(Fotos: Reprodução Gilson Abreu/ Agência Senado e Assessoria de Rosinaldo Bual)
Manaus (AM) – Mesmo após ser preso durante a “Operação Face Oculta”, o vereador Rosinaldo Bual (Agir) continua recebendo seu salário integral de R$ 26 mil por mês, custeado pelos cofres públicos de Manaus. A situação tem gerado revolta e críticas entre a população manauara, o que revela mais um caso e mais retrato da desigualdade e da impunidade que marcam a política brasileira.
A prisão do parlamentar no início do mês de outubro (3), foi motivada por uma investigação do Ministério Público do Amazonas (MP-AM), que identificou uma movimentação atípica de R$ 5 milhões em contas pessoais de Bual somente em 2025, valor completamente incompatível com os vencimentos oficiais de vereador. O MP aponta que o dinheiro tem origem em um esquema de rachadinha no gabinete do parlamentar.
Indignação nas ruas
Enquanto o vereador permanece preso e remunerado, nas ruas de Manaus a indignação cresce. Trabalhadores e estudantes se dizem cansados de ver privilégios mantidos para políticos acusados de corrupção, enquanto o cidadão comum sofre com cortes de benefícios e falta de oportunidades.
O autônomo Marcos Bucão expressa a revolta de quem luta diariamente pela sobrevivência:
“Eu acho injusto. Tem gente que perde auxílio por muito menos. Se uma pessoa comum é presa, perde tudo. Por que ele continua recebendo? Direitos deveriam ser iguais.”
A Técnica de Enfermagem Kaline de Paula também critica a falta de ética e transparência no poder público:
“A população fica indignada porque parece que a justiça não é feita da forma correta. A gente precisa de transparência, de um tratamento justo. O povo merece respeito.”
Já o empresário José Siqueira cobra uma postura mais firme das autoridades:
“O dinheiro dele deveria estar bloqueado até o fim do processo. Se for culpado, não tem por que continuar recebendo salário.”
Enquanto o estudante Maison Souza, destaca que a manutenção do salário do vereador mesmo após a prisão reflete um problema estrutural na política brasileira.
“Eu não concordo. A classe política no Brasil é muito privilegiada. Esses privilégios deveriam ser redistribuídos para os trabalhadores que realmente precisam. Essa situação mostra o quanto o nosso sistema político ainda é mal estruturado”, afirmou o estudante.
Suspeita de Rachadinha e cofres cheios de dinheiro
Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), cerca de 50 servidores do gabinete de Bual eram obrigados a devolver metade do salário ao vereador. As devoluções eram feitas em dinheiro vivo ou por transferências diretas.
Durante as buscas, os agentes apreenderam três cofres, um na casa de Bual, outro na casa da mãe dele e um terceiro em seu sítio. Dentro deles, foram encontrados R$ 390 mil em espécie, dois cheques que somavam mais de meio milhão de reais e diversos documentos. Segundo o MP, o vereador se recusou a fornecer as senhas, e os cofres precisaram ser abertos com apoio do Corpo de Bombeiros.
Uma política de privilégios
O caso de Rosinaldo Bual reacende o debate sobre os benefícios e garantias concedidos a agentes públicos no Brasil, que continuam a receber remuneração mesmo em situações de prisão preventiva ou afastamento temporário.
Enquanto o processo judicial segue em andamento, o vereador permanece oficialmente como servidor ativo da Câmara Municipal de Manaus, com direito à manutenção do salário mensal.
A situação ocorre em um contexto nacional de desigualdade econômica e cortes de benefícios sociais, o que tem gerado questionamentos por parte da população sobre a aplicação uniforme das regras entre servidores públicos e cidadãos comuns.
Reflexo de um sistema em discussão
Mais do que um caso isolado, a situação de Rosinaldo Bual tem levantado debates sobre a forma como o sistema político e administrativo lida com parlamentares afastados ou presos preventivamente.
Atualmente, a legislação não impede a continuidade do pagamento de salários enquanto não houver decisão judicial definitiva ou ato formal de suspensão por parte da Câmara Municipal.
Até o momento, a Câmara Municipal de Manaus não se pronunciou sobre a possibilidade de suspensão dos vencimentos do vereador durante o andamento do processo. A situação tem sido acompanhada por órgãos de controle e por setores da sociedade que cobram maior transparência e revisão das normas vigentes.
LEIA MAIS:





