Política se transforma em ‘dinastia familiar’ e vira herança patriarcal no Brasil

De acordo com o cientista político Carlos Santiago, essa prática é considerada 'patriarcais antidemocráticas'
Camila Duarte – Portal AM1
Publicado em 04/06/2022 05:00
Foto: Reprodução

Manaus – A cada eleição, os políticos tentam se reeleger para segurar os mandatos e continuar nos cargos públicos. No entanto, de um tempo para cá, os políticos têm preparado a família para assumir cadeiras nas Casas Legislativas, formando uma verdadeira dinastia familiar no cenário político.

Um dos exemplos dessa dinastia é a família que está sempre nos holofotes, seja por polêmicas ou por ações: a família Bolsonaro. Com o pai na presidência da República, Jair Bolsonaro (PL) puxa a fila ocupada pelos três filhos mais velhos, que conseguiram cargos de senador, deputado federal e vereador.

Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro assumiram um papel fundamental de defenderem o governo federal, não só pelo fato de ser o pai na presidência, mas também pelos ideais defendidos e por não ser um partido de esquerda no comando do país.

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Seja nas redes sociais ou nas Casas Legislativas, o clã Bolsonaro está disposto a defender o governo federal e a imagem do chefe da família. No entanto, não é somente essa família que se destaca no cenário político. Outro exemplo é a família Ferreira Gomes, tendo como principal destaque o ex-ministro Ciro Gomes.

No Ceará, o legado da família de Ciro não inicia com ele, mas sim com uma migração portuguesa. Foram diversos familiares do pré-candidato a presidência que ocuparam cargos importantes. O pai de Ciro, José Euclides Jr, que ocupou a prefeitura de Sobral durante a Ditadura Militar.

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Pouco tempo depois, Ciro Gomes e o irmão Cid Gomes entraram para a política, junto ao irmão Ivo Gomes. Os irmãos ocuparam diversos cargos, Ivo e Cid, por exemplo, já foram deputado estadual e prefeito de Sobral, além de Cid ter ocupado o governo do Ceará.

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Ciro foi o irmão que mais se destacou na política, tendo mandatos como deputado estadual, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará, ministro da Fazenda, ministro da Integração Nacional do Brasil, deputado federal, além de concorrer a presidência da República.

Nada diferente da família Ferreira Gomes e Bolsonaro, a família do senador Renan Calheiros tem uma influência na política. Acumulando mandatos no Senado Federal, Calheiros integra uma das famílias mais tradicionais da política em Alagoas, essa que já foi apoiada pelo ex-presidente Lula.

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O filho de senador, Renan Filho, também já faz história na política, já tendo ocupado o governo de Alagoas, assim como o posto de deputado federal e prefeito de Murici, assim como de seu pai. O irmão do senador, Olavo Calheiros, também já teve a candidatura lançada para deputado estadual.

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Mas a grandeza da família Calheiros não para por aí, outros irmãos do senador, como Remi Calheiros e Renildo Calheiros, também já foram prefeitos de importantes cidades do estado.

A herança política vem de família para família, como é o caso do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto. Ele herdou um nome de peso de uma das famílias mais tradicionais no cenário político, graças ao avô Antônio Carlos Magalhães, que foi governador da Bahia por três vezes, além de ter sido senador.

Os cargos importantes na política não ficaram apenas para o avô. O pai de ACM, Antônio Carlos Magalhães Júnior, também assumiu um papel importante na política da Bahia, sendo senador do estado por duas vezes. Assim como o tio, Luís Eduardo Magalhães, que teve mandados de deputado estadual e federal, e conseguiu ser o presidente das Casas Legislativas.

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O ex-prefeito de São Paulo, Bruno Covas, também foi fruto de um legado político familiar. Isso porque o o ex-governador Mário Covas puxou a família Covas para o poder paulista, onde se iniciou em 1962, quando foi eleito deputado estadual.

De lá para cá as coisas não mudaram, e a família Covas foi ganhando espaço com Bruno Covas, o qual é neto de Mário, além do vereador Mário Covas Neto, que é filho do próprio.

Foto: Reprodução / Twitter

Dinastia no Amazonas

Uma das famílias que chama atenção no cenário político amazonense é a Pinheiro, de Coari, que detém o poder do município há cerca de 20 anos, mesmo embalada por muitas polêmicas e investigações. Tudo começou em 2001, iniciado pelo ex-prefeito da cidade, Adail Pinheiro, reeleito em 2005 com mandato exercido até 2008.

Foi durante esse período que Adail conseguiu crescer politicamente arrastando junto com ele membros da família, que hoje também atuam nos órgãos públicos e no sistema político não só do município, como também do Amazonas.

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Em 2017, Adail Filho, caçula de Adail Pinheiro, conseguiu se eleger como prefeito do município, onde permaneceu até fim do ano passado, após sua candidatura nas eleições 2020 ter sido indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

Foto: Reprodução / Redes Sociais

A família também emplacou a médica Mayara Pinheiro, como vice-prefeita de Coari. Ela é filha de Adail Pinheiro e irmã de Adail Filho. Atualmente, Mayara é deputada estadual na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam).

Além deles, ocupam ou já ocuparam cargos políticos no município Jeany Pinheiro, Keitton Pinheiro, Dulce Menezes e Neto Pinheiro. Keitton conseguiu seguir a tradição da família e vencer as eleições para prefeito do município, estendendo o reinado Pinheiro em Coari.

Família Lins

Com 32 anos de parlamentar, o deputado estadual Belarmino Lins, conhecido como Belão, decidiu que está na hora de se aposentar. Porém, o bastão da vida política será passado para o filho, George Lins, que continuará com o legado da família.

Belarmino foi eleito deputado pela primeira vez em 1990 e desde então acumula vitórias nas eleições, com um forte eleitorado no interior do estado. Na vida parlamentar, o deputado acumula cargos de  presidente, vice-presidente da Casa Legislativa, além de presidente e vice de diversas comissões.

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Foto: Divulgação

Outro personagem importante da família é o deputado federal Átila Lins, que além da força política, também carrega o nome no ramo empresarial.

Na Assembleia, a família ganhou um reforço com a eleição de Fausto Jr, filho da ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE), Yara Amazônia Lins Rodrigues dos Santos. Além disso, a família também conseguiu emplacar uma vereadora em Manaus, Yomara Lins.

Prática antidemocrática

Conforme explicou o cientista político Carlos Santiago, essa prática está associada com a organização dos partidos políticos que, de acordo com ele, “são práticas patriarcais antidemocráticas”. “São práticas terríveis usadas, independentemente, de posições políticas, ideologias partidárias, de gênero e até de classe social”, disse.

Ao Portal AM1, o cientista afirmou que é difícil combater “essas ações anti-republicanas”, uma vez que seria necessário mudar as formas de organizações partidárias, como os estatutos dos partidos. No entanto, isso seria impossível por conta do atual Congresso Nacional.

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“Tais movimentações são realizadas por todos os partidos com ideologias diversas. Só tem um jeito de barrar, é o eleitor se conscientizar de novas lideranças, de novas práticas, de renovação política, e que a política não seja a representação de interesses familiares e de grupos, e buscar políticos de qualidade, éticos, pois só assim a sociedade terá bons governantes”, comentou.

Foto: Divulgação

Como exemplos, o cientista citou o PSD do senador Omar Aziz, comandado por ele e pela esposa, Nejmi Aziz, além do PSDB, de Arthur Virgílio Neto, integrado pelo filho Arthur Bisneto e a esposa. A família Pinheiro também não fica de fora da lista.

“A família Pinheiro é uma demonstração clara de que essa prática funciona no Amazonas. Um familiar na prefeitura, uma irmã na Assembleia e agora ele busca como deputado”, disse. De acordo com Santiago, o uso dos partidos políticos para esses fins são financiados com recursos públicos, além de destacar que bancar as siglas com o dinheiro da população são práticas anti-republicanas.

“A sociedade precisa exigir dos representantes do Congresso Nacional uma mudança na lei dos partidos políticos. A sociedade não pode mais bancar com recursos bilionários, grupos políticos, grupos familiares, que não estão interessados na democratização, na renovação política e, acima de tudo, na melhoria da qualidade de vida dos brasileiros”, finalizou.

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