as pessoas que vivem no território.
Política ambiental de Wilson Lima desaba
A suspensão judicial não é um detalhe burocrático. É um freio necessário a um governo que tenta negociar carbono sem antes garantir direitos básicos.
Wilson Lima, novamente, aposta mais em marketing do que em política pública.
O episódio deixa claro que o Amazonas não precisa de anúncios em conferências internacionais, mas de responsabilidade, consulta, transparência e governança real.
Enquanto isso não for prioridade, qualquer projeto ambiental do governo continuará sendo desmontado, pela Justiça, pelas comunidades e pela própria realidade da floresta.
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