Líder indígena do AM critica mérito indigenista dado a Bolsonaro: ‘foi vergonhoso’

Em conversa com o Portal AM1, Vanda Witoto criticou Medalha dada ao presidente em Brasília.
Camila Duarte – Portal AM1
Publicado em 22/03/2022 05:03

Manaus, AM – A líder indígena amazonense, Vanda Ortega Witoto, criticou em entrevista exclusiva ao Portal AM1 a honraria concedida ao presidente Jair Bolsonaro na última sexta-feira, em Brasília. O presidente recebeu a Medalha do Mérito Indigenista e disse: “somos todos iguais”, em meio às críticas por defender a liberação da mineração em territórios indígenas, entre outras opiniões, como afirmar que o Brasil já tem “terras demarcadas demais para índios”.

“Para mim foi vergonhoso, foi muito triste. Ver as nossas penas na cabeça de um governo que tem contribuído para não demarcação de terras indígenas, por avanço de mineração no território indígena. Não é uma honraria, é uma desonra para nossos ancestrais”, apontou.

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Para Vanda, a honra entregue a Bolsonaro é uma desonra para os ancestrais. “As instituições governamentais, hoje, a sua maioria está tomada por militares. Certamente, isso vira a cabeça daquele homem, que pensa o genocídio dos nossos povos, coroado com o nosso cocar sagrado. É um grande desrespeito pelo que esse cocar representa para nós”, disse.

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Vanda participará de uma audiência pública na Câmara dos Deputados que vai debater a participação, avanços e conquistas de mulheres indígenas na política, nesta terça-feira (22). Sendo uma das personalidades de destaque na luta indígena no Amazonas, Vanda foi uma das convidadas para participar do debate no Congresso, proposto pela deputada Joênia Wapichana (Rede), primeira mulher indígena a ser eleita para a Câmara dos Deputados.

O encontro faz parte da programação da Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, sendo parte da campanha Março Mulher, que tem como objetivo incentivar debates sobre temas como conquistas sociais, políticas e econômicas, além da conscientização da sociedade sobre as desigualdade e os desafios para as mulheres.

Foto: Reprodução / Instagram

No início de março, Witoto participou da 1º Marcha das Mulheres Indígenas do Amazonas, que também destacou o protagonismo das mulheres indígenas frente às organizações indígenas. Além disso, no Dia Internacional da Mulher, o evento contou com rodas de conversa sobre a luta, a resistência, o racismo enfrentado pela mulher indígena

Em conversa com o Portal AM1, a líder indígena afirmou que o debate será uma reflexão sobre os avanços dentro da política para a participação das mulheres indígenas no Brasil. Vanda comentou que ainda não houve avanços tão significativos, mas que eleger a primeira mulher indígena foi uma conquista para o país.

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“Em 2018, elegemos a primeira mulher indígena da história desse Brasil, num pleito político. Ainda não conseguimos avaliar esses avanços, mas isso foi uma grande conquista para nós, mulheres indígenas, ter Joenia Wapichana eleita no nosso país. E, certamente, ela tem nos encorajado e tem nos incentivado, enquanto mulheres, estamos recebendo formações políticas para que a gente ocupe esses espaços”, disse.

Joênia convidou a líder indígena do Amazonas/ Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Witoto ressaltou que ocupar os espaços de poder é necessário para que os povos indígenas, assim como outras minorias, possam ter os direitos efetivados. De acordo com ela, mesmo que os direitos conquistados estejam constitucionalmente garantidos, ainda é preciso lutar por eles, uma vez que sofrem ameaças.

“Temos direitos garantidos, mas não temos efetivação deles. Hoje estamos com esses direitos ameaçados, então nós precisamos da representação da sociedade como um todo. Ela precisa ocupar esses espaços, mulheres, mulheres da periferia, quilombolas, ribeirinhas, indígenas, trans. Esses núcleos da sociedade precisam estar nesses espaços de poder para que consigam reivindicar e fazer com que os direitos sejam efetivados”, explicou.

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Foto: Reprodução / Instagram

Segundo ela, é importante que essas classes comecem a ocupar os cargos de poder, uma vez que são representadas pela “elite”. “Enquanto a elite estiver falando por nós, ou em silencio por nós, porque oque vemos é o silenciamento dos nossos direitos, porque quem nos representa não sente e não vivencia aquilo que nos atravessa”, destacou.

Inspiração

Sendo destaque na luta indígena, Witoto afirmou que a posição dela pode se tornar inspiração para outras mulheres indígenas, inclusive, ela ressaltou ao Portal AM1 que também é inspirada pela deputada Joenia Wapichana.

“Nós hoje somos inspirações para outras mulheres. Estamos trabalhando muito nisso para que outras mulheres se apoderem desse espaço, tenham essa consciência política e queiram participar da política, para que a gente, de fato, lute por transformações que acreditamos”, disse.

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Foto: Reprodução / Twitter

“Nós passamos por muitos desafios, e nesse cenário político, ele é mais desafiador ainda para gente, porque as violências direcionadas para os nossos corpos são triplicadas como algo um pouco naturalizado. Agora, com a ocupação das mulheres nos espaços, começamos a combater e não é uma situação fácil. O corpo, a mente, o espirito precisa estar em equilíbrio, para poder fazer essa caminhada, que é desafiadora”, declarou.

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