(Foto: Ricardo Stuckert-PR)
Neste dia mundial do meio ambiente, marcado pela preocupação com a possibilidade de um forte El Niño no segundo semestre, impõe-se uma reflexão sobre a ameaça de escassez hídrica na bacia amazônica.
Durante décadas, a Amazônia simbolizou a maior reserva de água doce do planeta e alimentou a crença de que estaria imune a crises hídricas. No entanto, no último El Niño, em 2023 e 2024, as secas extremas desmontaram essa percepção, expondo rios em níveis críticos, comunidades isoladas, mortandade de peixes, doenças hídricas e dificuldades de abastecimento das populações, demandando ações emergenciais do Sistema de Defesa Civil.
A situação expôs uma vulnerabilidade histórica pouco discutida: a abundância de água não afasta situações crônicas de privação de acesso à água potável e ao saneamento básico, que ficam ainda mais agravadas em episódios críticos de escassez durante as estiagens severas.
Diante desse novo cenário climático e humanitário, experiências de países e povos acostumados a lidar com secas severas oferecem lições valiosas sobre planejamento, adaptação e segurança hídrica que podem se tornar decisivas para o futuro do bioma Amazônia.
Israel, por exemplo, transformou a sua escassez em política de estado, investindo em reúso de água, dessalinização e irrigação eficiente. Singapura seguiu esse mesmo caminho e converteu o tratamento de efluentes em fonte estratégica de abastecimento urbano. A Austrália, por sua vez, aprimorou mecanismos de alocação hídrica compatíveis com os limites ecológicos das bacias. Já a Califórnia passou a estruturar políticas permanentes de adaptação diante de secas recorrentes.
No Sudeste da Espanha, durante visita recente à região de Múcia e Alicante, chamou-nos atenção o contraste entre a natural semiaridez mediterrânea e a disponibilidade inteligente de água em infraestruturas urbanas e zonas rurais, revelando que a gestão de água tornou-se parte da cultura institucional e social no país. Observamos a integração entre os sistemas de gestão de águas e de saneamento, dentre outros, na reutilização de efluentes tratados para a produção agrícola, sistemas de irrigação equipados com sensores de alta precisão e, no meio urbano, no uso de água reciclada em bacias de retenção, nos serviços de limpeza urbana e na rega de áreas verdes.
Apesar das diferenças geográficas e econômicas, todas essas nações possuem algo em comum: compreenderam que a segurança hídrica depende menos da abundância natural e mais da capacidade institucional de planejar, monitorar, conservar e utilizar racionalmente a água.
Mas nem toda experiência internacional pode ser replicada. De lado os sistemas incompatíveis, registram-se episódios mal sucedidos. Citamos, a título de exemplo, o desvio de rios para a irrigação de monoculturas que provocou o desaparecimento do Mar de Aral, na antiga União Soviética. Essa lição é particularmente importante para a Amazônia porque a adaptação hídrica não pode significar reprodução de modelos predatórios de ocupação territorial ou expansão agrícola incompatíveis com os limites ecológicos da floresta e de seus ciclos hidrológicos.
Saberes tradicionais e locais
Por outro lado, povos indígenas e comunidades ribeirinhas da Amazônia acumulam conhecimentos tradicionais relevantes sobre manejo sustentável e adaptado às vazantes dos rios, oferecendo soluções baseadas na natureza. Valorizar esses conhecimentos constitui estratégia fundamental de adaptação climática e resiliência
Em semelhante toada, a ciência amazônica começa a desenvolver respostas adequadas. Pesquisadores da UFPA criaram sistemas de tratamento e filtragem de água utilizando materiais acessíveis e sustentáveis, como telhas cerâmicas e caroços de açaí. O projeto “Água de Beber”, desenvolvido por pesquisadores do Instituto Mamirauá (ligado ao MCTI), tem ampliado o acesso à água potável para comunidades ribeirinhas por meio de tecnologias sociais adaptadas às condições da várzea amazônica.
Outras instituições, como Embrapa e o INPA, têm atuado e vêm desenvolvendo pesquisas sobre irrigação eficiente em sistemas agroflorestais (Tecnologia IrrigaPote), monitoramento hídrico, agricultura familiar sustentável e adaptação produtiva frente às estiagens. Essas iniciativas mostram que a adaptação hídrica da Amazônia passa ainda pelo fortalecimento da inovação científica regional articulada aos conhecimentos ecológicos locais.
Por fim, a principal lição extraída dessas experiências é a de não esperar que a crise se consolide para somente então (re)agir. Até porque já se é sabido que isso costuma gerar custos econômicos, sociais e ecológicos muito maiores. Sobre a Amazônia, é preciso desconstruir o antigo dogma de abundância hídrica e atentar para os sinais emitidos pelas secas extremas em seu território. Só assim avançaremos na construção de uma política pública de adaptação vigorosa e comprometida com o futuro. Pesquisa, inovação e saberes não nos faltam; vontade política, talvez…
(*) Ruy Marcelo – MSc. e doutorando em Direito Ambiental pela UEA, Amanda Luz – Mestranda em Finanças Públicas





