O vínculo da empresa dos irmãos com a UEA permaneceu ativo durante a atual administração e chegou a um valor global de quase R$ 8 milhões (Foto: Governo do Amazonas e Montagem/IA/Portal AM1)
Manaus (AM) — O governador e candidato à reeleição Roberto Cidade (União Brasil) afirmou, ao assumir o Governo do Amazonas, que determinaria o encerramento de contratos estaduais com empresas ligadas à própria família. O discurso, porém, encontra um obstáculo nos documentos da Universidade do Estado do Amazonas (UEA): uma empresa pertencente aos irmãos do governador continua contratada pelo Estado, recebeu novo termo aditivo e teve o valor global elevado para R$ 7,9 milhões.
A contradição veio à tona novamente nesta quarta-feira (16), durante sabatina da Rede Amazônica. Questionado sobre a permanência do contrato, Cidade afirmou que desconhecia os detalhes do vínculo e que precisaria verificar a situação.
“Deve ter sido alguma questão de rescisão, alguma questão que a gente precisa olhar com muito carinho.”
A resposta chama atenção porque o contrato envolve diretamente seus irmãos e já havia sido revelado pelo Portal AM1 em agosto. O acordo com a RR Serviços de Transporte e Navegação Ltda. teve reajuste de 4,68%, elevando o valor global para R$ 7.916.570,88.
Cidade prometeu encerrar
Na própria sabatina, o governador reafirmou que, ao assumir o Executivo estadual, determinou o encerramento dos contratos envolvendo empresas de familiares.
“Não é ilegal, mas por se tratar do Governo do Estado e como governador, na minha opinião, é imoral. Por isso que, no momento que eu assumi o Governo do Estado do Amazonas, eu pedi que todos os contratos fossem encerrados.”
É justamente aí que aparece a principal contradição do caso. Cidade diz que mandou acabar. O contrato mostra que continuou. E não apenas continuou: recebeu reajuste.
O vínculo da empresa dos irmãos com a UEA permaneceu ativo durante a atual administração e chegou a um valor global de quase R$ 8 milhões.
Se a determinação do governador era encerrar todos os contratos familiares, a permanência desse acordo exige uma explicação objetiva sobre quem permitiu sua continuidade e por que a ordem anunciada não foi cumprida nesse caso.
Contrato continuou e ficou mais caro
O contrato em questão é o nº 043/2023-UEA, firmado com a RR Serviços de Transporte e Navegação Ltda. A empresa tem como sócios Grace Kelly Arruda Cidade e Renan Matheus Arruda Cidade, irmãos do governador. O quarto termo aditivo aplicou reajuste de 4,68% e elevou o valor global para R$ 7.916.570,88. O acordo representa aproximadamente R$ 659,7 mil por mês.
O contrato prevê a locação de veículos destinados às unidades da UEA no interior do Amazonas, incluindo motorista, combustível, seguro e manutenção. O reajuste ocorreu em 28 de agosto, durante o ano eleitoral e enquanto Roberto Cidade disputa a reeleição.
Não há, apenas pela existência do contrato ou do reajuste, conclusão pública de ilegalidade. O ponto central é outro: a promessa de encerramento dos contratos familiares não se concretizou integralmente na prática.
O governador diz não conhecer o contrato
A situação ficou ainda mais delicada durante a sabatina. Ao ser questionado sobre a permanência do contrato, Cidade não apresentou uma explicação sobre sua continuidade. Disse que precisaria verificar se houve alguma questão relacionada à rescisão.
A resposta cria uma pergunta inevitável: como um contrato de quase R$ 8 milhões, firmado com uma empresa de propriedade dos próprios irmãos do governador, permaneceu ativo e recebeu aditivo sem que o chefe do Executivo soubesse explicar sua situação?
A questão ganha peso porque o próprio governador havia apresentado o encerramento desses contratos como uma decisão política e ética de sua administração.
O histórico de Cidade também entra no debate
Antes de assumir o Governo do Amazonas, ele presidiu a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam). Entre as atribuições do Legislativo está a fiscalização dos atos do Executivo.
Isso não significa que o presidente da Assembleia tenha obrigação de conhecer individualmente todos os contratos firmados pelo Governo.
Mas os contratos envolvendo empresas da família já existiam antes da chegada de Cidade ao Executivo. A questão, portanto, passa também pela transição entre os dois momentos: se o governador conhecia a existência desses vínculos e decidiu encerrá-los ao assumir, por que um deles permaneceu ativo durante sua própria administração?
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